Por meio da comédia, Yuri Marçal passa a visão de problemas raciais

Autor: Gabriela Ferreira

Fotos por: Jeferson Delgado

Histórias que inspiram | 05/07/2019 12:37:59

Anexo faltante

Na metade de 2018, um comediante chamou atenção da galera. O carioca Yuri Marçal, 27 anos, se popularizou com vídeos como “É Difícil Ser Preto” e “Um Vídeo sobre Racismo Reverso Reverso” que trouxe luz para diversas questões raciais e ainda serviu como representatividade pra galera que por muitos anos era motivo de piadas racistas. A comédia é uma das ferramentas mais fortes para falar sobre problemas sociais, muitas vezes enraizados na sociedade e dificilmente corrigido. Por conta disso, o Portal KondZilla vai te passar a visão do trampo do comediante carioca.

Com temas políticos, sociais, cotidiano em família e várias fitas que acontecem no dia a dia de qualquer jovem de favela, Yuri tem dois stand-ups, o “Coisa de Preto“, que vai ter nova temporada a partir de agosto, e o “Acendam as Luzes”, que tá em cartaz. Yuri conta que sempre foi chegado em comédia. “Sempre fui fã, minha família é muito engraçada e eu fui criado com o meu primo, que é a pessoa mais engraçada que eu conheço. A gente assistia muita comédia e acompanhava vários stand-ups e programas da nossa época, tipo ‘Chaves’ e ‘Casseta e Planeta'”, relembra ele sobre o influenciou a ser comediante.

Todo mundo começa de algum lugar e o Yuri começou fazendo piada pros parentes e pros amigos da escola, o que fez com que a vontade de trampar com comédia só aumentasse. “Depois de um certo tempo, comecei a fazer uns improvisos durante a adolescência e fui cursar Direito na faculdade, ao mesmo tempo comecei um curso de teatro e TV voltado pro humor. Quando me formei, fiz um workshop do Fábio Rabin de stand-up”.

Tudo isso foi somando e somando até que em 2018 nascesse o “Coisa de Preto”, um projeto que reúne comediantes negros para falar sobre racismo, autoestima e outras pautas raciais. “Tenho um feedback gigante da galera. Muita gente diz que o que eu faço é muito importante pra esse momento atual e que entenderam coisas que não sabiam antes. Nem parece que é só comédia, é quase um material didático”.

Esse tipo de humor pode ser polêmico pra uma galera e isso ficou muito visível no show do Djonga em São Paulo, em abril, que teve a participação do Yuri em alguns momentos da noite. Na festa, muita gente branca caiu no riso com piadas como o tamanho das genitálias dos homens brancos e outras coisas, enquanto alguns tiveram o ego ferido e deram uma reclamada na plateia, mesmo que esses incomodados tenham sido a minoria. “Acho que recebo menos ódio do que deveria. Tem uma galera que xinga e espalha discurso de ódio, mas o que mais acontece é eu ser bloqueado no Facebook e Instagram. O pessoal nem discute, já chega denunciando o post”.

Mas é claro que a galera que curte e entende o trampo do comediante é muito maior. Isso porque é como o humorista mesmo falou, o humor serve como um material didático, então muita gente que não tem contato com pautas raciais acaba aprendendo um pouco enquanto se diverte. “Nunca imaginei que isso ia acontecer. É uma consequência muito legal. Eu só queria fazer a galera rir. A única coisa que eu pensei de diferente foi querer fazer piada com coisas que eu acredito e observo”.

“Quando eu falo de racismo, por exemplo, eu nunca quis fazer piadas do tipo: ‘oi, gente tudo bem? sou preto e acabei de roubar um carro’. Isso não era mais interessante pra mim. Teve até uma vez que o Rabin falou que era importante eu falar sobre essas coisas até porque eu falava muito sobre isso fora dos palcos, aí eu pensei ‘ok, vou fazer isso, mas quero falar da perspectiva de quem sofre”, explicou ele como criou o tipo próprio de se fazer comédia.

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MINHA TIA CIARA TEM UM COSTUME ESTRANHO

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Por conta dos temas, a maior parte do público do Yuri é formado por mulher negra e ele explica o porque disso. “Um dos vídeos meus que viralizou era falando sobre mulheres pretas e zoando homens héteros, o que é bem voltado pras meninas. E tem uma questão também que as mulheres são mais engajadas nas causas raciais, então rola uma identificação maior com o que eu falo”.

Yuri vem para mostrar que é possível aprender enquanto se diverte e que pra fazer comédia não é preciso tirar sarro de minorias, o que, na verdade, já deveria ser sabido por todos. O carioca e outros comediantes que por causa de suas características já foram motivo de piadas, hoje estão no palco educando e divertindo centenas de pessoas e sendo inspiração para que muitos outros possam dar um rumo novo ao humor, e que continue assim.

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RESPEITE QUEM PODE CHEGAR ONDE A GENTE CHEGOU Na moral: o que foi isso? A minha mãe nasceu antes da ditadura estourar, irmã mais nova de 7 filhos, passou fome junto da minha avó até os 17 anos, não tinha banheiro em casa, virou adulta, trabalhou, tirou minha avó dessa situação, me teve aos 33, o dinheiro que tinha dedicou à minha saúde e educação, sempre moramos em periferia. Agora, irmão, a gente tá aí, eu cresci, coloquei outro Marçal no mundo, a comédia me abraçou e a realidade da nossa família mudou, as próximas gerações da minha família nunca mais serão as mesmas, porquê a gente fez o jogo virar, mãe! CHEGAR AQUI DE ONDE EU VIM É DESAFIAR A LEI DA GRAVIDADE, POBRE MORRE, É PRESO NESSA IDADE Então, é isso. DUAS MIL PESSOAS que foram ao Vivo Rio ontem e saíram alegres e sabendo que O MUNDO É NOSSO! ✊🏿🖤 📸 @jesusthiagorj

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