Vivências e visões de uma professora de quebrada

Autor: Fernanda Souza

Fotos por: Acervo Pessoal // Fernanda Souza

Histórias que inspiram | 15/10/2019 11:42:49

Anexo faltante

Transmitir conhecimento não é o único papel que muitos professores assumem nas escolas brasileiras, sobretudo, quem é professor na periferia. Dentre tantos desafios na sala de aula, é o professor que pode construir pontes que mudam a vida de alguém. Nós podemos virar psicólogo, um amigo, um mestre e principalmente um exemplo. No Dia do Professor, vou compartilhar com o Portal KondZilla as vivências e visões de quem é uma professora de quebrada aqui em São Paulo. Cola aqui que é o papo é sério!

Meu nome é Fernanda Souza, além de colaborar com conteúdo pro site da KondZilla, eu sou professora de língua portuguesa há exatamente 6 anos. Hoje com 24 anos, não me arrependo nenhum dia de ter trocado em 2013 a chance de uma bolsa em Direito pelo curso de Letras. Sinto-me feliz por ter escolhido ser professora e de aprender tanto na mesma medida que ensino, pois é inegável que essa profissão tão importante, requer amor, tesão e, principalmente, sensibilidade.

A minha história com a educação é muito louca, pois eu não era um modelo de aluna na sala de aula. Eu era tida como ‘’aluna problema’’, envolvida com expulsão, vandalismo e até mesmo briga com professor. Como muitos adolescentes de periferia, a escola pra mim era uma etapa obrigatória, não tinha perspectivas, mas sim muitas frustrações.

Porém, o mais louco da minha trajetória é que tudo começou no 3° do Ensino Médio, quando encontrei na minha vida um professor que fez a diferença, o Luizão de Geografia. Rolou um lance de respeito, porque ele não olhava pra turma do ‘’fundão’’ com ódio. Na verdade, ele nos aproximava na aula, demonstrava interesse nos nossos raps e funks. Além disso, dava umas lições de moral que estimulavam e colocavam a gente pra cima.

Num desses sermões, Luiz me pegou de jeito. Quando tentei explicar para meus colegas o rap “Jesus Chorou”, do Racionais MCs, ele parou e prestou atenção. Lançou umas palavras mais ou menos assim para mim: “Vai fazer o que com toda essa moral? Quer ser estatística ou virar o jogo? Você é boa em sentir e explicar!’’. Daí, só pra resumir, comecei a botar na cabeça que ia ser “alguém”, e consegui entrar num cursinho pré-vestibular popular para ver como era esse lance de estudar.

No cursinho eu me desabrochei como uma flor, porque aprendi tanta coisa e tive contato com tantos professores que transferiram saberes dos quais a escola tinha me negado. Alí, tive a certeza que minha paciência, respeito e malandragem com meus parceiros de quebrada, eram a brecha pra ser o “Luiz” na vida de alguém.

A decisão de virar professora surgiu da revolta de perceber que tanta gente como eu estava perdendo o direito de saber tudo o que eu aprendi, bem como a vontade de compartilhar meus conhecimentos. O jeito foi me jogar pra sala de aula e atingir o máximo de pessoas possíveis. De verdade, parece até loucura, mas me cobro todo dia sobre essa responsa, só fico satisfeita quando vejo no olhar de cada aluno o aprendizado de alguma forma.

Já presenciei muita coisa pesada em sala de aula. Quando eu estava começando, mesmo com 18 anos, eu aceitava ser eventual, no período noturno, em escolas que professores não queriam entrar. Eu preparava aula pra turmas que eram rejeitadas e criava vínculos com alunos que ninguém tinha coragem de saber qual a história pessoal.

Vou contar pra vocês uma dessas histórias loucas. Em uma das vezes, rolou um “apagão” na quebrada, na correria de alunos e professores com medo, pois nessas horas a fita fica séria, um aluno me puxou no meio do corredor e disse “Tá tudo suave profe, você é das nossas”. Fui levada pra casa num golzinho branco na santa paz da quebrada.

Uma outra vez, nem sei se podia contar isso, encontrei um ex-aluno tendo uma crise por causa de droga na praça da vila. Peguei ele, o levei pra sua casa e no outro dia dei um livro do Sérgio Vaz. Nunca mais vi ele baforando lança nos bailes. Hoje em dia, tá namorando, fazendo técnico e dizendo que virou maluco como eu.


Minha primeira vez como professora, com 18 anos

Uma parada que me motiva a continuar é que eu sou conhecida como a professora ou “tia prof” (como chamam meus amigos na minha quebrada). Dificilmente alguém me chama por Fernanda. E não tem coisa melhor do que estar numa roda de samba, uma jogatina na praça, na feira de domingo comendo um pastel ou até em um fluxo e um ex-aluno chegar e falar que jamais esqueceu minhas aulas de literatura, que eu ensinei poesia por meio do Racionais ou ainda, que está fazendo cursinho ou faculdade porque me vê como exemplo.

Seria clichê eu contar para vocês que me emocionei escrevendo esse texto, mas caíram lágrimas porque hoje, mais uma vez, percebi o quanto isso transforma vidas. Não é só na sala de aula. Além de ex-alunos virarem amigos, as pessoas ao meu redor buscam ajuda nos estudados para um concurso, para procurar um cursinho, explicar um texto, dentre tantas fitas.

Mas é claro que a vida não é só flores, sempre há pedras no caminho. Além de dar aulas no extremo sul da cidade de São Paulo, com todo aquele desafio de lidar com corpos que são marginalizados todos os dias, a sala de aula tem desafios constantes. Tenho que pensar o tempo todo em como tornar interessante a aula e como fazer com que o conteúdo faça sentido pra um adolescente.

Num cenário cada vez mais emocional e conturbado nas relações pessoais, é impossível dizer que o professor não é educador. Há uma diferença entre ser professor, que tem função acadêmica e conteudística, e a do educador – que hoje, mais do que nunca, ensina conhecimentos para o desenvolvimento social e pessoal. Algumas crianças e alguns adolescentes passam mais tempo na escola do que com suas próprias famílias, e por mais polêmica que seja a discussão, o professor acaba com o papel de transmitir valores emocionais, éticos e morais.

Se eu fosse resumir o que busco na minha trajetória posso afirmar que é girar conhecimento, respeitando sempre o outro, pois todo mundo tem muita bagagem consigo. Ensinando eu vou aprendendo e assim, dando o meu melhor para fazer a diferença.

Um salve pro grande educador Sérgio Vaz, Marcio Pezão, Dona Vilani (professora e mãe do Criolo), Luizão de Geografia, todos meus mestres do cursinho pré-vestibular, meus colegas de trabalho. E claro, todo mundo que está no cotidiano em movimentos sociais, ONGs, praças, centro culturais erguendo castelos girando o ensino informal, fora de sala.

Deixo um poema chave para fechar essas ideias. Se liga!

Um poema para os Professores – Sérgio Vaz

AO MESTRE, A FLOR
Adubar a terra
com números e letras
asas e poemas.
Para colher lírios,
cravos e alfazemas.
Agricultor,
o bom mestre sabe,
que espinhos e pétalas
fazem parte da primavera.
Porque ensinar
é regar a semente
sem afogar a flor.

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