A Influência do funk na moda: marcas citadas em músicas se tornam tendência na quebrada
Créditos: Reprodução//Redes sociais
- Por Rayane Moura

A Influência do funk na moda: marcas citadas em músicas se tornam tendência na quebrada

O funk vem ditando a moda dentro da quebrada e isso não é de hoje! Em meados de 2009/2010 nascia em São Paulo o funk ostentação, vertente do funk que falava sobre superação financeira e citava diversas marcas de luxo de roupas, carros e acessórios. Com isso, diversas marcas, como a Lacoste, se tornaram sonho de consumo nas quebradas do Brasil. Pra entender mais sobre essa relação, cola no Portal KondZilla e pega a visão:

Marcas como Tommy Hilfiger, Adidas, Lacoste, Eckō Unlimited e Oakley se tornaram sinônimo de ostentação entre os funkeiros. Elas foram citadas milhares de vezes no funk, além de terem se tornado parte do kit essencial dos quebradinhas. Mesmo influenciando muita gente a usar tais roupas, raramente as marcas reconheciam o trampo dos funkeiros e raramente rolava um patrocínio, permuta ou contrato de publicidade.

Essa tendência de falar de marcas de luxo continua em alta e segue influenciando a galera a também querer portar uns kits caros. Ter uma juju ou um mizunão de mil não é considerado apenas ostentação, mas também uma forma de superação, para mostrar que de alguma forma a “favela venceu” e pode ter peças feitas para pessoas ricas.

Não é à toa que muitos objetos ganham uma versão “falsificada” nos grandes centros, fazendo com que essas peças ficassem em um preço acessível para essa galera de quebrada, o que faz com que esses artigos fiquem ainda mais populares.

Muitas dessas peças popularizadas por funkeiros ficaram estereotipadas como “coisa de funkeiro”, tipo a Juliet, que é usada, inclusive, em vários challenges do Tik Tok, de pessoas que “se transformam” em funkeiros. A mesma coisa acontece com várias outras coisas. 

Essa associação direta de peças de roupa com artistas e músicas fez com que muita gente estranhasse a última campanha da Lacoste. A marca lançou recentemente a conta brasileira no Instagram, e convidou alguns artistas como Jão e João Guilherme para fazer parte dos primeiros trabalhos de divulgação. Além deles, também participaram a empresária Helena Bordon e a modelo Pretta Mesmo, a única de pele negra dentre os quatro. A campanha gerou críticas por parte de movimentos do funk e do rap, que sempre citam a famosa marca francesa em músicas. 

O público questionou a escolha dos modelos da campanha, citando alguns artistas que vivem falando da marca em suas músicas, como o rapper Kyan, dono do som “Tropa da Lacoste”, Kayblack, outro rapper que exalta a marca, e por aí vai. 

Lacoste e a situação com Kyan

No dia do anúncio da campanha, Kyan usou a conta no twitter para se pronunciar sobre o assunto. Ele revelou que foi cotado para participar da campanha, mas se recusou ao saber que seria pago com vouchers da marca. “Espero ter o contato novamente quando for para um grande projeto, sem ser por livre e espontânea pressão. Caso o contrário, sigo cliente, mas com minha autoestima e meu valor como artista intacto”, publicou o artista.

“Não sou vira-lata, não vou aceitar que apenas me usem. Sou um artista que fecha contrato de acordo com minha proporção, não quero mimos. Quero ser pago como um branco é pago, abaixo disso, não me interessa. Com certeza Fulano Branco não foi pago com voucher pra fazer publi e eu também não”, escreveu o cantor. 

Antes de todo esse episódio rolar, Kyan colou junto com o irmão Kayin no ParçasZilla, o podcast da Kond, e contou um pouco sobre a relação com a marca.

“Para mim, usar essa parada é mais uma coisa de superação. Quando a gente é menorzão olha as nossas referências e eles tão lá usando a parada, tá ligado? Acredito que nos Estados Unidos a cultura dos caras é ver os caras ricos com um monte de jóia no pescoço e aqui a gente ver os caras usando Lacoste. Então eu não uso necessariamente a marca esperando que ela me dê algo em troca, se me desse algo seria dahora, que eu sou um artista e tals, mas se não der eu fico tranquilo quanto isso”, explicou. Confere aí: 

Além de Kyan, o MC Hariel também se pronunciou sobre o caso e afirmou que o intuito das grandes marcas de deixar favelado e pobre bem longe da imagem sempre foi claro. “Lagosta não me chamou pra nada.., Mas estou feliz que chamou uns amigos meus que pra mim é a mesma coisa que eu estar lá… e qualquer fita eu compro é porr* nenhuma. A letra antiga já dizia: Avisa o dono da Lacoste que nós não quer patrocínio, nós leva nas nota”, afirmou o funkeiro.

