O funk da Baixada Santista ao longo dos anos
Créditos: Arte // KondZilla
- Por Gabriela Ferreira

O funk da Baixada Santista ao longo dos anos

Recentemente, a morte do MC Felipe Boladão completou dez anos. Boladão, ao lado dos MCs: Careca, Barriga, Duda do Marapé e Primo, continua sendo inspiração para muitos artistas, sejam do movimento funk ou não. Os MCs do começo do funk paulistano pavimentaram o caminho pra o surgimento de novos funkeiros, principalmente na vertente do funk consciente, que continua inspirando a molecada.

O começo do funk na Baixada Santista

Depois de nascer no Rio de Janeiro, o funk chegou na Baixada Santista antes de subir pra capital paulistana. Apesar da influência do funk melody carioca, a Baixada se estabeleceu com o funk consciente, que na época muitos chamavam de funk de relato. O funk de relato nada mais é que aquela música que passa a realidade das favelas nas letras, no caso de MCs que se consagraram: Felipe Boladão, Neguinho do Kaxeta, Barriga, etc, eram sobre a vida nas favelas, mais ou menos como o rap fez na capital – podemos dizer assim.

Diretamente de Santos, o produtor de rap e funk, DJ Cuco, responsável pela produção de “A Viagem”, do Felipe Boladão e que trabalhou com outros relíquias, como MC Duda do Marapé, MC Careca e muitos outros, conta que no começo do movimento ele não levava o funk tão a sério. “Eu sempre curti rap desde moleque e meio que tinha uma rixa [entre os movimentos] ‘funk só fala merda e o rap que fala coisa daora'”, relembra ele. “Só virei a chave quando comecei a trabalhar com funk e vi que tinha muito a ver com rap. Eu percebi que tinha outro linguajar, outro jeito de falar, mas o que eles expunham eram as mesmas coisas [que o rap], mas com outro olhar”, comenta Cuco.

Assim como o rap foi, e continua sendo importante nesse processo de contar histórias de quem vive na favela, o funk veio nessa mesma pegada. Apesar de haver diversos tipos de funk, como o ostentação e o pop por exemplo, o funk consciente, que começou na Baixada nos anos 2000 ainda é lembrado e serve de referência para muitos MCs da nova geração.

“O funk da Baixada se estabeleceu com funk de letra. Essa característica, que tinha proximidade com o rap, foi a responsável pela capital abraçar o funk também”, explica Cuco. “Sem a Baixada, esse tipo de funk consciente que se faz hoje seria diferente. Não é atoa que vejo o Neguinho do Kaxeta, que é das antigas, sendo referência até hoje”.

Influência do trap no funk

Diretamente da Praia Grande, DJ Mu540, produtor de 24 anos que produz há praticamente 10 anos tanto na Baixada como na capital e responsável pelos sons: “Mandrake” do Kyan (2 milhões de visualizações) e “Tang” da dupla Tasha e Tracie (250 mil), concorda e destaca: a influência dos consagrados da Baixada vai além do funk. “Eu vejo influência desses MCs, sejam os que já foram ou os que ainda tão aqui em várias pessoas e até em outros ritmos musicais, como o forró, a pisadinha, que pegam referências daqui, tipo “Ela é Top“, do MC Bola“.

Um bom exemplo de que a música ultrapassa barreiras é que o recifense Dadá Boladão, ícone e um dos principais nomes do brega-funk, se inspirou no Felipe Boladão pra criar seu nome artístico. A admiração pelo cantor é tanta que Dadá tem até o nome do ídolo tatuado no pescoço.

Outro artista da nova geração que bebeu da influência dos relíquias da Baixada é promissor MC Kabeça. O MC do Guarujá ganhou destaque em 2019 quando realizou o sonho de gravar com a KondZilla por causa do Caldeirão do Huck. “Sempre fui apegado ao funk consciente, mostrar a realidade da favela sem muita ostentação. A vida real mesmo pras pessoas verem que o funk não é só putaria que nem elas pensam”, comenta Kabeça sobre a escolha da vertente que canta hoje.

A Baixada renovada

Hoje, grande parte da nova geração do consciente está em São Paulo. “Aqui na Baixada, de forma geral, o trap tá com muita força e as batalhas também com muitos MCs de alto nível”, comenta DJ Cuco sobre o que que tá pegando atualmente. “Acho que o funk e o rap viraram mais indústria pop, o pessoal daqui começou a reproduzir coisas que dão certo. Não sinto mais tanta identificação da Baixada Santista nas músicas daqui que chegam pra mim. Tem muita coisa boa sendo feita, mas falta uma cara mais da Baixada”.

Como o DJ Cuco citou, o trap tem tomado conta da Baixada, claro que em vários outros lugares do Brasil também, e o produtor Mu540, que produz trap, concorda com isso. “O trap da Baixada tá vindo mais misturado com funk e a gente tá passando mais a visão, costurando mais as ideias. Temos a Influência do funk consciente, do Boladão, do Careca, do Barriga”, explica ele.

Pra quem vê de fora, talvez possa parecer que o funk da Baixada foi marcante, mas que hoje não é tão relevante. Só sem o funk da Baixada, muita coisa não existiria, provavelmente nem a KondZilla, que nasceu no Guarujá e produziu o 1º videoclipe “Megane” do Boy do Charmes, de São Vicente.

O caminho que os artistas da Baixada trilharam, abriram as portas para nova geração de hoje. O movimento de anos atrás, e da nova geração da Baixada, carregam a mesma luta nas mensagens. “Esses caras como o Duda do Marapé e o Felipe Boladão deixaram o funk legível pra favela e pra todos. Eles mostraram que o funk consciente existe e a gente [nova geração] tenta manter o legado que eles deixaram”, diz MC Kabeça.

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