Saiba mais sobre o que o mito de sísifo ensina sobre o engajamento no trabalho
A pedra que não cessa: por que encontrar sentido no trabalho importa mais do que alcançar o topo
Como a história de Sísifo explica o ciclo infinito das tarefas e o custo do desengajamento
Sísifo empurra, a pedra cai, e ele começa de novo. A imagem antiga cabe perfeitamente no escritório moderno: metas que se renovam, relatórios que voltam à estaca zero, prazos que recomeçam a cada mês. Para muita gente, o trabalho virou um movimento circular — esforço constante sem um destino definitivo.
Há, porém, uma virada nesta narrativa. Filósofos do século XX já sugeriram que o conflito não está só em escapar da repetição, mas em como nos relacionamos com ela. Trocar a obsessão pelo resultado pela atenção ao processo muda a percepção do que é trabalho significativo.
Essa mudança não é mera retórica. Pessoas que conseguem enxergar valor nas tarefas do dia a dia tendem a manter níveis melhores de energia e entrega — mesmo quando as recompensas externas demoram a aparecer. Em contrapartida, o desengajamento tem preço alto e palpável.
Valor, recompensa e o impacto real na produtividade global
Relatórios recentes apontam um prejuízo monumental associado ao desengajamento: bilhões em produtividade perdida que equivalem a frações relevantes do PIB mundial. Esse número não é só estatística; é sinal de que algo essencial falta nas rotinas de trabalho de grande parte da força laboral.
Remuneração justa é condição básica. Sem ela, motivação some. Mas pagar bem não garante entusiasmo. O que distingue quem sobra do quem some é a experiência cotidiana de significado — a sensação de que o esforço tem propósito próprio, e não apenas uma promessa futura.
Imagem: Imagem Divulgação
Há exemplos práticos: profissionais que encontram satisfação em tarefas simples e rotineiras, e acabam avançando mais nas carreiras do que colegas que aguardam grandes reconhecimentos. Isso reforça uma ideia: o engajamento não nasce só de estímulos externos. Ele se constrói na percepção de propriedade sobre o trabalho e na possibilidade de enxergar sentido no trajeto.
No limite, a pedra continuará subindo e rolando. A questão é se encaramos essa trajetória como fardo intolerável ou como parte da própria realização. A diferença entre os dois cenários explica boa parte da produtividade — e do bem-estar — nas organizações contemporâneas.
Fernanda Abilel é professora da FGV e sócia-fundadora da How2Pay.