Conheça o trabalho incansável de artistas indígenas no Mês da Visibilidade
- Por Carolina Matias

Conheça o trabalho incansável de artistas indígenas no Mês da Visibilidade

Mais do que uma data, o Mês da Visibilidade Indígena é um momento em que as vivências indígenas devem estar ainda mais em protagonismo. O povo indígena é plural e a luta é todo dia! E na música não é diferente, eles estão produzindo e resistindo através da arte.

Para exaltar essas existências, conversamos com algumes artistes da cena musical. Profissionais do Rap, Funk, Trap e da Música Popular Originária (MPO) contam suas histórias na música.

Cola aqui no Portal da KondZilla pra conhecer um pouco mais sobre o trabalho de artistas indígenas incríveis.

Conheça o trabalho da multiartista Isiz Aguiar

Isiz Aguiar, 22, é cantora, compositora, modelo e artista multimídia (foto, vídeo, colagem). Ela é do bairro Eldorado, em Diadema, São Paulo.

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Isiz // Reprodução.

A relação de Isiz com a música sempre foi muito forte pois sua mãe costumava perguntar quem estava cantando na rádio. Isso fez com que ela praticasse seu radar musical.

Com 11 anos, ela começou a escrever funk com algumas amigas, tendo como referência a MC Pocahontas, MC Menorzinha, Bonde do Tigrão, MC Bola e outros. Desde pequena, Isiz foi fascinada pelo movimento hip hop. O seu primeiro contato foi com o break e o grafite.

Conforme ela foi crescendo, seu interesse ficou voltado na visão que o rap passava. Ali, Isiz entendeu que tinha se encontrado.

Um corpo indígena no mundo

Isiz se percebeu enquanto corpo indígena numa sociedade que apaga e invisibiliza diariamente sua existência. “Ao mesmo tempo em que nos questionamos, questionamos o nosso meio e os atravessamentos históricos e culturais que nos trouxeram até aqui”, afirma.

Sendo uma mulher indígena em contexto periférico, ela retoma sua narrativa, de seu território e desta terra que foi invadida. Para ela, escrever foi um processo de cura de várias formas, inclusive compondo músicas.

“Hoje meu trabalho na música com o Rap, R&B ou qualquer outro gênero que eu me arrisque acontece de forma muito sensorial. Eu não tenho uma regra mas com certeza vai muito além de um refrão, envolve luta, dores, prazeres e muito amor também”, disse.

Força nos projetos na arte e na música

Isiz está produzindo o seu primeiro projeto solo (portal 03), que em breve estará nas ruas. Nesse processo, ela falou que ser uma mina dentro do hip hop exige muita força, energia física e mental para conseguir lançar um trabalho.

E para as mulheres indígenas, a dificuldade se dá principalmente para se colocar no mercado. “São muitos pontos que pedem conscientização e por conta de uma sociedade patriarcal e colonial que traz o apagamento histórico. Não é todo público que consegue absorver certos projetos de cara”, coloca.

Isiz é uma artista multimídia, e dentro do audiovisual atua com fotografia, produção, pós-produção, roteiro e direção. O audiovisual é uma das suas veias. O que impulsiona a artista dentro desse meio é “A possibilidade de projetar narrativas nativas fora de uma perspectiva caricata. Gosto bastante também da estrutura documental e da ficção, da fantasia, como por exemplo Guilhermo Del Toro retrata”.

O mês da visibilidade

Para Isiz, o Mês da Visibilidade Indígena chama a atenção dos canais e meios de comunicação para a importância da luta e do movimento. “Mas essa atenção precisa ser dada sempre. Todos os dias tem território sendo invadido, direitos sendo negados, parentes sofrendo com o preconceito e querendo ser escutados. A América (Abya Yala) é território indígena, é preciso ter consciência do solo que se está pisando”, afirma.

A luta da causa indígena é sempre coletiva, segundo a artista Isiz Aguiar. Ela conta: “Se a causa necessita da minha presença eu faço de tudo para estar”, disse. 

