Como o estresse se comunica com você
O estresse nem sempre se anuncia como tal
Profissionais de saúde observam que quase todas as pessoas com quem lidam relatam sinais de estresse, embora raramente o definam dessa forma. Em atendimento diário, muitos descrevem dores, irritabilidade ou dificuldade para dormir, sem associar esses sintomas à tensão crônica.
Segundo o texto assinado por Dr. Arthur Guerra, o estresse transmite mensagens por vias variadas: pelo corpo quando faltam palavras, pelos pensamentos quando não há descanso e pelos hábitos quando não há outra saída. A experiência clínica mostra que a população tende a procurar apenas a forma mais óbvia de manifestação — a tensão — e ignora outros “idiomas” pelos quais o estresse se expressa.
Comportamentos que podem esconder estresse incluem explosões de raiva, atenção dispersa e fadiga decorrente de jornadas intensas de trabalho. Nem sempre esses sinais significam descontrole emocional ou síndrome de burnout; muitas vezes são traduções indiretas do estresse que não foram reconhecidas.
Há também manifestações por meio de hábitos repetitivos: passar longos períodos nas redes sociais sem perceber, checar mensagens constantemente, adiar tarefas (procrastinar) ou fazer compras desnecessárias. Esses comportamentos funcionam como respostas automáticas diante de pressão que não é verbalizada.
Outro ponto destacado é a dificuldade de identificar sintomas porque quase nunca vêm com uma “tradução”. O ranger ou aperto da mandíbula durante a noite pode ser interpretado como problema articular; o fluxo incessante de pensamentos pode ser tomado por ansiedade; irritação frequente com pequenos atos pode ser rotulada de temperamento; e a dificuldade em negar pedidos alheios pode ser vista apenas como generosidade.
Cada um desses sinais recebe explicações mais simples porque investigar o que há por trás exige esforço adicional. Reconhecer as diferentes linguagens do estresse não elimina os desafios da vida, não resolve conflitos e nem faz as contas deixarem de chegar, mas pode permitir identificar o problema antes que ele se agrave.
Na avaliação do autor, com mais de 40 anos de prática clínica, quem adoece por estresse raramente é surpreendido no momento da crise: os sinais antecedentes costumam existir, mas não são decodificados pelos próprios interessados.
Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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Com informações de Forbes