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Muro MC: “Grafiteiro nada mais é que um artista que presenteia as ruas com sua arte, por mais que não seja reconhecido como tal”

08.10.2021 | Por: Redação

Sextou com Conte Aqui Sua História, o seu espaço aqui dentro da KondZilla! Quem aparece por aqui hoje é o Muro MC, rapper e grafiteiro residente da zona leste de São Paulo, que está no corre pra fazer sua arte acontecer. Se liga na história:

“Salve, salve quebrada! Boa pra nós! Licença aqui ó, me chamo Maurício de Moraes Noronha, tenho 36 anos, moro na zona leste de São Paulo, faço rap desde 2012, grafito, sou formado em jornalismo e trabalho nos correios. Tenho a arte como amor da minha vida e até então venho tentando viver o sonho de poder viver somente dela. Por enquanto sigo trabalhando nos correios para pagar as contas.

A minha relação com o hip hop começou quando saí do Pernambuco, em 1993. Eu, imigrante nordestino, fugindo da seca para sustentar a vida na cidade grande com meus pais e minhas irmãs, me deparei em São Paulo com a música “Um Homem na Estrada”, do Racionais MC’s. Aquilo me impactou demais. Eu vim da terra da poesia, onde a moda de viola era bem constante, o repente, então a poesia pra mim era bem ativa. Quando ouvi aquilo, pensei ‘aqui também tem isso, que demais’. Mais pra frente, vi, através das festas de rua, que o hip hop ali existia. Com uns 14 ou 15 anos, fui saber que aquilo era uma cultura elementar com todos os elementos envolvidos, e que o rap era só mais um elemento disso.

Em 1998, quando saiu o “Sobrevivendo no Inferno”, do Racionais MC’s, um amigo que morava na mesma favela que eu, comprou o CD pirata e chamou a gente pra escutar, e aí “Diário de um Detento” me impactou. Achei muito foda, eu tinha uns 13 anos na época. Falei pra ele que a gente tinha que aprender a cantar pra quando a gente fosse num show deles.

Nisso, mandei ele voltar a música, nós pegamos um caderno e começamos a escrever a letra, dava play, escrevia uma letra, pausava, e ia escrevendo. Quando terminamos de escrever, ele virou e disse ‘mano, você devia cantar rap, você gosta do bagulho’. E aí nasceu o amor pelo bagulho.

Só que por conta das dificuldades do ser humano periférico, tive que trabalhar cedo pra ajudar em casa e esse sonho meio que ficou de lado, guardado de certa forma. Eu fazia freestyle na escola, brincava de break, aquelas coisas todas. 

Um dia, quando eu tinha mais ou menos 16 anos, comprei um spray pra pintar minha bicicleta e com o que sobrou, escrevi meu nome na parede. Aquilo me deu uma adrenalina e eu comecei a grafitar.   

Então, o grafite veio pra mim antes do rap propriamente dito assim, na prática. Comecei a grafitar, trabalhar e estudar, essas coisas todas. E aí o rap mesmo de gravar e falar que era MC, eu me joguei mesmo em 2010 ou 2011 a partir de um convite feito por um amigo que frequentava sarau comigo. Ele pediu que eu fizesse uma poesia pra um filme que ele estava elaborando, “Um Salve Doutor”, do Andrio Candido. 

Fui pro estúdio gravar a poesia com uns amigos e lá o cara me mostrou uma batida, que eu achei daora e acabei perguntando se podia gravar em cima dela. E aí surgiu meu primeiro rap, “Perfil de Um Rebelde“, e desde então não parei. 

Gravei meu primeiro disco em 2016, o “Tape Demo Pródromo Pap Sons“, com algumas gravações feitas em Recife e outras aqui em São Paulo. Esse trabalho se deu em decorrência de eu ter voltado a morar em Recife, a cidade da poesia, da lama, do caos, de Chico Science, depois de ter terminado a faculdade de jornalismo, lá pelo final de 2012, começo de 2013. Lá, fiz uma pós-graduação em música, em arte, na rua. Vim pra São Paulo divulgar o disco e acabei ficando aqui.

Gravei meu segundo disco em 2019 e em 2020 veio a pandemia, e acabei gravando uma mixtape dentro de casa, a “Quarentena Mixtape“, e agora estou no trabalho de parto do terceiro disco de estúdio. O segundo se chama “Tape 2 Inimigos no Poder“, então a ideia é que seja uma trilogia. E aí, mais pra frente, talvez eu sofra uma metamorfose em decorrência desse processo e adote outro nome ou outra estética de música.

O nome muro vem de uma metamorfose, basicamente. O meu nome é Maurício de Moraes Noronha e eu assinava Mauro no grafite. Depois de conhecer a história, ver todas as pilares que vem antes, vi que tinha um grafiteiro Mauro que veio antes, do projeto Ver a Cidade, que faz grafites antes de mim, em respeito a ele, decidi tirar o “A”, e fiz uma poesia pra esse momento:

E foi se o “a” embora

com o seu par de asas

e fez se em mim muro na hora

e não há bom vinho que faça disfarçar amarga massa 

mas tudo na vida passa desde o claro à ressaca

contrariando o calor, no frio vindo em massa

gosto quente da cachaça

fumaça no jardim do amor

coração fervente em brasas

assim nasci até o fim

sou rimador

O grafite eu faço até hoje. Uso como minha válvula de escape contra o tédio, o mau humor e contra a opressão da cidade. Às vezes aparece um ou outro trabalho comercial, uma loja ou casa de alguém, mas a essência do que eu gosto mesmo de fazer é sair pra pintar sem planos, e às vezes até fazer uns proibidos, que a sociedade discrimina, mas que eu vejo como um presente pra cidade porque o grafiteiro nada mais é que um artista que presenteia as ruas com sua arte, por mais que não seja reconhecido como tal.”

E aí? Se identificou com o corre dele? Manda o seu pra gente no e-mail conteaquisuahistoria@kondzilla.com e não se esqueça de nos mandar as suas fotos, contato e redes sociais.

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