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Rei do blindado: barbeiro coloca Brasilândia no mapa da beleza mundial

02.11.2020 | Por: THAIS REGINA (ELLE Brasil)

Pelas ruas curvas da Vila Brasilândia, bairro na Zona Norte de São Paulo, um clássico cone giratório azul, vermelho e branco indica que a barbearia está aberta – mas não se trata de uma barbearia qualquer. No universo muito particular de Ariel Franco, mais conhecido como o Rei do Blindado, as paredes são cobertas por pôsteres da série “Sintonia”, da Netflix, e certificados de cursos. Apesar de não ser grande, o espaço é elegante: as cadeiras destinadas aos clientes lembram tronos, com estofado bordô. Uma delas tem gravada em prata a imagem de Ariel, com seu peculiar gesto de silêncio que se propagou na internet.

Com 440 mil seguidores em seu perfil no Instagram (@arielreidoblindado), o barbeiro é o responsável por colocar a Brasilândia no mapa da beleza mundial. Sua grande criação foi um penteado tido como indestrutível, que batizou de blindado e viralizou nas redes sociais. “No primeiro vídeo que fez sucesso, eu amassei o cabelo e ele pareceu ser uma mola, voltou intacto. Foram umas 300 mil visualizações, e comecei a olhar os comentários. Tinha gente me chamando de bruxo, falando que era montagem. Percebi que deveria gravar outros vídeos assim”, relembra. Com o tempo, os desafios impostos ao blindado se tornaram muito maiores: marretadas, moto e até carro tentaram estragar o penteado, que se mostrou inabalável. No bairro em que atende, o reconhecimento ao talento de Ariel é enorme. “Tem o ditado que diz que ‘santo de casa não faz milagre’, então fico muito feliz. Fui homenageado na Casa da Cultura pela representatividade que trago para a Vila Brasilândia e para todas as comunidades. Hoje tenho meu nome na história de São Paulo”.

O objetivo inicial do barbeiro era encontrar uma técnica em que os fios seguissem perfeitos, depois de uma noite de sono. Ele se empenhou tanto no resultado que hoje o blindado chega a durar sete dias. A referência estética é o pompadour, um topete avantajado à la Elvis Presley, que foi também o primeiro penteado que aprendeu a fazer. A base do blindado é a estrutura do próprio cabelo, que é feita a partir dos fios escovados. Na etapa seguinte, acontece a criação das mechas, em que ele usa um pente e um fixador. Nesse momento, entra em cena a técnica da blindagem, que é o grande segredo do barbeiro. Ariel conta que a maior parte dos clientes busca cores vibrantes para finalizar o penteado – suas preferidas são rosa fluorescente, verde, laranja e dourado. Para ele, ter estilo é também ter autoestima.

Tão resiliente quanto a sua maior criação, Ariel passou por diversos ataques em suas primeiras publicações nas redes sociais. Por ser ex-presidiário, não raro era alvo de comentários do tipo “bandido bom é bandido morto”. “Quando você está cortando cabelos, esquece seus problemas porque está focado. Dentro do presídio, esse era um momento em que eu relembrava as melhores coisas que já tinha feito, sabe? Conversava com as pessoas sobre o que a gente havia vivido lá fora, e isso acabava me trazendo a sensação de liberdade. Foi algo que me fez muito bem. Começava a cortar cabelos às 8 horas e só parava de madrugada”, conta Ariel, que descobriu ter também uma grande habilidade para desenhar nos cabelos, algo que o fez perceber que poderia se tornar um bom profissional na área da beleza. Sem ter onde buscar referências, guiava-se pelo impulso criativo e mantinha atenção redobrada. A primeira experimentação foi um tabuleiro de xadrez, com os quadradinhos nas laterais da cabeça.

Na época, ele se perguntava qual seria a potência real desses profissionais que executavam cortes com tanta maestria, mesmo com recursos tão escassos. Quando já tinha cumprido sua pena, Ariel ouviu do barbeiro Paulo Black um conselho que levou para a vida. “Ele me falou: ‘Para você ser reconhecido, precisa de conhecimento’. Comecei a estudar e vi que a barbearia não era só cortar cabelo: envolvia desejo, arte, amor. Passei a ter uma sede enorme de aprendizado, fiz uns 15 cursos, estudei muito. Surgia uma novidade, eu já estava lá”, recorda-se ele, que, além de empreendedor, tornou-se palestrante e ganhou o reconhecimento de grandes empresários, como Luiza Trajano. “O nome blindado tem muito a ver com a minha vida. Eu precisei me blindar das críticas, de muita coisa. Sou um cara blindado não só pelo penteado, mas pela minha história”, acredita o barbeiro, cujo cliente dos sonhos seria Nelson Mandela. “Iria entrar na história dele, viajar junto com ele. Foi um cara que teve uma história incrível.”

Ao fim de nossa conversa, eu pergunto como Ariel se imagina daqui a cinco anos. “Em Cancún!”, diz, se divertindo. Depois da brincadeira, o Rei do Blindado afirma que se vê no futuro como um grande empresário, com barbearias em todo o território nacional e no exterior e dono da própria marca de beleza. Mas, acima de tudo, uma pessoa que vai continuar ajudando os outros. “Se hoje todo esse sucesso acabasse e eu continuasse cortando cabelo, já seria muito realizado. Sou grato pela oportunidade de ter me tornado quem eu sou”.

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