Empreendedorismo

31/12/2025 — Trump exclui carne bovina de tarifas de 25% e recorre a importações para conter preços domésticos

06.06.2026 | Por: Gudyê KondZilla

O governo de Donald Trump anunciou uma proposta de tarifa de 25% via Seção 301 em 1º de junho, mas decidiu não incluir a carne bovina na lista de produtos atingidos. A exclusão não se deve a preferência diplomática: é resultado da combinação de déficit de oferta interna, concentração industrial e medidas adotadas para segurar preços ao consumidor, que os pecuaristas alertam poder agravar problemas estruturais no setor.

Os Estados Unidos enfrentam uma redução do rebanho que já dura sete anos e limita a capacidade de oferta. Em 1º de janeiro, o inventário total era de 86,155 milhões de bovinos, o menor desde 1951, segundo o USDA/NASS. O número de vacas de corte ficou em 27,6 milhões, nível não observado desde 1960. Em relação ao pico de 2019, houve perda de 4,03 milhões de vacas de corte, recuo de 12,7% na base reprodutiva.

Por que importações e não tarifas

O USDA/ERS registra que os EUA importaram 18% mais carne bovina no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025, recorrendo a fornecedores como Brasil, Austrália, Uruguai, Argentina, Nicarágua e Paraguai para abastecer o mercado interno. A opção de não taxar a carne na proposta de 25% anunciada em 1º de junho visa reduzir pressões no varejo de curto prazo, mas produtores e associações alertam para efeitos adversos no longo prazo.

Em declaração de 12 de maio, o CEO da R-CALF, Bill Bullard, afirmou que “aumentar temporariamente a oferta de carne importada provavelmente retardará a expansão do rebanho bovino americano”. A National Cattlemen’s Beef Association e a American Farm Bureau Federation compartilham diagnóstico semelhante: importações aliviam o preço no varejo momentaneamente, mas desincentivam a recomposição do plantel.

Fatores que limitam a recuperação do rebanho

O chamado cattle cycle, ciclo de 8 a 12 anos do rebanho, entrou em contração em 2019 e não foi revertido no ritmo exigido pela demanda. A seca de 2022–2023 elevou custos de alimentação; em 2023, quase 93% das vacas de corte estavam em estados com pastagens avaliadas como “muito ruins” a “razoáveis” pelo USDA/NASS. Com feno em preços recordes, produtores abateram fêmeas reprodutivas.

Operações médias de cria têm cerca de 47 bovinos, conforme o Censo da Agricultura de 2022. Fazendas maiores (100+ vacas) representam 10,5% das unidades, porém concentram 60,5% do inventário; pequenos produtores saem do negócio mais rápido por falta de reservas. A safra de bezerros de 2025 somou 32,9 milhões, queda de 2% sobre 2024 e 3,39 milhões menor que o pico de 2018. O USDA/ERS prevê que uma expansão significativa do rebanho só deve ocorrer a partir de 2028.

Produção, concentração e vulnerabilidades

Com menos animais, a indústria elevou o peso médio das carcaças em 2024 (aumento de 11 quilos sobre 2023) para manter produção próxima a 12,25 milhões de toneladas. Em 2025 essa compensação já foi insuficiente: a produção comercial caiu 4%, para cerca de 11,8 milhões de toneladas — o menor volume desde 2016. A projeção para 2026 é de 11,76 milhões de toneladas.

A estrutura de abate também amplia choques: JBS USA, Cargill, Tyson Foods e National Beef respondem por 77% a 85% do abate de novilhos e novilhas, segundo dados do USDA/FSIS compilados pelo Office of the Chief Economist em 2023. O índice CR4 subiu de 36% em 1980 para mais de 80% nas décadas seguintes, gerando eficiências mas também risco sistêmico quando uma planta sofre interrupção.

Imagem: GettyimagesPecuaristas dos EUA acreditam que solução não vem no curto prazo

Eventos recentes ilustram a exposição: incêndio em 2019 na Tyson (Holcomb, Kansas) e paralisações da pandemia provocaram saltos nos preços do produto embalado. Em 2025, operações de fiscalização de imigração reduziram produção de uma planta em Nebraska a 20% da capacidade. Mais de 50% dos trabalhadores nos frigoríficos nasceram no exterior, porcentual que chega a 60% em estados como Nebraska e Iowa, segundo o Center for Economic and Policy Research.

Fiscalização, pragas e importações brasileiras

Em novembro de 2025 Trump ordenou que o Departamento de Justiça investigasse as quatro maiores empresas por suspeita de cartel; o procurador-geral interino Todd Blanche informou que o DOJ já havia revisado mais de três milhões de documentos. A indústria, por meio do Meat Institute, afirmou que as plantas operaram com prejuízo por mais de um ano devido à oferta restrita de gado e demanda forte.

Em 5 de janeiro, a cota TRQ “Other Countries” já estava 91% preenchida, e em 6 de janeiro o Brasil esgotou sua cota integralmente, segundo relatório do CBP citado pelo USDA/ERS. Em 2026 o USTR reduziu a cota “Other Countries” de 65.005 para 52.005 toneladas, publicada no Federal Register de 31 de dezembro de 2025, transferindo 13.000 toneladas para o Reino Unido. A partir de 7 de janeiro, carne brasileira fora da cota passou a ser tributada em 26,4%.

No acumulado até a semana encerrada em 16 de maio, o Brasil havia exportado 159.729 toneladas de carne bovina para os EUA, alta de 12% sobre o mesmo período de 2025, segundo relatório do USDA/AMS de 22 de maio. No primeiro trimestre de 2026, o Brasil embarcou US$ 795 milhões em carne bovina aos EUA, aumento de 21% ante o ano anterior. As importações americanas de carne bovina no primeiro trimestre chegaram a 562.000 toneladas métricas, avaliadas em quase US$ 4,5 bilhões, alta de 18% sobre o mesmo período de 2025.

Com preços no varejo em níveis recordes desde junho de 2025, o governo estuda suspender por 200 dias os limites quantitativos do sistema TRQ, medida que permitiria volumes maiores de importação com tarifas reduzidas e beneficiaria países com cotas próprias. Enquanto isso, o Brasil — que em 2025 superou os EUA na produção global de carne bovina — segue como fornecedor essencial de um mercado americano com rebanho em contração.

Com informações de Forbes

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