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O corre das minas de quebrada que empreendem e fazem a economia local girar

08.03.2021 | Por: Rayane Moura

Cada vez mais diversas mulheres começam a empreender nas quebradas, fazendo a economia girar lá mesmo. De acordo com o último levantamento da Global Entrepreneurship Monitor (GEM 2019), estima-se que existam cerca 53,4 milhões de brasileiros à frente de alguma atividade empreendedora. Deste total, 9,031 milhões são microempreendedores individuais (MEIs), segundo pesquisa do Sebrae. O que não faltam são lojas de roupas, salões de beleza, e meninas que vendem doces e bolos na comunidade. Mas e as histórias por trás de todo esse corre? Muitas mulheres empreendem por falta de oportunidades no mercado de trabalho, principalmente por serem periféricas e morarem mais longe dos grandes centros. Dia 8 de Março é considerado o Dia Internacional das Mulheres, por isso o Portal KondZilla resolveu contar um pouco sobre essas meninas que são correria.

Andreza Mendes Santos, de 21 anos, é nascida e criada no quebrada do Capuava, em Santo André, ABC Paulista. Em julho de 2018, após pedir demissão do emprego fixo, resolveu investir o dinheiro que recebeu em roupas para revender. “Recebi uma merreca e cheguei na minha mãe e falei ‘vou no Brás comprar roupa com esse R$ 350’. Comprei pouquíssimas peças, cheguei em casa e mostrei pra minha família e ali começou a fluir minhas primeiras clientes. Sobrou algumas peças, criei um Instagram, anunciei e no outro dia mesmo eu já estava na estação entregando”.

O negócio começou a fluir tão bem, que Andreza precisou procurar um ponto fixo para abrir a loja física. “Coloquei na cabeça que não queria mais vender só on-line e queria um ponto fixo, por isso procurei encontrei um ponto próximo a minha casa bem simples. Depois disso as vendas simplesmente dispararam e o meu retorno de clientes aumentou demais”, explica ela.

A loja que leva o seu nome, Andreza Mendes Modas, atualmente acumula mais de 41k de seguidores no Instagram. De início Andreza era a própria modelo, além de fazer todas as entregas nas estações de trem e metrô. Diferente de antes, hoje ela tem modelos próprios para exibir as peças nas redes sociais, além de motoboys para fazer entregas em bairros mais distantes. 

Além disso, Andreza resolveu inovar e trouxe para a loja um coquetel, coisa que já existe nas lojas grandes de grife, mas na quebrada é uma novidade. “No dia, tinham clientes desde 5h da manhã sentada na porta para serem as primeiras a garantir as melhores mercadorias. Foram 10 horas de fila e tinha muitas meninas para serem atendidas”, conta ela, que ao fim do coquetel terminou com as araras vazias e mais da maioria de sua mercadoria vendida. 

Nicolle Neves Andretta Campos, de 21 anos, é outra empreendedora de sucesso. “Empreender na quebrada é difícil. Mas ali a gente vê que dá para usufruir e extrair algo a mais”, explica ela, que hoje acumula mais de 37k de seguidores na página da loja de roupas no Instagram.    

Moradora da Fazenda da Juta, Zona Leste de São Paulo, Nicole iniciou as vendas em casa e online em julho de 2019, mas logo percebeu que não daria conta. Mesmo com um emprego fixo, Nicole iniciou a correria entre trabalho, faculdade e lojinha online. “Minha rotina era passar a madrugada inteira e a manhã fazendo compras para a loja, logo em seguida ir para outro emprego, e a faculdade. Até que pedi para que o meu serviço fixo me demitisse e entrei em um ‘acordo’ com eles, foi aí que eu entrei por completo no meu sonho”, explica ela. 

Em outubro de 2019, Nicole conseguiu um ponto em uma sala comercial e logo em seguida, em dezembro, conseguiu trocar para um ponto comercial porta de rua, todos na Fazenda da Juta. Além de ser responsável pela loja física e online, Nicole não abandonou a faculdade e cursa o 7º semestre de Direito. A empreendedora é responsável por repor mercadorias na loja, financeiro, atender online e físico, entre outras mil coisas. “Hoje eu sou grata pelas pessoas responsáveis por cada setor que fazem com que a loja Nicolle Andretta aconteça, todos os meus funcionários, porque eles fazem com que a loja cresça”, agradece. 