Ela ressalta a importância de se organizar coletivamente, porém, cada movimentação tem sua necessidade e demanda específica. A atuação de Isiz é uma oportunidade de estar demarcando a presença de corpas indígenas, pois o acesso a muitos espaços ainda é negado.

“Mas eu continuo ocupando as telas, os eventos, a mídia e trazendo quem posso comigo porque precisamos ser vistos e queremos ser escutados (na moda, no audiovisual, na música, na dança ou em qualquer outra forma de expressão)”, disse.

Relação com a moda

A moda é uma forma de se expressar. Pode ser uma conscientização pessoal, coletiva e um olhar para o mundo. A relação de Isiz com a moda veio primeiramente de casa. Sua mãe é artesã e estilista. Ela trabalha com uma moda de customização reciclável e produção slow fashion de tricô e crochê.

Ter essa referência dentro de casa me faz consumir de forma mais consciente. Sempre fui muito da cultura dos brechós e costumo usar marcas de produtores independentes como como suí BR, kantupac, ajuliacostashop (AJC) entre outras”, disse.

Impacto do atual governo

Os efeitos deixados pelas autoridades se deram a partir de decisões tomadas de forma violenta. “O atual governo gerou um impacto imensurável na vida dos povos indígenas”, afirma Isiz. 

Desde 1500, a lógica colonial de exploração assola os povos brasileiros. “É um retrocesso lastimável dentro de um cenário republicano que já tinha tantos problemas”. 

Quando questionada sobre os seus planos pro futuro, Isiz afirma que busca ter motivação pra contribuir com as mudanças que nossa sociedade atual exige.

“Meu plano pro futuro é conseguir me manter viva, me sustentando com meu trabalho, podendo ter dignidade e acessos que deveriam ser o básico mas que andam em falta. Projeto e chamo saúde e prosperidade pra mim e pros meus”, finaliza.

Souto MC, referência no RAP

A MC tem 27 anos, é cantora e compositora, da zona norte de SP. Ela é uma artista que referencia vivências e a ancestralidade indígena.

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Souto MC – Reprodução.

Sua história na música começa em Itaquaquecetuba que foi onde cresceu e teve seu primeiro contato com RAP. Depois, veio para a capital de São Paulo e passou a se envolver mais no movimento HIP HOP. 

As letras de Souto sempre tiveram cunho político e pessoal. Então, todos os processos pelos quais ela passa ou já passou, são colocados nas suas músicas.

Uma mina produzindo RAP

O cenário musical do rap para mulheres ainda é muito difícil. Para Souto “Não só pra mim como MC mas também pra outras mulheres que estão nos outros campos da arte”, disse. 

Mesmo com todas as barreiras, Souto conta que se sente feliz e orgulhosa de conseguir fazer todo o seu trabalho. “Porque é isso que eu amo, mas é necessário parar de romantizar essa “dificuldade” que nós mulheres encontramos. As “guerreiras” tem uma hora que cansa e ter apoio nesses momentos (e não só neles) é fundamental”, afirma.

A importância do Mês da Visibilidade Indígena durante o ano todo

A luta indígena não tem descanso. Souto conta que tinha que ter visibilidade o ano todo, pois os povos indígenas são atacados e lutam sem direitos básicos sem descanso. “É de extrema necessidade que esse debate seja feito e seja ouvido não só agora. A luta continua o ano todo”, disse.

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Souto MC // Reprodução.

O que esperar de Souto MC nos próximos meses

A cantora está em estúdio com algumas faixas gravadas. Ela promete lançamentos e bastantes novidades. “E pro futuro é Fora Bolsonaro também”, conclui.

Juyè, jovem e cheia de conquistas

Uma outra artista que entrou ainda jovem na música mas já tem muitas conquistas no cenário é a Juyè, 26. Ela é cantora e produtora de cerveja, do estado do Pará.

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Juyè // Reprodução.

Juyè começou muito cedo na música. Após mudança para o Rio de Janeiro, ela frequentou um conservatório e se envolveu com rodas de samba aos 11-12 anos. No entanto, foi no Rap que ela se encontrou.

