Em "AmarElo", Emicida está em paz

Autor: Karolyn Andrade

Fotos por: Reprodução // Redes Sociais

Rap | 31/10/2019 18:35:41

Rap

Anexo faltante

Nesta quarta (30), Emicida lançou seu novo álbum “AmarElo“, com 11 faixas e participações que vão de Zeca Pagodinho a Pabllo Vittar. A sonoridade brasileira faz parte de toda composição, propondo um olhar sob a grandeza da sociedade e o interior de cada um. Cola no Portal KondZilla para destrinchar esse álbum comigo.

Lembro exatamente a primeira faixa que ouvi do Emicida, o primeiro clipe que assisti e o primeiro show que presenciei. A voz dele me acompanhou em diversas fases, sempre foi sinônimo de paz, por isso todo lançamento do rapper me deixa com um frio na barriga, as semanas antecedentes me causam ansiedade, o sentimento é muito doido. A expectativa cria um laço que me puxa pra perto no primeiro play, estou acostumada a ser surpreendida por seus sons, mas dessa vez me soou diferente.

Depois de anos esperando esse momento e das várias pistas do que estava por vir, principalmente por conta do videoclipe de “AmarElo”, eu só tinha uma certeza: ele iria mostrar uma visão que a gente não conhecia ainda, mas eu não fazia ideia de como seria isso.

A primeira faixa “Principia“, com Fabiana Cozza, Pastor Henrique Vieira e Pastoras do Rosário, começa na calmaria soando como um poema cantado em meio às vozes do coral que nos remetem aqueles corais grande de igrejas. O som é marcado por batidas fortes da bateria e contrabaixo. A letra nos leva às raízes, à infância, ao prazer das pequenas coisas. Mas não perde de vista a que veio: “Enquanto a terra não for livre eu também não sou”, diz Emicida em um dos versos cantados.

Em “A Ordem Natural Das Coisas“, com participação de MC Tha, o som envolve através do saxofone e o autotune delicado nas vozes dos cantores tem uma pegada lo-fi com jazz, conta a história de uma mulher fictícia cantando sua rotina, construindo o dia a dia onde há o momento de estudar, trabalhar, só depois o retorno e descanso acontece.

A terceira faixa “Pequenas Alegria da Vida Adulta” fala sobre ter um motivo para não desistir da vida adulta, que é difícil, mas os momentos de alegria fazem tudo valer a pena. Mais uma vez com toques de jazz a faixa nos prepara para o samba que se encontra na quarta faixa com nada mais nada menos que Zeca Pagodinho, “Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo)“. Essa música fala da grandeza e gratidão de ter amigos do seu lado, levanta a importância de se reunir e criar laços para que nos dias mais difíceis possamos nos aliviar por ter quem confiar ao nosso lado.

Paisagem” pode-se dizer a faixa mais sincera do álbum, nela Emicida reflete seu interior falando abertamente sobre seus medos e anseios, dúvidas e da única certeza que pode ter é a escolha de apreciar as flores independente da frequência do vento em sua vida, o som explora suas referências de rock com muita guitarra e bateria com (novamente) um toque singelo de lo-fi. Na música seguinte “Cananéia, Iguape e Ilha Comprida“, a introdução é um áudio gravado em uma conversa com sua filha mais nova, as gargalhadas de sua filha puxam os instrumentos que narram a poesia e celebração da vida, novamente, fala sobre seu interior e visão sobre o que é a vida.

Chegando na metade das músicas, “9nha” tem participação de Drik Barbosa, a letra dessa faixa fala sobre uma linda história de amor, falando sobre parceria contando entre os versos as diferenças do seu amor para ele, mas no final se completam e permanecem juntos. A love song do disco mistura MPB com jazz na faixa mais cantada do álbum. Aqui, as duas vozes se complementam lindamente.

Ismália” com participação de Larissa Luz e Fernanda Montenegro, que faz sua bela entrada recitando Alphonsus poema de Guimarães. “…80 tiros te lembram que existe pele alva e pele alvo. Quem disparou usava farda […]”. Em meio aos versos essa forte faixa fala sobre racismo e suas consequências, a mensagem confronta as estruturas sociais e faz referências à casos de violência que repercutiram pelo país, o som é um grito.

Em “Eminência Parda“, primeira faixa divulgada do projeto, o trap pesado que conta com abertura de Dona Onete e Jé Santiago, novamente fala sobre racismo e questiona as estruturas da sociedade, mas nessa faixa a dor se transforma em conquista: “Caminho sobre as água da mágoa dos pangua / Que caga essas regra que me impuseram /Era um nada, hoje eu guardo um infinito”.

A penúltima faixa leva o título do álbum, “AmarElo” com Pabllo Vittar e Majur. O sample de Belchior reinventa o pop brasileiro com toque de hip-hop nunca explorado antes, uma das faixas mais fortes do álbum fala sobre sobrevivência em tempos difíceis, fala sobre chegar em um estágio onde não há perspectivas de mudança e traz esperança, pois assim como dias bons passam dias ruins também passarão e isso nos deixa mais fortes.

A última faixa dançante fica por conta de “Libre” parceria internacional com as irmãs franco-cubanas Ibey e mistura uma batida inspirado no funk com ritmos latinos para levar uma mensagem de liberdade interior e exterior.

No decorrer dos 48 minutos ouvi um Emicida diferente de todos seus trabalhos anteriores. Ele brinca com suas experiências ressignificando vivências, nos levando ao conhecimento interior, não apenas dele, mas essa experiência pode ser sentida pelo público.

Ele que sempre foi uma referência por conta da sua história ser parecida com a de muitos que vivem nas favelas. Ele perdeu o pai cedo, foi criado pela mãe e passou por muitas dificuldades, sempre falou sobre superação e sonhos em seus discos e usou a própria voz para levantar gritos por todos os povos.

Esse trabalho também veio para confrontar, mas “AmarElo” também é sobre alegrias, amizade, amor, autoconhecimento e um grande carinho no peito. É uma luz de esperança e da melhora. Esse trampo representa o artista plural que Emicida é.

“AmarElo” com certeza vai nos acompanhar de manhã no ponto de ônibus quando a gente sair de casa para correr atrás dos nossos sonhos, nos momentos difíceis pra nos lembrar de não desistir e para estar lá com a gente quando atingirmos nossos objetivos. Foi feito para ouvir sem parar no meio do caos ou da calmaria. E que seja como Emicida diz “se o gueto acorda, o resto que se foda”. O zika está de volta!

Escute o álbum e conte em nosso Instagram qual sua experiência ouvindo os novos sons. Se prepara o show de lançamento que vai ser no Theatro Municipal de São Paulo e fará parte da semana da programação especial da Consciência Negra da Prefeitura de São Paulo. Emicida promete fazer história mais uma vez.

Acompanhe o Emicida nas redes sociais: Twitter // Instagram

O quê você
procura?