Uma história da luta LGBT no funk

Autor: GG Albuquerque

Fotos por: Jeferson Delgado // Portal KondZilla

Diversidade | 28/06/2019 14:45:27

Anexo faltante

Por volta de 2001 o Brasil viu nascer uma estrela diferente no mundo do funk. Não era o típico MC carioca marrento, nem era a “popozuda” em shorts minúsculos e justinhos. Marco Aurélio Silva, o Lacraia, desafiava o binarismo de gêneros definido-se como uma “quase mulher”. Dançando ao lado do MC Serginho, Lacraia ironizava os padrões heterossexuais e tornou-se o primeiro ícone LGBT do funk, antes mesmo da luta por igualdade entrar no horário nobre da televisão. Quase vinte anos depois, famosas como Ludmilla, Anitta e Iasmin Turbininha estão se assumindo bi ou lésbicas e cantoras trans como Pepita e Xuxú ganhando visibilidade no funk. Também héteros como Rennan da Penha, Tati Quebra Barraco e Valesca passaram a defender a causa LGBT. Todos na luta por um baile funk mais inclusivo e democrático.

Primeiro álbum da história do funk carioca, a coletânea “Funk Brasil” (1989) do DJ Marlboro tratava sobre homossexualidade já na sua faixa de abertura: “Rap das Aranhas”, uma versão do MC Cidinho Cambalhota para “Rock das Aranhas” de Raul Seixas, falava sobre sexo entre duas mulheres. Desde então o tema continuou sendo explorado em várias faixas. O pesquisador Carlos Palombini cita algumas: a “Resposta das Aranhas” cantada pela atriz Dercy Gonçalves no LP “Rap Brasil 2” (1990); “Rap do Gorila Gay” dos MCs Gorila e Preto (1996); “Pit Bicha” da MC Bela (2000); “Montagem Marra de Sansão” de Tati Quebra Barraco (2001); e “Os Bunitim Tão Virando Viadim” dos MCs Gorila e Preto (2009).

Estas músicas, no entanto, tinham uma visão caricatural da homossexualidade. E, ainda que cantoras como Tati Quebra Barraco tenham se tornado ícones LGBTs, eram cantadas por artistas heterossexuais e cisgêneros. Assumidamente gay, Lacraia questionou as normas da sexualidade diretamente em seu corpo, à frente do palco. “A Lacraia é uma figura de respeito, que eu e Serginho criamos juntos. Antes, os garotos dos bondes diziam assim: ‘Vai viado escroto, vai’. Agora, respeitam a minha arte e dizem ‘vai Lacraia, vai’. Eu era cabeleireiro, maquiador, drag queen, mas agora sou a Lacraia”, afirmou em entrevista de 2009. “Eu sei que ainda tem muita discriminação, mas eu considero a Lacraia como um marco na televisão brasileira: um viado, preto e pobre que, brincando, mostra um rebolado mais bonito que de muita mulher; um viado que passou a fazer sucesso na TV, antes que qualquer homossexual aparecesse em novela. Aliás o que não pode na novela, pode no nosso palco: o beijo na boca”.

Desde então, outras mulheres heterossexuais como Valesca e MC Carol vem dando apoio explícito às causas feminista e LGBT e mais uma série de fenômenos questionaram o papel do gênero e sexualidade nas favelas. “Surgiu o passinho, com representações corporais — menos paródias que paráfrases — da feminização do homem. Apareceu toda uma geração de adolescentes periféricos encarando com maior naturalidade orientações discrepantes de gênero. Incluíram-se entre os atributos da masculinidade juvenil as sobrancelhas feitas, cortadas e pintadas, a depilação corporal e até o quadradinho de quatro. Vieram bondes de dançarinos gays e MCs transexuais, como a Garota X”, elenca Palombini. Tudo isso culminou na realização de bailes especialmente dedicados à diversidade sexual, como é o caso do Helipa LGBT (em São Paulo) e edição especial do Baile da Gaiola LGBT (em janeiro, no Rio de Janeiro). O funk também vem marcando presença na Parada LGBT de São Paulo. Só esse ano, o lineup contou com três funkeiros: Pocah (novo nome da MC Pocahontas), Lexa e Pepita. E vale lembrar: Pepita é uma das primeiras artistas trans do funk.

Um dos maiores nomes do movimento 150 BPM, Iasmin Turbininha é uma das primeiras mulheres produtoras e DJs a ficar conhecida no funk. Lésbica, ela vive postando fotos com sua namorada e diz que foi muito criticada no mundo do funk. “Não da pessoa chegar na minha cara e falar, mas de ficar de piadinhas e indiretas”, conta.

“Ter participado desse evento na Gaiola foi muito importante pra mim porque é uma coisa que nunca teve. Fiquei feliz demais quando o Rennan me chamou. Na favela, tem pessoas que aceitam e pessoas que não. Mas antigamente o preconceito era bem maior. Frequento baile há muito tempo, desde os oito anos e você não via um gay dançando porque os héteros batiam neurose. Tinha briga mesmo. E hoje em dia você vê as pessoas se soltando, dançando, brincando, se sentindo bem, podendo ser quem é”, conta.

Apesar das pessoas estarem entendendo melhor as causas LGBTs, o preconceito ainda é forte. No início deste mês, Ludmilla tornou público seu namoro com a bailarina e blogueira Brunna Gonçalves. Apesar do apoio dos fãs, sofreu ataques preconceituosos na internet e diz que até perdeu contratos de patrocínio. “Vivi por muito tempo essa angústia. Já sou uma pessoa que carrega uma mochila lotada de preconceitos. Negra, funkeira, periférica e bissexual… Pesado, né? A maioria dos hipócritas não suporta isso. Tem que ter muita disposição para assumir tanta coisa”, afirmou em entrevista ao jornal O Globo.

Transsexual, a MC Xuxú estourou em 2014 cantando músicas que falavam abertamente sobre pessoas trans. A música “Um Beijo”, onde mandava “um beijão pras travesti”, viralizou na internet e até a levou ao palco do programa Esquenta. “Por por mais que eu tivesse no auge, continuo sendo um corpo marginalizado. Só quem é artista trans e da preferia sabe mais ou menos como é”, afirma.

Xuxú diz que o objetivo das suas músicas “é ver as manas sendo respeitadas no movimento” e comemora que mais funkeiros influentes estejam se assumindo. “Além de salvar vidas, o funk também liberta as pessoas, né? Eu uso o funk como arma de resistência. Dou voz cantando nossa militância e vivência, mas também faço minhas cobranças e afronto com minhas letras. Quanto mais pessoas cantando funk mais pessoas vão saber que também podem. Quanto mais pessoas LGBTs se assumirem no funk, menos LGBTfobia no movimento, nas letras, nos bailes”, indica.

Para Turbininha, os bailes estão se tornando mais abertos e democráticos. “Antigamente tu não ouvia o DJ mandar alô pros viado e os viado mostrando que tá presente no lugar, gritando. E agora eu vejo até pessoas que nem são viado também gritando. Acho isso maneiro”, diz a DJ do baile de favela da Nova Holanda, que atualmente está produzindo um EP exclusivamente dedicado à temática LGBT. “A gente tem que lutar sempre”, conclui.

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