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O passado, o presente e o futuro do funk com Kamilla Fialho

12.05.2021 | Por: Gabriela Ferreira

Pensa numa mina que é relíquia no funk, se você pensou na Kamilla Fialho, pensou certo. CEO da K2L, e empresária de diversos artistas consolidados, a carioca tem quase vinte anos de carreira e é referência para todo mundo que trampa com música, e principalmente para as mulheres, que assim como Kamilla, passaram por muitas situações machistas para conseguirem vencer. Hoje, a empresária é dona de uma empresa com uma equipe formada por 98% de mulheres e busca abrir ainda mais espaço para todas no mercado. Se liga no papo.

Aos 39 anos, Kamilla Fialho é responsável por trabalhar com grandes nomes da música. Durante anos, ela trabalhou com MC Sapão, Anitta, Naldo, Lexa e agora cuida do Kevin o Chris, o grupo de rap 3030 e Tília. Hoje, além de gerenciar a carreira de cantores, a K2L ainda cuida de influenciadores digitais e criadores de conteúdo. 

KDZ: Você começou como apresentadora do Furacão 2000. Como se deu o seu primeiro contato com o funk?
KF: Foi apresentando a Furacão. Antes eu não achava nada. O funk até tava estourado na época, tinha o Bonde do Tigrão, “Dança da Motinha“, “Um Tapinha Não Dói“, só que eu não curtia muito essa época. Eu era do eletrônico e não tava tão inserida. Começar a trabalhar na Furacão foi meio que pra mostrar pro meu pai que eu conseguia fazer tudo dozinha. Eu não entendia nada de funk, mas de cara, quem me treinou foi o Dennis DJ. Ele tinha a obrigação de me ensinar tudo sobre, e ele é o cara que mais entende de funk no Brasil na minha opinião. Então, em dois meses, eu tive uma escola, mestrado e doutorado no assunto.

KDZ: Na época que você começou como empresária, o funk não era tão profissional como é hoje e você ainda teve que aprender tudo sozinha. Como foi se profissionalizar?
KF: Olha, preciso falar a verdade. Foi muito fácil levando em consideração que não tinha ninguém fazendo. Quando eu cheguei, 18 anos atrás, quem chegasse e falasse “vou me profissionalizar, abrir um CNPJ, fazer contrato de show e um mini planejamento pros meus artista”, isso já era uma coisa impossível de se ver. O que tinha na época era a estrutura da Furacão e o DJ Marlboro. A Furacão era estrela, o Marlboro era estrela. Os artistas eram complemento dos eventos. Você ia pro baile e sempre tinha o Rômulo e a Veronica, esse momento era super esperado. Os MCs que cantavam eram como os DJs, então ali era muito fácil de chegar e profissionalizar. Então não tomo esse mérito pra mim. Depois que você profissionaliza é que vem os problemas. É um meio extremamente machista. Fui fazer minha primeira reunião com uma mulher do business depois de três anos nesse ramo. Eu era a única mesmo, ou tinha apresentadora ou MC. Nos bastidores, empresária, produtora, etc, esquece, não tinha. 

KDZ: Como você fez pra driblar algumas situações machistas e que dica você dá pra outras mulheres?
KF: Confesso que hoje me sinto responsável, assim como outras mulheres, de ter aberto espaço para outras pessoas. Eu sofri e passei o pão que o diabo amassou e eu não vejo mais tantas meninas passando por isso. Eu não podia me posicionar em reuniões, tinha que esperar, obrigatoriamente, todos os homens falarem para depois dar a minha opinião. e sempre que eu falava, a réplica era uma cantada ou alguém me diminuindo por ser mulher. Eu chegava nas reuniões querendo falar, querendo botar pra quebrar, mas era tanta porrada que fui me adaptando. Chegava, cumprimentava, esperava todos eles falarem como eles eram os fodões e que eu tinha que agradecer a Deus por estar sentada na mesa com eles, e aí eu falava. Hoje não é mais assim. Eu me enfeiava, não usava decote, queria que as pessoas achassem que eu era lésbica pra ver se isso afastava as cantadas. Hoje eu sou eu mesma. 

Acho que o que as mulheres podem fazer é, quando você tiver o mínimo de intimidade com algum cara do business, fala pra ele a importância de ter mulheres dentro do negócio dele. O meu escritório tem 85 pessoas e 98% é mulher e eu cheguei onde cheguei. Acredito que isso aconteceu porque eu trabalhei com mulheres porque esse é o meu diferencial. A paciência é outra, o processo criativo é outro, a gente faz um monte de coisa ao mesmo tempo. Isso tudo no show business é só benefício. 

KDZ: O que você acha que mudou no funk desde que você começou até agora?
KF: Os artistas deixaram e ser só MC, eles são cantores. O funk cresceu pra caramba e abriu espaço pra existir o cantor, o MC, o funkeiro de ostentação, de funk romântico. Abriram muitas ramificações dentro do funk e acho que isso só aconteceu porque a gente se profissionalizou e viu que a música era um business como qualquer outro, e que o funk era um business igual. Não é porque é um ritmo que veio de comunidade que são coisas diferentes. No meu início, as pessoas dividiam música e funk: “Ah, você é de funk, fica alí”, “Você é empresária de funk, não precisa conversar sobre música”. Mas eu consegui achar artistas que quiseram migrar pro mainstream, que quiseram vestir a camisa do pop, de falar que o funk é pop e que ia dominar o mundo. Eu tive o MC Sapão por 16 anos, depois veio Naldo, Anitta e Lexa. 