A cantora fez algumas músicas com o grupo 1Kilo. Em 2016, eles lançaram “Cypher “Poucos Vão Entender”, que bateu 1Mi de views após um dia. 

Juyè foi crescendo na cena musical, e após o lançamento de “Poesia Acústica #1”, ela teve um boom na sua carreira. 

Depois disso, a artista foi convidada por BK’, e  juntos lançaram Almas e Antes dos Gigantes. Um tempo depois saiu o feat em “Gigantes”, também com BK’.

Participação em Festivais e parcerias

Durante o processo de lançamentos com o rapper, Juyè se apresentou ao lado dele e cantaram abrindo shows de artistas como Criolo e Mano Brown. Eles participaram também do Festival LollaPalooza, em São Paulo.

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Juyè // Reprodução.

Juyè voltou com tudo na música e entendeu que era onde gostaria de estar. A artista segue de forma independente, sempre fazendo parcerias com velhos e novos amigos da cena. Ela busca entregar um conteúdo que mostre sua identidade, portanto, promete muitos lançamentos e parcerias.

Sua última parceria foi com Nill e Ashira, que lançaram a música “Cartas para o Passado”. O clipe tem um estilo com referências de séries europeias dos anos 2000.

Os espaços que foram conquistados por Juyè têm influência com sua origem indígena.

“A minha vivência e os espaços que eu consegui conquistar e sigo conquistando, por si só, são atos políticos”, disse a cantora.

Os desafios no cenário do R&B e no Rap

Para Juyè, existem muitas dificuldades e desafios de inserção de mulheres no cenário do R&B e do Rap. Ela conta: 

É desafiador, bem frustrante às vezes, para ser sincera. A entrada na cena para as mulheres ainda encontram muitas dificuldades”.

Mas vemos cada vez mais mulheres se destacando e começando a competir com homens em lines de festivais e números de streams”, disse a cantora.

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Juyè // Reprodução.

A importância do Mês da Visibilidade Indígena

Durante todo o ano, muitos grupos são representados com meses de visibilidade. O Mês da Visibilidade Indígena é em abril. Para Juyè, “O momento é importante para desmistificar e trazer a luz da verdade para fake news propagadas sobre as centenas de comunidades indígenas existentes”, disse.

A vivência da cantora é de luta diária, Juyè ocupa espaços pela causa indígena. A sobrevivência frente às violências causadas contra a comunidade indígena mostram a importância de resistir.

Acho que conseguir ser além da dor e viver, buscar ser feliz, ir na contracorrente do sofrimento que nos é imposto, é sobre isso que é minha luta”, conta.

Estilo e identidade

O estilo de Juyè é bem livre, ela gosta de experimentar! E não tem medo de cortar, pintar e inovar com o seu cabelo. 

Sobre suas roupas, a artista curte um “Estilo Street Wear misturado com algumas peças clássicas, como um blazer, por exemplo”, disse.

Sempre em busca de mostrar sua representatividade, Juyè gosta de experimentar estilos. Além disso, ela recebe e escuta o feedback de seu público, levando sempre lançamentos feitos com carinho.

Aguardem os próximos lançamentos, estou produzindo tudo com muito carinho para vocês! E quem sabe ano que vem chega outro álbum?!”, disse a cantora.

Planos para o Futuro

Tudo tem o seu processo, é preciso plantar e cultivar para, assim, poder colher. Para Juyè, alguns pontos são muito importantes, como estar sempre atente aos rumos da sociedade:

É importante estarmos atentos sobre os rumos que estamos tomando. Então jovens, tirem o título! Sejam conscientes com o voto de vocês”, completa a artista.

Owerá, diretamente da Zona Sul de São Paulo

Diretamente da Aldeia Krukutu, na Zona Sul de São Paulo, o cantor Owerá, indígena do povo Guarani Mbyá, de 21 anos, conta sobre a sua ligação com a arte musical.

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Owerá // Reprodução.

