"Festival Funk Da Hora" mostra resistência da quebrada com debates e shows

Autor: Karolyn Andrade e Wenderson França

Fotos por: Karolyn Andrade e Wenderson França

Matérias | 16/12/2019 17:21:01

Anexo faltante

Cidade Tiradentes voltou a ser sede dos festivais de funk. Dividido em dois dias, rolou neste último final de semana o “Festival Funk Da Hora”. Organizado pela prefeitura de São Paulo, o evento aconteceu no Centro Cultural e de Formação Cidades Tiradentes e teve por objetivo discutir a descriminalização do funk, dialogando sobre dança, carreira, criminalização, mulheres no funk, documentários e distribuição digital em diversas mesas com convidados de peso. Para deixar tudo ainda mais foda, o festival também contou com shows de MC Carol, MC Tati Quebra-Barraco, MC Xuxu entre outros. Cola com o Portal KondZilla e fique por dentro de tudo o que rolou.

É difícil falar de funk em SP sem citar Cidade Tiradentes. Seja pelos artistas da região, pelos populares pancadões citados nas músicas ou até mesmo pelo primeiro videoclipe da KondZilla, “Megane”, do MC Boy dos Charmes. Outro destaque é o “Funk Festival” organizado pela subprefeitura local. O evento teve sua primeira edição em 2008 e seguiu pelos anos seguintes de 2009 e 2010 revelando artistas estourados até hoje tipo MC Dede e MC Nego Blue. Agora em 2019, a prefeitura retoma o projeto com dois dias de evento e o governador anunciou o “Favela Fest” para 2020.

Festival Funk da Hora – Sábado

Com mais de 10 anos na discussão se organiza ou não eventos voltados ao funk e logo após o ocorrido no baile da DZ17 em Paraisópolis, mais uma vez a prefeitura de São Paulo volta a trabalhar com o ritmo favorito das favelas e Cidade Tiradentes foi escolhida como palco para o “Festival Funk da Hora”.


MC Pôneis e Bruno Ramos

Mais do que entretenimento, o sábado e domingo no CCFCT foram marcados por uma troca de conhecimento sobre o funk e sua descriminalização. Para abrir tivemos MC Baronnesa, MC Danny e MC Nicky com mediação de Andressa Oliveira dando o papo no cinedebate com o documentário “Funk de Mina“. Logo em seguida rolou a mesa que tratou sobre masculinidades de quebrada com o apresentador do Canal Favela Business, Jeferson Delgado e Thiago Torres, o chavoso da USP. A mediação foi feita por Lam Matos, um homem trans questionador da masculinidade tóxica, o principal assunto abordado na mesa.

MC Pôneis, Bruno ramos, Julia Moraes e Baby Querino

A terceira mesa do dia tratou sobre funk e a criminalização da cultura e talvez foi o ponto central do primeiro dia do “Festival Funk da Hora”. Mediados por Bruno Ramos, os debates foram estimulados pela dançarina Baby Querino, a mestranda em criminologia Julia Moraes e MC Pôneis. Um dos assuntos mais abordados entre os diálogos foi a morte de 9 jovens durante uma operação policial no baila da Dz7.

Com uma longa jornada no cenário do funk paulista, Bruno Ramos um dos produtores do “Festiva Funk da Hora” desabafou sobre o assunto. “O primeiro passo é esse aqui. É a partir das rodas de conversas que buscamos atingir outras pessoas”. O articulador disparou. “Todos os artistas grandes que eu estou trombando eu estou cobrando pesado”, referiu-se ao posicionamento sobre o ocorrido em Paraisópolis.

Rafaela Bebiano, Alice Guél, Natt Matt e MC Xuxu

A quarta mesa foi destinada ao debate sobre o espaço e a visibilidade trans no funk. MC Xuxu foi responsável por convidar as artistas: Rafaela Bebiano, Natt Matt, Mlk de Mel, Alice Guél e Ayní que trataram a produção independente para corpos (in)desejados. Dentre os debates foi abordado o preconceito com as mulheres e homens trans dentro da música. Natt Matt disse, inclusive, ter aprendido a produzir suas músicas porque no início da sua carreira não encontrava pessoas dispostas a fazer- mesmo quando era pago. A artista deixou claro que para ela sem dúvidas isso é reflexo do preconceito velado que a sociedade carrega. Bem como, no próprio dia do “Funk da Hora”, MC Xuxu relatou que um DJ contratado deu furo nela, explicando que isso faz com que os artistas trans sejam multitarefas. Especificamente nessa mesa, eu como um jornalista negro de favela, enxerguei o quanto tem gente fazendo muito com pouco.

Mlk de Mel é um homem trans que atua como MC de batalha, além de cantar funk

Djoásis, vulgo Mlk de Mel, que é MC de batalha e cantor de funk, falou sobre o orgulho de poder viver um momento como esse com pessoas que vêm do mesmo corre. “Esses dias eu estava na maior neurose e vi lá o evento da prefeitura de São Paulo com o meu nome no flyer, isso dá um gás para que nós queira fazer as paradas. Eu acredito muito que a vitória seja coletiva espero portas abertas para as pessoas trans, as minas que estão querendo fazer um funk, espero portas abertas para o funk que parem de criminalizar a nossa cultura. Só busco que parem de nos apontar o dedo e que temos oportunidades reais”.

