Disparada das fabricantes de chips reacende debate sobre possível bolha no setor
As ações de empresas produtoras de semicondutores registram os maiores ganhos do mercado e voltam a alimentar a discussão sobre a existência de uma bolha. O índice de semicondutores caminha para seu melhor trimestre da história, após avançar 69% nos últimos dois meses, e lidera com folga o desempenho setorial do S&P 500 no ano.
Os aumentos mais expressivos ocorrem no segmento de memória, impulsionados pela forte demanda por chips de alta largura de banda usados em data centers de inteligência artificial, o que tem elevado preços e resultados. As ações da Micron Technology mais que triplicaram no ano. Na Ásia, a SK Hynix subiu 260% e a Samsung, maior fabricante mundial de chips de memória, avança 165%. Cada uma dessas três empresas já vale mais de US$ 1 trilhão, e, juntas, superam o valor de mercado combinado de Meta e Tesla.
O movimento dos papéis reacende um debate entre analistas. Há quem entenda tratar-se de um ciclo de expansão sustentado por mudanças estruturais na indústria; outros enxergam um mercado aquecido demais. “Dá para ver mais uma perna de alta se você quiser comprar aqui, mas eu sempre volto a pensar em quão voláteis os chips podem ser — tudo vai bem até parar de ir bem”, afirma Ed O’Gorman, presidente e sócio-gestor da River Wealth Advisors, que possui posições em Nvidia e Broadcom.
Parte do receio decorre da concentração de ganhos no mercado acionário: quase 80% da alta de 11% do S&P 500 no ano vem de apenas 10 empresas, todas do setor de tecnologia e sete delas do ramo de chips, com Micron e Nvidia entre as maiores contribuintes.
A indústria de semicondutores é considerada cíclica, com oscilações entre fases de alta e de retração. O intervalo entre pedidos e entregas pode durar meses, criando desalinhamentos que resultam em estoques elevados e queda de preços quando a demanda regride. O efeito foi especialmente severo no ciclo de memória durante a pandemia: em 2022 a Micron registrou lucro de US$ 8,7 bilhões; em 2023, prejuízo de US$ 5,8 bilhões, devido a um excesso de oferta que acabou pior do que o esperado.
A introdução dos chips de alta largura de banda alterou parte da dinâmica: esses componentes são mais complexos e apresentam maior taxa de falha, consumindo parcela relevante da capacidade industrial e provocando escassez em mercados como smartphones e PCs. As projeções de lucro para a Micron saltam de US$ 8,5 bilhões em 2025 para US$ 66,8 bilhões em 2026, e para cerca de US$ 120 bilhões em 2027, segundo os dados citados.
O salto de lucros tem ajudado a sustentar múltiplos, embora com divergências conforme a métrica usada. Pelas estimativas para os próximos 12 meses, Micron e Sandisk negociam perto de 10 vezes o lucro, enquanto o índice de semicondutores da Filadélfia opera a quase 27 vezes. Pelos lucros realizados nos últimos 12 meses, entretanto, a Micron aparece a 46 vezes e a Sandisk a 58, com o índice em cerca de 71 vezes — o nível mais alto desde a ressaca da crise financeira de 2008 — e 15 vezes a receita, o maior patamar desde o início da série em 2002.
Imagem: Adobe Stock
Até quando?
A continuidade do rali depende em grande parte da demanda por infraestrutura de IA. “Tudo se resume a: até quando dá para esperar que a construção da infraestrutura de IA continue? Se continuar, os chips provavelmente seguem indo bem. Mas também existe a chance de a gente estar esquiando além das próprias pernas”, diz Kai Wu, diretor de investimentos da Sparkline Capital.
As quatro maiores compradoras de equipamentos de computação — Amazon, Meta, Alphabet e Microsoft — planejam investir até US$ 725 bilhões em capital em 2026, principalmente em data centers de IA, e indicam despesas ainda maiores para 2027, embora com maior utilização de endividamento. “Parece provável, no mínimo, que esse gasto vá entrar em platô — ainda que em patamar bem mais alto do que era antes”, observa O’Gorman.
Segundo a Bloomberg Intelligence, os lucros das empresas ligadas a semicondutores no S&P 500 devem dobrar neste ano, mais de quatro vezes o avanço esperado para o índice como um todo. Para alguns gestores, a evolução da memória de alta largura de banda e a possibilidade de contratos de longo prazo com preços negociados poderiam reduzir a ciclicidade do setor; para outros, o risco de reversão permanece elevado.
Por Jeran Wittenstein e Ryan Vlastelica, Ian King e Youkyung Lee.
Com informações de Investnews