Os povos indígenas têm uma forte ligação com a música. Owerá é do povo Guarani, e na aldeia os cânticos tradicionais são cantados em rituais. E todos cantam as músicas, desde as crianças até os mais velhos.

Owerá foi crescendo, e o Rap apareceu na sua vida. Ele curtiu muito o estilo, e quando escutava, nem imaginava que algum dia também estaria na cena musical do rap. 

Nisso, o cantor começou a fazer o “rap nativo”, uma marca do seu trabalho. 

A força e o caminho do som de Owerá

Seus sons seguem o caminho de força e conscientização. Para o cantor, é o que as pessoas precisam. Owerá conta uma história real, do passado até os dias atuais. Nas suas músicas, ele busca sempre levar as informações corretas sobre seu povo e sua cultura.

Hoje, Owerá é um mano que está na luta através da música. Ele espera que os povos tenham mais união e, assim, que se fortaleça todo o movimento de artistas indígenas.

Relação de Owerá com o audiovisual

Ideias não faltam para o cantor do povo Guarani Mbyá. Sua relação com o audiovisual é muito parecida com a forma que ele escreve e produz suas músicas. 

Tenho capacidade de escrever músicas, [da mesma forma] também tenho de fazer um roteiro pra eu mesmo depois interpretar”, afirma.

Owerá interpreta suas próprias músicas nos clipes. Ele se destaca bastante na arte da atuação: “Muitas pessoas me perguntam se sou ator, ou se já fiz curso de teatro”.

Eu falo que não. Na minha visão, já sou ator da minha própria profissão”, disse o cantor.

No momento, o foco de Owerá é fazer produções musicais.

Mês da Visibilidade Indígena – Um dia de lembrar dos povos indígenas

19 de abril é comemorado o Dia do ‘Índio” no Brasil. Para os povos Guarani é um dia normal como tantos outros dias. Confira a visão do cantor sobre a data: “Ficamos felizes por ter pelo menos um dia de lembrar os povos indígenas. Mas a nossa visão é de que todo dia é dia dos indígenas, todo dia é de luta”, disse. 

Em 2014, Owerá fez um protesto durante a abertura da Copa do Mundo. Ele ficou conhecido por abrir uma faixa escrita Demarcação Já. Esse foi um marco na sua luta pelos direitos dos povos indígenas.

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Owerá, Demarcação Já! // Reprodução.

Hoje, Owerá luta através da música.

Estilo de um rapper nativo

Seu estilo é de um rapper nativo. Seu trabalho é voltado para a oralidade e a tradição da cultura. A luta é contra o sistema que dizima diariamente e apaga as lutas dos povos indígenas.

Owerá trabalha com a oralidade e a tradição da cultura. Sua espiritualidade também é uma marca registrada nas canções. 

Em parceria com Criolo, a música “Demarcação Já – Terra Ar Mar” retrata bem sobre sua luta e vivências na aldeia e como indígena. Confira a letra:

“terra ar mar mais

sem armas de fogo pra cantar,  

só palavras de fogo pra rimar.

o coração dói,  só quem sabe sente,

na DEMARCAÇÃO das terras a morte de um parente.

Parelheiros zona Sul, né jão, 

guarani da aldeia krukutu

passando uma visão.

Wera, com Criolo vai cantar, 

pra fazer a defesa, eu sei vai cansar, 

mas tenho que lutar. 

Demarcação, Rá, 

para o meu povo se libertar. 

sei que nunca vou desistir.

os moleques da aldeia todos estão aqui, 

precisam se alimentar, brincar, correr, amar, nadar

não foi eu que fiz assim. 

Eu sou feito de amor, 

hoje eu posso sorrir,

meu povo não quer a dor.

árvores lagos, família raiz, antepassados…”

Representatividade indígena na arte e na música

Owerá gosta muito de boné, uma peça característica no Rap. Porém, ele usa mais o cocar, representando sua cultura.

Muitos artistas indígenas de diferentes estilos vem surgindo e mostrando seus trabalhos pelo mundo. Eles cantam sobre seu povo, seus costumes e vivências.

