Moda

SPFW: artistas periféricos são destaque da 54ª edição

22.11.2022 | Por: Janaine Fernandes

Na última semana, de 16 a 20 de novembro, o maior evento de moda do Brasil, o São Paulo Fashion Week, tomou conta da capital paulista. Dessa vez, a 54ª edição do evento apresentou um número recorde de 50 desfiles presenciais, e entre os estilistas e criadores presentes, a quebrada mais uma vez representou e mostrou ao público toda sua bagagem artística sobre moda, costura e cultura periférica. 

Pra começar, pela segunda vez chaviando tudo no evento, a galera do “Crochê de Vilão“, marca de bonés de crochê com estética de quebrada, dominou as passarelas do desfile e mostrou que favela é empoderamento, resistência e também é moda. À convite do artesão Gustavo Silvestre, a marca Crochê de Vilão vestiu os modelos para o desfile da Projeto Ponto Firme com um dos artigos do funk que por muitas vezes é marginalizado: o boné de crochê. Em uma postagem do Instagram, Vitor Siqueira, artista têxtil da marca, escreveu: “Só tenho a agradecer ao @projetopontofirme e ao @silvestregustavo pelo convite e pela oportunidade, sem palavras pra descrever esse momento, pra quem achava que esses “boné de cadeia” não ia dar em nada, tamo aí”.

O funkeiro Nego Bala também esteve presente no evento e abriu o desfile para a marca Naya Violeta. Ao som da música “Menino”, de Elza Soares, o artista desfilou pela primeira vez no São Paulo Fashion Week e conta que se sentiu orgulhoso por fazer parte do elenco de uma marca onde todas as pessoas eram negras, isso sem contar a potência de mulheres que estavam ao seu lado, como Bela Gil, chef, apresentadora e filha de Gilberto Gil, Erika Hilton, deputada federal recém-eleita, e também a madrinha da marca, a ativista Preta Ferreira.

“As pessoas que estavam compondo o desfile eram todas negras, foi incrível estar do lado de mulheres de poder, que sempre ampliam os espaços para os nossos. Senti muito orgulho de vestir as roupas da Naya Violeta, me senti um verdadeiro faraó. E não posso deixar de citar que o ponto alto do desfile para mim, foi ser o primeiro a entrar na passarela, logo depois de tocar “Menino”, da Elza Soares. Elza é minha madrinha musical, abraçou a música Sonho (faixa do álbum Da Boca Do Lixo, de Nego Bala, da qual a cantora participa) como se fosse dela e me potencializou como artista. Vou levar esse momento para a vida”.

Outra artista que voltou a fazer história no SPFW foi Milena do Nascimento, criadora da Mile Lab. Nesta edição a artista não desfilou com sua marca, mas recebeu o convite de Az Marias para fazer parte do desfile que aconteceu nas vésperas do Dia da Consciência Negra. Nesta sua participação, um dos momentos mais icônicos e que ficou marcado para o público foi a declamação de sua poesia que fala sobre sua vivência como mulher, negra e periférica em meio a um sistema racista e opressor que se move por dinheiro, sem oferecer o mínimo a sua população. 

“Por todas as vezes que eu pensei quando criança que eu queria crescer, ser curiosa, criativa, aprender, entender o significado da vida, buscando o sentido das coisas e o porquê das palavras, me perguntei o que tanto significava a palavra “resiliência”. Resiliência, segundo o meu dicionário, é florescer em solo árido, é a capacidade de não perder a fé e a coragem de estar de pé quando a mesa vazia é consequência de um estado corrompido pela ganância”.

Apesar de todo o desfile do SPFW ter tido uma transmissão online, o momento em que a artista faz seu manifesto não foi ao ar. Nas redes sociais, a poesia que explica a resistência de um povo oprimido que continua florescendo na sociedade, teve um grande impacto entre as pessoas que lhe acompanham, que assim como a artista, também gritam por uma mudança na estrutura do sistema brasileiro e pedem por progresso.

Sabemos que o assunto “moda” sempre foi muito elitizado e ver hoje a inclusão de pessoas periféricas dentro desse espaço proporciona representatividade e faz com que cada vez mais a quebrada se mobilize para ocupar lugares ainda maiores. Até uns anos atrás não era possível imaginar um favelado subindo numa passarela, mas hoje temos grandes referências que levaram não só pessoas da favela, mas tudo aquilo que lhe compõe. Ver modelos com o famoso Juliet, bonés de crochê ou qualquer outro artigo de moda periférica, faz com que seja possível enxergar um futuro onde a estética de quebrada não seja marginalizada e que essa galera possa entrar e sair de todos os espaços sem ser taxada de “criminosa”.

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