Nicole também mandou o papo sobre a correria de buscar mercadorias no Brás. “Loucura total, que mesmo que eu tente explicar, mostrar, só quem está lá para sentir na pele como realmente é. Durmo em filas de mercadoria, filas de dias, de meses. Quem tem carro, dorme no carro, mas quem não tem, dorme na rua. Às vezes até mesmo a minha família não me vê muito, porque passo mais tempo nas filas do que em casa. Ninguém entende a loucura que é”, explica ela. 

Saindo um pouco dos padrões de lojas de roupas, Caroliny Lima Alves, de 21 anos, vende doces e bolos na quebrada. Assim como Andreza, ela é nascida e criada no Capuava. “Comecei a vender bolos aos 16 anos na escola, mas vim me formalizar mesmo em abril de 2018. Nos primeiros meses não foi muito fácil, mas o pessoal começou a divulgar meu trabalho para amigos, vizinhos, parentes e assim foi. Hoje 70% da minha renda vem aqui da quebrada”, conta. 

Diferente da maioria, Carol conta que o impasse no começo foi a timidez. “A principal dificuldade foi a vergonha de conversar com muitas pessoas, eu sempre fui bem tímida, então isso foi muito difícil. Até que comecei usar as redes sociais assim ficou muito mais fácil a comunicação com todos”, conta a empreendedora. 

Por conta da pandemia, Carol ficou parada por cerca de quatro meses. “A pandemia fez com que eu parasse com todos os doces durante quatro meses. Nesse momento as pessoas pararam com as festa e até de consumir algumas coisas como bolos. Foi muito difícil essa fase e a voltar também estou me reerguendo aos poucos”, explica a dona da marca Carol Doces

“Eu nunca imaginei que chegaria até aqui, quando percebi já estava vendendo fora da escola, criando a minha primeira logomarca, dedicando dias e horas para aprender doces incrível, amadurecer e tornar disso tudo um negócio”, conta Carol, que atualmente tem os planos de expandir ainda mais. “Hoje a Carol Doces tá com um projeto de abrir a primeira loja, quero entrar pras plataformas de delivery e dar cursos de confeitaria”.

A manicure Clarissa Zuza Nogueira dos Santos, de 24 anos, é moradora de Suzano, no bairro Vila Nova Urupes. Diferente da maioria, ela iniciou o empreendimento de fato durante a pandemia. “Comecei em setembro/outubro de 2020, nesse meio tempo eu conquistei algumas clientes, em dezembro como todos da área da beleza o movimento aumentou e em seguida caiu. Agora em fevereiro eu senti uma melhora, mas com a piora dos casos notei que também está rolando um efeito dominó, porque eu infelizmente não posso parar”, explica. 

Zuza descobriu o amor pelas unhas ainda na adolescência, mas sempre como hobbie, nunca como profissão de fato. Em agosto do ano 2020, ela ganhou de  aniversário do marido um alongamento de unhas que queria muito, mas no momento de fazer a manutenção, não conseguiu novamente contato com a manicure e resolveu ela mesmo fazer, vendo apenas vídeos no Youtube.

“Nessa época eu já estava desempregada e caçando o que fazer de uma forma que eu conseguisse ficar com meu filho também, alguma coisa mais flexível. Foi aí me deu um estalo, lembrei do quanto eu gostava de unha, e resolvi tentar começar a colocar em prática o que havia aprendido no curso de gel”, conta ela, lembrando de quando tudo começou.

“Peguei uma prima minha de modelo e fizemos o banho em gel, nisso eu comecei pesquisar no YouTube coisas sobre gel, alongamentos de unha (que eu não tinha a noção ainda), e minha prima me deu a sugestão de tentar fazer o alongamento nela, só com as aulas do Youtube mesmo”, e assim o negócio iniciou. Logo em seguida, Zuza resolveu investir todas as economias em um curso de unha de gel com essa mesma professora, com duração de três dias. 

