Bourbon em excesso provoca queda na produção e estoques recordes em Kentucky
O aumento do estoque e a queda nas vendas transformaram o bourbon — bebida símbolo dos Estados Unidos — em um problema para produtores do Kentucky. A destilaria da Jim Beam, descrita por sua fachada como “O Alambique que Mais Trabalha na América” e capaz de produzir um barril a cada 93 segundos, está com suas operações de 20 metros de altura paralisadas desde janeiro e deve permanecer inativa pelo menos até 2027.
No campus de cerca de 175 hectares ao sul de Louisville, depósitos estão repletos de barris cheios de líquido escuro sem compradores imediatos. A Jim Beam, marca com origem anterior à Guerra Civil e hoje propriedade da japonesa Suntory Holdings, remanejous empregados para a área de envase e passou a testar novas estratégias comerciais, incluindo lançamentos aromatizados e bebidas sem álcool.
Quem, o que e onde
A desaceleração atinge destilarias de todos os portes em Kentucky, região responsável por cerca de 95% da produção mundial de bourbon e que reúne 125 destilarias licenciadas — mais do que em qualquer momento desde o fim da Lei Seca, em 1933. A Associação de Destiladores do Kentucky estima que o estado acumula cerca de 16,1 milhões de barris — o equivalente a aproximadamente 300 milhões de caixas —, o maior estoque já registrado no setor, suficiente para até dez anos, segundo cálculos da indústria.
Por que ocorreu
O consumo de whiskey americano atingiu pico em 2022, com 31,2 milhões de caixas de nove litros, e depois caiu: o Conselho de Bebidas Destiladas registrou cerca de 30 milhões de caixas vendidas em 2025. Entre os fatores apontados estão o movimento pela sobriedade consciente, efeitos da inflação, a popularização de medicamentos para emagrecimento à base de GLP-1, maior oferta de cannabis e bebidas com THC sem ressaca, além de barreiras às exportações criadas por medidas comerciais da administração Trump. A demanda também foi superestimada após investimentos durante a pandemia, quando consumidores estocaram bebidas.
Barris e fornecedores
A cadeia de produção também sente o impacto: tanoarias que fabricam barris para envelhecimento enfrentam queda de preços. No auge de 2023 e 2024, barris custavam mais de US$ 285; ao final de 2024 barris usados eram negociados por mais de US$ 200 no mercado de revenda, mas agora chegam a ser vendidos por cerca de US$ 50. Com menor procura, alguns barris passaram a ser comercializados como objetos decorativos.
Empresas e ajustes
Produtores independentes e grandes grupos reduziram produção e pessoal. A Brown-Forman, dona do Woodford Reserve e ligada ao Jack Daniel’s, demitiu 12% de seus 5.400 funcionários no ano passado, projetando economia de US$ 70 milhões a US$ 80 milhões. A empresa fechou uma tanoaria em Louisville e avaliou uma fusão com a Pernod Ricard, negociações que foram encerradas no final de abril. A Sazerac, fabricante do Buffalo Trace, também demonstrou interesse em movimentos estratégicos.
Exemplos menores também ilustram a crise: a Distillery 291, de Colorado Springs, teve que reduzir produção e cortar quadro de 30 para 12 funcionários; seu fundador viu as vendas caírem após o fim do consumo recorde do período pandêmico.
Imagem: Imagem Divulgação
Inovações e sobrevivência
Para driblar a retração, marcas adotam iniciativas diversas. A Jim Beam lançou uma bebida cítrica sem álcool chamada Citrus Sin, testada em eventos de Fórmula 1 — primeira bebida sem álcool a ostentar a marca desde a Proibição — e promove coquetéis com limonada e garrafas aromatizadas para públicos mais jovens, utilizando celebridades para divulgar os produtos. A empresa transferiu parte da produção de Clermont para a unidade Booker Noe e mantém um alambique artesanal em operação; suas instalações continuam recebendo visitantes — cerca de 150 mil no ano passado — e a marca diz não pretender encerrar atividades.
Casos de marcas artesanais e aquisições frustradas também fazem parte do quadro: a Kentucky Owl, resgatada por Dixon Dedman, foi comprada em 2017 pelo grupo S.P.I. (Stoli), que planejou um complexo de US$ 150 milhões que nunca saiu do papel; a companhia enfrentou depois problemas financeiros e pedidos de concordata sob o Capítulo 11. Em outubro, um juiz rejeitou um plano de reestruturação que usava o estoque de bourbon como garantia.
Regras legais continuam a definir o produto: por lei americana, bourbon deve ser destilado de um mosto com pelo menos 51% de milho e envelhecido em barris novos de carvalho carbonizado; para ostentar a designação “bourbon do Kentucky”, é necessário que o envelhecimento físico ocorra no estado por pelo menos um ano.
O setor, que cresceu nos últimos anos impulsionado por coquetelaria e turismo do Bourbon Trail, enfrenta agora um excedente que obriga produtores, tanoarias e distribuidores a reverem estratégias enquanto acumulam estoques sem comprador imediato.
Com informações de Investnews