“O intuito deles de deixar favelado e pobre bem longe da imagem da marca sempre foi claro, nós compramos pq nós queremos! Eles que se foda kkkkk pq já há anos existe essa relação de amor por nossa parte e ódio da parte deles”, completou. 

A resposta da marca

Em recente release de divulgação da nova conta do Instagram encaminhado à imprensa, a marca se classificou como “diversa” e disse que “abraça a pluralidade”. “O universo digital tem se tornado um importante canal para o nosso negócio. A América Latina, principalmente o Brasil, têm se mostrado um mercado muito relevante e estratégico para seguirmos nosso objetivo de inovar e nos posicionar como a marca top of mind e inspiradora no segmento fashion sport. Acreditamos na força dos seguidores brasileiros para amplificar essa ideia”, disse no texto o CEO da Lacoste na América Latina, Pedro Zannoni.

Em entrevista para o UOL Economia, o diretor do Data Popular, Renato Meirelles, disse que marcas de grife não gostam de clientes mais pobres e diversas já buscaram orientações de como desvencilhar a imagem de artistas periféricos.

“Boa parte das marcas têm vergonha de seus clientes mais pobres. São marcas que historicamente foram posicionadas para a elite e o consumidor que compra exclusividade pode não estar muito feliz com essa democratização do consumo”, comentou Renato, sem citar quais marcas. 

MC Dricka e MC Jottapê também foram procurados pela Lacoste após a repercussão negativa nas redes. A própria Rainha dos Fluxos deu a notícia em seu Twitter, comemorando a oportunidade, mas não se pronunciou sobre o caso.  

A Lacoste é apenas uma das marcas de luxo que são citadas por artistas de rua, mas que não apoia os artistas que as exaltam. Mas, na contramão, existem algumas marcas que não só fazem parcerias com músicos, como também ajudam a custear o rolê da música, como a Adidas. A marca, que patrocina diversos artistas de cena, vem com outra visão. Não é à toa que Kyan se uniu com o MC Pedrinho em um som que ganhou o nome de “Adidas”, produção de Mu540 e Caio Passos

Nicole Balestro, CEO da gravadora Ceia Ent., responsável por cuidar da carreira de Kyan, colou no podcast PodPah e mandou um papo de como funciona esse patrocínio com a Adidas. “Eu tenho uma relação de gratidão pela marca ter acreditado no nosso sonho, a Adidas foi essa marca, que acreditou quando a gente não sabia se ia dar certo a parada. Eu acho que falta muito isso no Brasil, as marcas apostarem quando você tá começando, não quando você já virou, ta ligado? Porque quando você já virou, é fácil”, explicou. Se liga só: 

Além da Adidas, a Nike também não fica atrás. Recentemente a marca anunciou que a linha Shox não será mais fabricada no mundo. Para se despedir da linha, a Nike Brasil encerrou o ciclo com uma ação que busca atingir aqueles que popularizaram o tênis nas quebradas. 

Por isso, alguns funkeiros receberam uma carta de despedida do tênis, além de um par de Shox. Escrita pela jornalista Fernanda Souza, em parceria com a Nike, a carta se despede do modelo que marcou uma geração, contando toda a história e a ligação com o funk. 

Além disso, no passado, a Nike lançou uma plataforma chamada Nuvem Air Max para levar um pouco de tecnologia para a casa das pessoas. Usando Realidade Aumentada (RA), ela dá acesso a conteúdos exclusivos de artistas como Djonga, MC Soffia e do grupo NGKS.

Assim como Nike e Adidas, outras marcas deveriam seguir o exemplo e patrocinar os artistas de quebradas do funk e rap, que fazem com que esses nomes cresçam e se popularizem cada vez mais. Kyan durante o ParçasZilla mandou o papo: “A gente está colocando o Neymar pra usar Juliet, não foi o sertanejo, não foi o pagode, foi o funk. Eu acredito que elas deveriam ver isso. A gente faz uma parada pra eles só por gostar. Oakley é a cara do funk, Juliet é a cara do funk. Deveriam ser mais reconhecidos. O Mizuno mesmo a linha profis tá há 10 anos aí graças a galera do funk”.

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