Um ano sem Mr.Catra, o Fiel

Autor: Dennis Novaes

Fotos por: Reprodução

Notícias | 09/09/2019 12:34:59

Anexo faltante

Há um ano perdíamos aquele que, talvez, tenha sido o artista mais icônico do funk carioca. A carreira de Mr. Catra, persona artística de Wagner Domingues da Costa, se confunde com a história do funk nacional. O grave e a rouquidão da voz davam certo tom messiânico ao homem que subia ao palco entoando os versos “o senhor é meu pastor e nada me faltará”: os primeiros versos de Retorno de Jedi, sucesso que o lançou para o público em 1993. Assim como ele mesmo, o show de Catra não cabia em caixas: louvava a Deus com a mesma desenvoltura e honestidade com que convidava o público a aderir à sua seita. “Bu-aceita, bu-aceita”, ironizava. Vamos lembrar agora, no Portal KondZilla, toda a trajetória do Mr.Catra.

O Rei da Putaria

Ao contrário do que muitos imaginam, Catra não foi criado na favela, mas no asfalto. O patrão de sua mãe o adotou como filho, lhe proporcionando uma vida confortável na Tijuca. Catra estudou no Colégio Pedro II, um dos mais conceituados no Rio de Janeiro e chegou a ingressar no curso de Direito, que abandonou para se dedicar à música. Ainda adolescente, foi em uma banda de rock que ele primeiro se aventurou como cantor.

Catra era convertido ao judaísmo, não era raro ouví-lo cantar em hebraico. Para a antropóloga Mylene Mizrahi, Catra explicou ser adepto de um “Judaísmo Salomônico” que lhe permitia “relações amorosas e simultâneas com distintas parceiras e os muitos filhos que produzem essas relações”. Contraditório? De forma alguma. Em entrevista para o jornalista Silvio Essinger, ele explicou como o funk e Cristo se uniam: “O funk é a música de Jesus Cristo, que veio para as putas, os ladrões e os homossexuais. O funk é o som que veio para a favela, os humildes”. Um recado potente nos tempos atuais, em que a religião vem se confundindo com intolerância.

Música: J.M – Bonde do justo

Mas foi na favela, cantando para e pelos “humildes”, que Wagner se tornou Mr. Catra. Já no início da vida adulta, ao conviver cada vez mais no morro do Borel, resolveu que faria da dura e contraditória realidade das favelas o tema de sua arte. Seu primeiro disco Bonde do Justo, produzido por Grandmaster Raphael e lançado pela Zimbabwe, mesma gravadora dos Racionais MCs, expressa ao mesmo tempo o compromisso com os excluídos e com uma arte que desafia fronteiras de gênero. A faixa J.M, homenagem ao antigo chefe do Morro da Formiga, por exemplo, é um lamento cantado ao piano, bem distante do batidão que anima os bailes funk. Além do reggae Erva sem vergonha cuja a letra alerta, surpreendentemente, para os perigos do consumo excessivo da maconha.

Já estava ali, em seu primeiro trabalho, a potência de um artista visionário que desafiava as fronteiras dos gêneros musicais. Mesmo sem deixar de lado o funk “neurótico” que o tornou conhecido, Catra foi um dos primeiros a abraçar, na virada dos anos 2000, o estilo erótico de funk que artistas como Deize Tigrona, Tati Quebra-Barraco e Bonde do Tigrão iriam divulgar para o Brasil. Mais tarde, esse estilo ficaria conhecido como “putaria” e ele se tornaria seu rei.

O improvisado Beatbox

E não foi apenas cantando que sua voz embalou amantes do funk por todo o Brasil. A partir de 2008, uma nova base rítmica virou sucesso entre os DJs cariocas passando a ser mais usada que o próprio tamborzão: era o “beatbox do Catra”. Ainda no início dos anos 2000, o DJ Sérgio Costa – que mais tarde ficaria conhecido como MC Créu -, se apresentava com Catra quando seu equipamento travou. Ele pediu para que Catra improvisasse algo enquanto ele resolvia o problema. “Tchu tcha tcha tchu tchu tchã”, cantou ao microfone. Quando o equipamento voltou a funcionar o DJ gravou este beatbox improvisado que, por alguns anos, virou a batida mais usada no funk carioca.

 

Mr Catra em todos os gêneros

Catra esteve por todos os lados. Antes que isso virasse uma moda na indústria fonográfica, ele se especializou em lançar parcerias não apenas no funk, mas com artistas de gêneros musicais diversos. Gravou com ícones do sertanejo como Thiago Brava, Cristiano Araújo e Naiara Azevedo. E como não bastasse seu sucesso no funk, lançou álbuns de hip-hop e pagode.

Sua dedicação ao trabalho e abertura a novidades se fizeram ver até os seus últimos dias. O câncer de estômago descoberto em 2017 não impediu que seguisse produzindo novidades. Em uma entrevista à Folha em dezembro daquele ano, Catra avisava “faz quase 12 anos que não lanço nada novo. Agora, vou lançar tudo que está guardado. Tem disco de rap, funk, um de sertanejo vindo. Nesse verão vocês não vão me ver, mas vão me escutar bastante.”. Em 2018, quando o 150bpm ainda enfrentava críticas por parte do mundo funk, Catra lançou música no ritmo acelerado, produzida pelos DJs Polyvox, Iasmin Turbininha e Pop Andrade. Três meses depois ele viria a falecer do câncer contra o qual lutava há um ano.

Do autor Dennis Novaes:

Eu era um estudante universitário de 21 anos que sonhava em saber mais sobre o mundo funk quando Catra foi a Brasília e topou que eu e um amigo, Guilherme Tavares, o entrevistássemos. Nosso contato com ele se deu por um amigo em comum, o André Fernandes, fundador da Agência de Notícias das Favelas, que estudou com ele nos tempos do Colégio Pedro II. Lembro que era uma quarta-feira e seu produtor nos contou que na noite anterior ele havia feito oito shows. Em Brasília seriam quatro. Era, como ele se definia, um “operário do funk”. Ele nos convidou para acompanhar sua equipe na van, e lá fomos nós pra uma maratona com Catra.

No caminho, lhe contamos sobre um projeto que sonhávamos fazer em Brasília: um festival que reuniria artistas de favelas e periferias do Brasil e do mundo, reunindo debates e workshops. Catra abençoou a ideia e prometemos que ele estaria presente na primeira edição do festival. O Favela Sounds já vai para a sua quarta edição e cresce cada vez mais, reunindo dezenas de milhares de pessoas anualmente. Por questões de agenda, ele nunca pôde se apresentar, mas seu legado foi lembrado na edição de 2018, dedicada à sua memória.

O funk como conhecemos hoje não existiria sem Mr. Catra. Pessoalmente, posso dizer que sem ele e o apoio que me deu quando eu era um jovem aspirante a pesquisador, eu também não seria quem sou.

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