Espero um dia assistir mais indígenas sendo artistas. Mas principalmente espero que cada povo continue em paz em suas aldeias vivendo sua cultura”, afirma o cantor.

Meu futuro é ancestral’, finaliza Owerá.

A visão Futurista de Kaê Guajajara

Kaê Guajajara é arte educadora, engajadora da MPO (Musica Popular Originaria), escritora e nascida no Maranhão. Atualmente, ela vive no Rio de Janeiro, no Complexo da Maré.

Trajetória de Kaê

A trajetória de Kaê Guajajara começou muito cedo. A igreja tentava domar suas motivações de cantar ainda nova. Ela só compôs suas próprias melodias aos 15 anos, contando com o apoio de outros crias que também faziam rap.

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Kaê Guajajara // Reprodução.

E não eram apenas as suas palavras. As letras de Kaê contam várias histórias indígenas que foram apagadas nas favelas e nas cidades.

Em 2019 ela lançou o seu primeiro EP composto pelas músicas que já tinha escrito. A partir disso, Kaê expôs em suas canções anos de vivências indígenas nas favelas e nas cidades. Estas que diariamente são engolidas pelo racismo estrutural.

Apagamento de mulheres indígenas no meio artístico

As mulheres no meio artístico já têm suas histórias e trabalhos apagados. Para as mulheres indígenas não é diferente. 

A artista Kaê Guajajara conta como isso é um reflexo da experiência do apagamento. Ela fala sobre o assunto: 

Porque ainda tem a intersecção, por ser uma indígena, as pessoas já fecham o espaço por ser mulher, imagina sendo indígena que pra eles a gente nem existe”, disse.

Muitos festivais de música e diversidade não chamam artistas indígenas para participarem. Kaê afirma que os convites geralmente são feitos apenas para que os artistas indígenas falem sobre assuntos que seguem um esteriótipo:

Os festivais de rap e todos os outros eventos que falam sobre favela, diversidade, etc. Nunca nos chamam como artistas”, conta.

Somente quando é pra falar sobre a natureza ou quando precisam bater alguma cota, aí tem um ou 2 de nós lá”.

Ainda é raro nossa presença, mas muitos de nós estamos tendo auto estima pra começar a falar sobre como somos engolidos dentro do Brasil e suas violências desde a invasão”.

Sobre saber aproveitar o Mês da Visibilidade Indígena

O mês de abril é dedicado à visibilidade indígena, e a luta desses povos é todo o dia. Porém, o período deve ser exaltado em prol da causa.

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Kaê Guajajara // Reprodução.

Para Kaê Guajajara, o mês deve ser muito bem aproveitado, visto que em todos os outros meses a existência de povos indígenas é apagada.  

Até o Brasil parar de fazer o discurso que só tem preto e branco aqui, vai demorar um tempo, vai precisar existir em todos os meses”, afirma.

Para ela, tem que ser rotina: “Ver nossa cara, e não (ser) raridade. E aí quem sabe a gente pode falar sobre respeito quando a gente começar a existir pro Brasil, de fato”, disse a cantora.

A luta de Kaê é de sobrevivência. Ela nasceu em uma terra não demarcada e se mudou para a favela ainda criança. “Vejo que precisamos ter autonomia, uma vez que não avançamos se dependermos do branco pra demarcar nossas terras que já foram invadidas”, conta.

As leis que deveriam beneficiar a demarcação de terras não são seguidas. A flexibilização atinge, inclusive, quem está com o seu território já demarcado. Diversos povos sofrem ameaças e têm seus direitos tomados por conflitos de interesse. 

Para Kaê Guajajara, é preciso que exista uma autonomia, porque, infelizmente, dependendo das ações do Estado, os conflitos não serão resolvidos.

Autonomia e inclusão da cultura indígena

E essa autonomia, ela inclui levar educação de qualidade pras crianças indígenas e não indígenas”, disse.

Um dos trabalhos de Kaê é voltado para a inclusão da cultura indígena nos espaços de poder. “Tenho um trabalho onde desmitifico toda a história do Brasil nas escolas e empresas. E também forneço consultoria a empresas, ensinando como não reproduzir o racismo estrutural pela via da educação anti racista indígena”, conta.