Atualmente Zuza faz alongamentos de unhas em gel e fibra de vidro. Além da insegurança, a maior dificuldade tem sido a logística para atendimento. “Creio que além da insegurança a minha maior dificuldade é a logística, eu atendo no corredor da minha casa, que tem o meu quarto, o quartinho do meu filho puxado do meu o corredor e a cozinha, e aí a batalha é pra manter a casa totalmente limpa pra receber as clientes e esterilizar os materiais, o que com uma criança de um ano em casa se torna uma tarefa muito complicada, claro ter com quem deixar o bebe pra que eu possa atender”, explica ela.

Além de ser manicure, Zuza é fotógrafa e manteve por alguns meses uma lojinha online e sapatos infantis. Mãe de um filho de 1 ano e 5 meses, ela se multiplica para manter a casa e atender as clientes. Por conta da pandemia, muitos eventos foram cancelados, por isso se viu obrigada a deixar a fotografia de lado e focar 100% nas unhas. 

“Quando a criança está em casa durante o atendimento tentar manter ele o mais comportado possível, sem ficar indo em cima das clientes, mexer nas coisas, pedindo colo, mamá. Então acaba sendo uma logística muito doida, arruma a casa, faz comida, dá comida pro bebe, arruma tudo de novo, limpa tudo, espera a criança dormir, vai esterilizar as coisas”, conta ela.  

No momento Zuza busca expandir o negócio, e alugar um local próprio para o atendimento. “Meu objetivo maior é parar de atender dentro de casa, e ter meu próprio espacinho, não precisa nem ser no centro da cidade nem nada, a questão é realmente ter o próprio espaço, seu nome lá, sem ter que colocar as pessoas no meio da minha casa nem tirar a privacidade do meu filho e até mesmo do pai dele, até pela questão da credibilidade né, as pessoas acabam levando mais a sério quando é um salão separado, que fosse no mesmo terreno, mas separado, Então posso dizer que essa é minha principal meta”, explica ela. 

Foto: Lucas Sirino

Beatriz Punça, mas conhecida como Bia Punça, tem 19 anos e é moradora da periferia de Guarulhos. Dona de um brechó online, ela iniciou as vendas após se formar no ensino médio. Por falta de uma oportunidade no mercado de trabalho, ela resolveu fazer um desapego de algumas peças para ter uma grana extra, e o negócio acabou crescendo. 

O brechó leva o nome de É tudo Punça, por conta do sobrenome de Bia. “A regra na periferia diz que o jovem que faz 18 anos, tem que ter um emprego registrado. Eu tava desempregada, tinha acabado de sair do Ensino Médio, mandei vários currículos, e enquanto não era chamada abrir esse desapego para conseguir uma grana extra”, conta.

Foto: Quéren Oliveira

Durante um ano e meio, Bia foi aprendiz em um grande hotel próximo ao aeroporto de Guarulhos. Por conta da pandemia, ela ficou afastada e logo em seguida demitida, fazendo com que se dedicasse 100% ao Brechó. Estudantes de Ciências Sociais pela UNIFESP, atualmente essa tem sido a sua principal fonte de renda. 

Todas as peças de Bia são garimpos feitos pela cidade de Guarulhos, em bazares e outros brechós. Em homenagem ao Dia das Mulheres, ela está lançando a coleção Fora dos Contos. “E o slogan é: uma coleção para ir além dos contos de fadas e conhecer o que mulheres reais fazem no mundo real. São 32 peças, de segunda mão, todas reaproveitadas e exclusivas, com todo um propósito e história por trás”, explica. 

Assim como Andreza, Nicole, Carol, Zuza e Beatriz, muitas outras mulheres também são empreendedoras na sua quebrada. Essa é uma pequena amostra das diversas histórias que existem na quebrada de meninas que empreendem por falta de oportunidades e fazem disso suas principais fontes de renda e inspiram outras minas a fazerem o mesmo.

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