Com as mesas de conversas do primeiro dia encerradas os acontecimentos foram para o palco externo que recebeu artistas locais como o MC LS Boladão que mandou um funk consciente no palco mesmo sem beat no projeto “Mic Aberto”. Logo em seguida aconteceu os shows de MC Deyzerre, Rafa PL, MC Xuxu e MC Deize Tigrona que finalizou o 1º dia do “Festival Funk da Hora”.

Domingo

Dríade Aguiar, Suellen Aguiar, Gabriel Gaspar e Valter Rege durante debate sobre oportunidades para a arte da quebrada

O segundo e último dia do festival começou cedo na Cidade Tiradentes com duas rodas de conversas, devido à imprevistos de participantes que não conseguiram chegar ao local foi necessário inverter a ordem das mesas que aconteceriam na mesma sala para que os debates seguissem com os convidados anunciados, o primeiro debate foi: “Plataformas digitais: barreiras e oportunidades para a arte da quebrada“, mediado pelo jornalista Gabriel Rocha Gaspar com os convidados: Suellen Santana, que trabalha no Believe Digital, Valter Rege, cineasta e criador, e Dríade Aguiar , jornalista do portal Mídia Ninja. O debate foi rico em estratégias e tecnologias para a galera da quebrada sacar como se destacar, além de falarem muito sobre funk e a mídia.

Dríade Aguiar, Suellen Aguiar, Gabriel Gaspar e Valter Rege

“Como seria o mundo se fizessem uma comédia romântica negra para cada branca que existe? Precisamos criar e errar só assim iremos acertar é prática”, conta Dríade quando questionada porque não existem tantas produções de negros no mercado. A conversa foi marcada por muito empoderamento e muita troca de experiências.

Ana Paula, Bruno Ramos e Jaqueline Santa durante debate

A segunda mesa do dia trouxe o tema “Fluxos de rua e economia na quebrada”. Quem comandou dessa vez foi o empreendedor e produtor cultural Bruno Ramos, para trocar ideia sobre o tema chamou a Professora Ana Paula criadora da EmpreendTiradentes, feira local que visa reunir produtores locais. Também colou na mesa a empreendedora de 22 anos criadora da Black Meeting: Jaqueline, que está fazendo história realizando festas com valores mais acessíveis.

Bruno Ramos e Jaqueline Santana durante debate sobre fluxos da quebrada

Durante a roda de conversa os pontos mais falados foram: união de base, sonhos, estruturas dos fluxos e os desafios de produções próprias, com duas horas de conversa deu para sentir que foi um dos debates com mais perguntas e a conclusão é que a quebrada quer crescer e apostar em seus próprios negócios, para isso é necessário o apoio de toda comunidade para que o dinheiro seja gerado entre eles.

Hora dos shows

Para encerrar o festival com chave de ouro o palco do Funk 24 horas recebeu duas das mulheres mais importantes para o funk: MC Tati Quebra Barraco e MC Carol, mas antes dos shows a mestre de cerimônia Rafa Bebiano chamou para subir no palco a Renata Prado, dançarina e professora de funk, que aqueceu os quadris de todos com uma aula completa de funk. A galera se divertiu bastante com os desafios propostos pela professora que chamou ao palco alguns jovens que estavam dançando o passinho do magrão para ensinar à todos.

Renata Prado convida jovens para dançarem no palco

MC Carol subiu ao palco pontualmente e fez a galera pular com seu repertório. Apesar do show não estar lotado todos que estavam próximo ao palco pularam e dançaram muito ao longo da apresentação. Sabemos que a MC é uma mulher muito empoderada então “100% Feminista” não poderia faltar em seu setlist além dos sons para rebolar até o chão, além de cantar músicas do seu álbum “Bandida”.

MC Carol se apresentando no palco

O show de encerramento ficou por conta da Tati Quebra Barraco, que bateu um papo com a gente minutos antes de subir ao palco. “É muito bom estar na quebrada porque eu sou da favela e aqui me sinto mais em casa, é um público mais cativante”. Muito sorridente Tati falou que adora ver as crianças dançando em seus shows.

Tati Quebra Barraco se apresentando no palco

Antes de subir ao palco a mestre de cerimônia fez uma bela introdução para uma das pioneiras do funk pedindo para todos que estavam na escadaria irem para próximo do palco curtirem o show. Às 17h20 subiu ao palco e a gritaria tomou conta do espaço cultural que nesse horário já estava cheio com muitas famílias e crianças dançando muito.

O repertório passou por todos os anos da sua carreira e a galera sabia cantar todos os sucessos, a artista ainda fez uma homenagem para o eterno MR Catra e cantou a regravação de “Glamurosa“. O show durou 30 minutos e antes de deixar o palco ao som de “Mais uma! Mais uma!”, Tati fez um lindo discurso incentivando todos os jovens presentes a não desistirem dos seus sonhos.

Eventos como o “Festival Funk da Hora” são importantes para a favela por buscar colocar em pauta assuntos como a criminalização do funk, falta de oportunidade para mulheres e homens trans na música, economia criativa dentro dos bailes, a importância da união entre as quebradas e também falar de temas pontuais que nem sempre são debatidos na periferia, como a masculinidade tóxica. Além dos shows que foram essenciais para o entretenimento reunindo famílias e muitos jovens que mostraram a essência do funk: cultura e felicidade.

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