Ela também inclui a música popular indígena e faz shows por todo o Brasil. Kaê leva a sua existência para diversos contextos, aldeias, favelas e cidades.

Música Popular Originária (MPO), por Kaê Guajajara

Kaê canta a Música Popular Originária (MPO), que é um estilo musical que mistura vários ritmos.

Uma das vertentes do estilo é a mistura de linguagens do hip hop e elementos indígenas ancestrais, como os instrumentos e a língua.

Seu estilo vem para conscientizar o pensamento sobre preconceitos e a invisibilidade que assola os povos originários. Kaê usa a voz para trazer uma reflexão de quem são os verdadeiros donos desta terra.

Ela expõe a realidade através da arte e faz denúncias com a música. Suas melodias trazem sensações que te levam para lugares sensíveis. Parece uma viagem para um outro tempo, para um lugar que está à frente deste que a gente vive. 

E ao mesmo tempo, é uma sensação que remete a um tempo que já foi vivido. Principalmente para nós que temos sangue indígena correndo por nossos corpos, é uma conexão com a ancestralidade, é representatividade.

Cultura Ancestral Indígena

Para os povos indígenas, a nudez é cultural, ancestral e sagrada. Kaê conta que nesta terra onde hoje chamam Brasil, os invasores tornaram a nudez um crime, porque na cultura deles é um pecado. 

Nisso, hiperssexualizam e demonizam os corpos indígenas. “A forma como nos apresentamos ao mundo é política, ela diz muito, e hoje é atravessada por essas leis anti indigenas”, afirma.

Então, temos que nos cobrir de panos. Mas se é assim, que sejam roupas feitas por indígenas que tecem histórias através das mãos”.

E nesse contato com estilistas e maquiadoras indígenas para valorizar nossas características e sabedorias, sem se render a uma imagem embranquecida”, conta Kaê Guajajara.

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Kaê Guajajara // Reprodução.

A cantora preza muito por trabalhos de artistas como Sioduhi. De sua maquiadora Kwarahy e sua stylist Sofia Gama. 

A força do artesanato acompanha Kaê. Ela carrega consigo trabalhos feitos por artesãos e artesãs indígenas. Ela ressalta também os grafismos de proteção e que valorizam a cultura, sempre carregado com orgulho no corpo.

O Etnocídio e o Genocídio marcados pela história

A violência contra povos indígenas mostra como a história se construiu de uma forma brutal e criminosa. Kaê Guajajara coloca seu posicionamento sobre o assunto: 

O Estado e os governos dos invasores instaurados de forma brutal, sanguinária e criminosa em nossas terras indígenas vem gerando um dos maiores genocídios e etnocídios da história da humanidade contra os povos”, afirma.

Impactos na Natureza

Ela conta ainda sobre a forma como tais ações afetam a natureza: “Assim como um dos maiores ecocídios, destruindo as florestas desde 1500, uns mais, outros menos, para produzir o que consideram ser “riquezas””, disse Kaê.

Para Kaê, é preciso agir agora! “Plantar as sementes e assim saberemos o que temos que colher. Justiça, reparação histórica, acesso a terra, a direitos e políticas públicas, educação que gere conscientização e respeito sobre as realidades, histórias, culturas e presença indígena no país”, finaliza a artista.

Katu Mirim, um orgulho para os seus ancestrais

Katu Mirim é rapper, natural de Jundiaí, São Paulo. 

Suas músicas falam de suas vivências como mulher indígena, sapatão, periférica e adotada. Ela voltou para a carreira musical há seis anos, é uma artista que produz com a alma e a partir de suas experiências.

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Katu // Reprodução.

Katu é uma multi artista e está na cena do rap. Suas músicas trazem uma temática futurista e referenciam ancestralidades.

Os marcadores sociais dizem muito sobre a valorização do trabalho de artistas indígenas. Para Katu, o fato ser ser uma mulher indígena, lésbica no rap, assusta as pessoas. A existência destes corpos incomoda aqueles que seguem a ideia de padrão. 