As pessoas achavam que era frescura o que eu fazia com o Sapão. ele estudava português porque ele não teve condição de estudar de onde ele veio. Como empresária, na hora de profissionalizar o artista, a gente tem que olhar pro histórico, não só pras músicas. Muitos artistas tinham muito talento, mas eram pedras brutas porque não tiveram condições de estudar, e isso é um problema estrutural. Então eu tinha que olhar pro histórico deles, olhar o que eles precisavam aperfeiçoar, colocar em aula de dança, canto, interpretação e tornar ele um artista 360. As mudanças vieram nisso, na raiz. 

KDZ: Como você lida com as entregas e explica para os artistas que não dá pra trabalhar só quando a inspiração bate?
KF: Monto um planejamento anual pra todo artista que entra na K2L baseado em quantas músicas ele vai lançar. Sempre pergunto “Quantas músicas você vai me entregar? Porque se você se entregar uma só, o resultado vai ser de música só”. Trabalho com quantidade e meu planejamento é pautado nisso. Se você é um cantor, você tem que lançar música. Se você é dos ritmos urbanos, como funk, rap ou trap, tem que ser uma por mês, no mínimo.

Com base na quantidade de lançamento, eu consigo montar uma estratégia de imprensa, de TV, de rádio, quantos clipes a gente vai lançar. Aí eu pego isso, penso em quanto vai custar ao longo do ano, e penso em quanto vou precisar faturar pra pagar isso e ter lucro. É como uma empresa normal, eu monto um planejamento e vamos seguindo. No meio do caminho, as coisas vão mudando, acontece. Muito artista solta um single e depois não sabe o que fazer. Se o resultado esperado não vem no tempo que eles querem porque uma outra música veio no mesmo tempo, eles já começam a pirar, entrar em depressão, e aí a inspiração vai embora mesmo. 

A principal diferença entre São Paulo e Rio de Janeiro é essa. No Rio saem menos artistas, até por conta do tamanho, mas eles duram dez, vinte anos de carreira estável. Em SP, a rotatividade é muito grande e eles se preocupam mais com a música do que com eles como artistas. Tem um monte de gente que nós consumimos a pessoas e o trabalho é só um plus. 

KDZ: No funk de São Paulo, é mais incomum o pessoal lançar disco. Em 2019, alguns lançaram, e com a pandemia, alguns MCs lançaram EPs e álbuns. Qual a importância de um disco e quando ele é necessário?
KF: Todos os meus artistas tem um álbum no planejamento. Artistas do zero eu tenho trabalhado três singles e o quarto é o single de abertura do disco. A Tília, por exemplo, é uma cantora que tá sendo feita do zero. Ela começou com um single em novembro de 2020 e eu botei como meta 200 mil ouvintes mensais pra gente começar a falar do disco. Mas nessa correria, ela já conseguiu juntar repertório pro álbum. Essa é a hora que tudo tem que fazer sentido. Quando o artista é lançado no mercado e em três meses ele solta um disco, você consegue entender quem ele é como um todo. Se você vai lançando single, principalmente aqui em SP, as oportunidades vão surgindo e um dia você grava um forró, no outro, um gospel, e no outro um funk putaria. O artista que tá convidando os feats já não tem mais identidade, diferente do cantor consolidado. Pra ele, fazer feat é agregador. Então,  álbum tem uma importância enorme. Quando a Lexa nasceu, ela sofreu com o “nova Anitta”. Então a gente já chegou com um disco pras pessoas ouvirem e parar de comparar as duas. 

No funk, eu ainda falo do DVD. Por que o sertanejo faz? Por que o sertanejo já nasce com esse ar de ser muito grande? Porque o primeiro produto dele é um DVD com participações de outros sertanejos. Sigo a mesma estratégia. Em 2019, três grandes artistas do funk lançaram DVD pra mais de 20 mil pessoas no Rio de Janeiro. Quantos artistas de SP lançaram? Se você olha no Top 200, você vê vários sucessos paulistanos, então não é por falta de hit e de dinheiro. É falta de estratégia. 

E pra que a gente lança DVD? Pra conseguir show grande. E pra que a gente quer show grande? Pra cobrar ticket caro. A maioria das casas que tem show de funk são pequenas. Se eu quero levar o Kevin pro Baile da Santinha, que é grande, eu mostro do DVD e falo que a gente consegue sim fazer um espetáculo grande. 

KDZ: O que você espera pro futuro do funk pós-pandemia?
KF: O meu sonho é que os artistas estejam mais conscientes e que levem em consideração os contratantes. Tem vezes que eles colocam um monte de coisa bacana nos camarins pra agradar e os artistas não usam nada. Isso é desperdício. Tem que ter menos desperdício e mais pensamento coletivo. Tudo isso que a gente tá passando tem motivo e a gente precisa olhar pras pessoas com um olhar mais humano. No funk, principalmente, só os fortes sobreviverão. Aqueles que acham que vão continuar fazendo o que faziam antes vão cair. Eu já to vendo uma mudança no funk, até no de São Paulo. Tem pessoas me procurando que não precisariam de mim se não fosse a pandemia porque eles querem saber como eu to me virando.

Quer saber como foi a participação da Kamilla Fialho no Hervolution? Cola e pega a visão: 


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