"Passei de futuro traficante pra aluno da USP", a história de Fabrício Oliveira

Autor: Redação

Fotos por: Reprodução // Redes Sociais

Conte aqui sua historia | 13/09/2019 14:47:22

Anexo faltante

Começamos hoje uma nova campanha na KondZilla, a Conte Aqui Sua História. Hoje, o Fabrício Oliveira conta sua jornada, todas as dificuldades que ele passou até se tornar quem é agora. Histórias de superação ajudam as pessoas que passam por momentos difíceis a continuar e não desistir. Por isso, se você quer compartilhar com a gente sobre sua vida, mande um e-mail para: conteaquisuahistoria@kondzilla.com.

Eu sou o Fabrício Oliveira, tenho 19 anos e hoje curso Matemática Aplicada na USP de Ribeirão Preto. Nem sempre a vida foi assim e como eu vejo que muitas pessoas passam por problemas parecidos, quis contar a minha história para poder ajudar alguém.

Desde que eu me entendo por gente, com uns cinco anos, passei por momentos muito difíceis. Vi meu pai quebrando o nariz da minha mãe e cortando o pé dela com faca. Isso me entristeceu por muitos anos. Eu não entendia muito o que tava acontecendo, mas no fundo acho que eu sabia. Foi a partir desse momento que comecei a pensar que eu não deveria ter nascido, que meus pais não me queriam.

Acho que por causa disso tudo, me criei muito na rua. Eu era daquelas pessoas que era amigo de bandido, mas nunca me envolvi. Cheguei a aprender muita coisa com eles. Teve até uma época que por eu ser menor de idade, eles queriam que eu me envolvesse com eles porque não ia dar nada, mas graças a Deus, não fui.

Com uns 14 anos, eu comecei a me descobrir gay e eu achava que isso era muito errado, então fiquei muito reprimido. Nesse período, conheci o Senai e me inscrevi pra trabalhar e fazer o curso. Na minha sala, o pessoal tinha tudo 19 ou 20 anos, e eu mais novo. Sofri muito bullying, acho que eles sabiam já que eu era gay. Cheguei a ganhar um prêmio lá como melhor aluno da sala e isso me motivou.

Quando o curso terminou, dois anos depois, pensei em fazer mais um curso pra conseguir juntar dinheiro pra tirar a carta e conseguir comprar uma motinha. Nessa época eu me desenvolvi muito. Aprendi sobre racismo, homofobia, os problemas sociais da minha quebrada. Também entendi o que era Enem e USP porque no ensino médio, eu não fazia ideia.

Em 2016 eu prestei o Enem pela primeira vez, e como eu gostava mais de matemática, fiz essa parte e o resto chutei tudo. Nisso, um amigo meu me contou que existia o cursinho popular na USP de Ribeirão. Me inscrevi e nesse curso que aprendi realmente o que era estudar. No Enem de 2017 foi quando me assumi e fui pra prova chorando. Acho que minha mãe já sabia que eu era, mas ainda assim, ela ficou uns dias meio chateada. Meu pai não aceitou de jeito nenhum.

Ano passado consegui entrar na USP. Hoje só penso em terminar meu curso, fazer um mestrado e um doutorado fora do país. Meu sonho é dar palestrar, ir nas favelas ajudar o pessoal, fazer as coisas acontecerem. Quero que todo mundo se sinta representado.

Hoje ainda faço parte do projeto Aprender na Comunidade, pela faculdade. Lá a gente desenvolve algumas habilidades sociais da criança nos núcleos. Aí, nós ensinamos eles a focar mais, identificar as demandas que elas têm pra conseguir mudar esse cenário.

Ouvi muita gente falando que eu “ia continuar do jeito que tá”, que eu não ia acontecer, mas os professores do cursinho da USP me incentivaram muito e confiaram muito na gente. Passei de um futuro traficante pra um aluno da USP. Por isso, quero que as pessoas entendam que o mundo não termina ali, quando as coisas estão ruins. A gente tem muita coisa pra viver e fazer!

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