Katu, em uma de suas músicas, fala: “Quem agrada todo mundo vira refém”. A força é maior quando os artistas nativos estão unidos. 

A quebra do silêncio no mês da visibilidade

O Mês da Visibilidade Indígena tem sua importância como forma também de cobrança. A cantora Katu Mirim fala como os povos indígenas não são vistos como pessoas. O mês de abril se tornou um período de trabalho intenso: “Isso já é visto quando temos um mês para trabalhar e falar de nossas vivências. O branco é artista sempre, mas o indígena só é lembrado em Abril (e olhe lá)”, afirma.

“A importância dessa data é pra cobrar quem quer nos silenciar, porque falar, nós falamos todos os meses”.

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Katu // Reprodução.

Honra aos ancestrais – um sonho vivo e realizado

A luta pela existência dos povos indígenas é diária. Katu conta que a luta é pela sua existência e honra aos seus ancestrais. “Sou o sonho vivo e realizado e luto para que ninguém me tire isso”, disse.

Muitas pessoas acreditam que os indígenas são todos iguais, que não têm acesso à outras diversidades culturais e sociais. A cantora Katu Mirim, por exemplo, usa seu corpo como forma de expressar sua arte. Ela se manifesta através da Body Art desde os 16 anos.

Body Art e musicalidade

A Body Art é uma expressão artística feita através do corpo. É utilizar o corpo como arte. “Amo tatuagens e modificações corporais e isso já está em mim. Meu estilo acaba assustando a galera que pensa que mulher indígena é tudo igual. Eu amo tatuagem, moda e amo quem sou”, afirma Katu.

Katu Mirim vive de música e criação de conteúdo. Ela perdeu a irmã na pandemia, perdeu trabalhos e teve que se reinventar nesse processo.

Mesmo com muitas dificuldades que assolam a sociedade, os artistas resistem e buscam levar seus trabalhos para frente.

Katu lançou recentemente seu primeiro disco, “Revolta” (falar sobre o disco)

Ela está com um projeto de EP e tem muitas novidades que farão jovens indígenas serem cada vez mais unidos.

Brô MCs: Conheça o grupo de rap indígena

O Brô MCs é um grupo de rap formado por jovens indígenas das aldeias Bororó e Jaguapiru, localizada no Mato Grosso do Sul, mais especificamente no município de Dourados.

O grupo foi criado em 2009 e é formado por Clemerson Batista, Kelvin Peixoto, Charlis Peixoto e Bruno Veron. Além de utilizar o português em suas rimas, o grupo também canta no idioma nativo, o Guarani-Kaiowá, e tem como objetivo valorizar a cultura nativa.

Brô MCs // Reprodução.

Bruno, um dos integrantes do grupo, comentou que começou a compor ainda na infância e que seu objetivo era retratar a realidade do Povo Guarani.

Por volta dos 7-8 anos eu comecei a compor minhas letras e com o passar do tempo o diretor da escola me chamou para fazer apresentações“.

Clemerson, irmão de Bruno, também começou a se interessar por música e quis se aproximar do irmão. Bruno falou: “Vamos fazer, ué! Só não tem dinheiro”.

Com o tempo, Charlie também se juntou ao grupo e assim os três começaram a cantar Rap nas escolas.

Pouco tempo depois, Kelvin, irmão de Charlie, também quis participar e assim o quarteto se formou.

Brô MCs // Reprodução.

O começo dos trabalhos

No começo, eles cantavam sem instrumental. Em um certo momento, o marido de uma das professoras da escola que trabalhava na rádio, viu que eles estavam cantando sem instrumental e baixou uma batida. 

A partir disso, suas apresentações começaram a ter batidas, e eles seguiram tocando nas escolas. Eles então participaram de uma oficina que ocorreu em um dos pólos culturais de Dourados, e aprenderam um pouco mais sobre o movimento hip hop nesse evento.

Então lá a gente se aprimorou mais para a gente poder saber que era movimento hip hop, então isso foi no começo de 2009”, conta Bruno.

