MC Tha prova que funk e religião podem se misturar
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- Por Gabriela Ferreira

MC Tha prova que funk e religião podem se misturar

Cria da Cidade Tiradentes, zona Leste de SP, MC Tha vem se destacando no cenário musical. Além de estar confirmada como atração no Lollapalooza 2020, ela tem circulado por festivais menores ao redor do país e provavelmente deve aparecer como destaque em listas de melhores discos com o lançamento de seu primeiro disco, o “Rito de Passá“, disco que tem influências do funk e da espiritualidade. Chega mais pra conhecer a artista.

Funk e religião são dois dos grandes pilares nas quebradas – como já foi mostrado em “Sintonia“. Podemos dizer que a religião evangélica é uma das mais populares, mas óbvio que cada um escolhe a religião que mais te completa, e no caso de Thais Dayane da Silva, mais conhecida como MC Tha, foi a umbanda. “O funk chegou em mim primeiro. Sempre tive uma conexão com a espiritualidade, acompanhava minha avó na igreja, gostava muito, mas entendia que lá não era meu lugar”, explica Tha sobre o que a pegou primeiro, a religião ou a música. “O funk eu conheci bem novinha e aos 15 comecei a cantar nos bailes de quebrada, arrisco dizer que eu fui a primeira MC mulher do meu bairro”, o berço do funk em São Paulo.

“Eu tinha receio de terreiro, assim como a maioria dos jovens que crescem em periferia tem, ainda mais nos dias de hoje em que o “Deus” da periferia é um “Deus” evangélico e tudo o que não faz parte disso é considerado do demônio, mas eu tinha curiosidade por aquele mistério”, comenta ela sobre como começou sua descoberta religiosa. “Fui passar a me interessar mais e entender a Umbanda e o candomblé, depois de grande”.

Como Tha diz lá em cima, o corre no funk começou cedo, aos 15 anos. Hoje, ela já está com 26 e são praticamente dez anos na música. “Comecei a cantar na Cidade Tiradentes por incentivo de amigos que também eram MCs. Tínhamos um bonde chamado Bonde Sinistro e um dia eu compus uma música que falava o nome de todos os meninos e meninas que participavam. O pessoal gostou e eu fui fazendo show em várias quebradas e lançando as músicas que eu fazia. Isso em 2009”, relembra ela. “Depois de um tempão eu comecei trabalhar e pagar minha faculdade. Fiquei um tempo sem cantar e depois voltei já com essa ideia de misturar o funk com outros estilos musicais que eu gosto”.

Uma das potências culturais da quebrada são as Fábricas de Cultura, que promovem shows, eventos e tudo relacionado à música, arte, temáticas sociais e afins. Tha trampou em uma dos 18 aos 23 anos. “As Fábricas têm uma importância imensa. Eu cresci e aprendi muita coisa lá dentro porque eu tinha contato com várias manifestações culturais fora o funk e isso foi ampliando a minha bagagem e interesse pelas coisas. Acredito que seja assim pra quem desfruta das atividades. É uma chance que a periferia tem de ter experiências de troca e acesso à arte”.

Quando voltou a se dedicar mais a música, Tha voltou com tudo e agora em 2019, lançou seu primeiro álbum, o “Ritmo de Passá”, que tem aquela mescla de referências musicais e fala bastante sobre espiritualidade. “Sempre fui muito aberta a coisas novas e desde o começo eu sempre quis tentar misturar o funk com outras coisas, mas naquela época o funk ainda era bem fechado”, comenta ela sobre o conceito do CD. “Quando passei a sair mais do meu bairro pra estudar e trabalhar, fui conhecendo muita coisa nova e pessoas também. Daí entendi que eu podia criar a minha forma de expressar o funk, que não precisava ser igual ao que todo mundo faz. Falo de questões pessoais assim como o funk padrão, mas uso outras palavras, outros modos e tudo é muito natural”.

As primeiras músicas de Tha, “Olha Quem Chegou” e “Pra Você” têm uma pegada bem funk mainstream mesmo, e agora, com as letras e produções mais pessoais, com a inclusão das influências da umbanda, MC Tha se tornou singular no cenário musical, já que a artista une duas coisas consideradas opostas.

Há quem possa achar estranho a mistura da religião com o funk, mas Tha não sofreu nenhuma represália. “Pelo contrário, fui muito bem aceita. Sinto que existem jovens carentes de alguém que represente a umbanda e o candomblé e que fale dessas questões abertamente”.

Para MC Tha, o funk é mais que um ritmo musical. “O funk é movimento social, mesmo que de forma um pouco desorganizada, desarticulada, mas talvez é aí que se esconde o poder”.

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