Brô MC’s // Reprodução.

Conversamos também com outro integrante, Kelvin, 32, MC, Dourados, MS, da aldeia Francisco Horta, o Barbosa da região, o Bororó.

Sobre as vestimentas

Na visão de Kelvin, o Brô MC’s misturam o moderno com a cultura indígena. Eles sempre usam adereços indígenas, principalmente colares, cocares e a pintura. “Isso a gente sempre traz no nosso estilo e a gente utiliza de acordo com a nossa etnia, da nossa, do nosso povo. Eu sou kaiowá. Eu sempre utilizo adereços kaiowá, como por exemplo o cocar, que é totalmente diferente, né?”, afirma.

É isso que eles querem mostrar para o público. Mostar que por serem indígenas, eles não podem deixar de lado a sua cultura, é o bem mais importante e precioso que existe. Além disso, a língua é a coisa mais importante, a fala, o canto nas línguas tradicionais.

Brô MC’s // Reprodução.

Essa é uma diferenciação que eles sempre mostram. “Essa é a nossa vestimenta, a mistura do moderno com essas roupas normais, que são de lojas, que são de marcas, né? “, disse.

Convite para tocar no Rock In Rio

Em 2022,os Brô MC’s vão dividir palco com o cantor e artista Xamã. O convite aconteceu nos bastidores, antes mesmo do Rock in Rio acontecer. “E isso fluiu com muito diálogo com a nossa produtora. Então, a gente estava participando do programa do “Prêmio Igualdade Racial”, que a gente estava fazendo, a apresentação das nossas músicas. E um dos apresentadores era o Xamã”, conta Kelvin.

Eles tem um grupo de WhatsApp com o Xamã. O cantor disse que se ele fosse subir no palco, ia chamar o quarteto para tocar no evento. Falou assim: “Se eu subir no palco, você sobe comigo também. Beleza, né? E o tempo foi passando até que um dia se concretizou isso“, conta Kelvin.

Repercussão

A repercussão foi tanta que as pessoas ficaram sabendo da notícia quando passou no Jornal Nacional, da Rede Globo. “Antes disso a gente estava com essa notícia maravilhosa que tinha se concretizado, que a gente poderia, poderia não, né? A gente já estava incluído nesses espetáculos do Rock in Rio que a gente ia tocar com o Xamã cara“, afirma o cantor do Brô MC’s.

O grupo não sabia da dimensão do acontecimento, e para eles, foi muito espetacular porque nem imaginavam onde iam chegar. Kelvin ficou desacreditado: “Há possibilidade, sim, mas nunca pensei que a gente ia conseguir chegar até o Rock in Rio, né? Então, isso aconteceu“, disse.

Quais mensagens querem passar durante o show

O objetivo dos meninos do Brô MC’s é levar a mensagem do povo Guarani-Kaiowá, lá em cima do palco. E essa expectativa é muito grande. Muitas situações aconteceram com os povos, principalmente aos Guarani-Kaiowá. “E nas retomadas são a volta dos nossos anciões com o povo Guarani-Kaiowá para a gente. Para a gente retomar a nossa aldeia de origem, e então isso se chama retomada. Então muita coisa acontece nesses lugares“.

O Rock In Rio é um evento internacional, e conta com a presença de diversos públicos do mundo inteiro. Para Kelvin, as pessoas vão acabar ouvindo o relato dos próprios indígenas Guaranis-Kaiowás.

Impacto do Rock In Rio no mundo

Com a mensagem dita lá em cima do palco, o grupo acredita que muitas situações vão acabar se ligando, como por exemplo, a questão das demarcações de terras indígenas.

O Rock In Rio é um evento que pode mostrar para o mundo que existem também artistas indígenas brasileiros. “Independente de qual povo que esse indígena é, não pode estar em cima de um grande palco. Pode estar em qualquer em qualquer meio artístico, seja na música, seja na pintura, no desenho, seja ele no teatro, seja ele nos comerciais, seja em qualquer lugar“.

Ele pode estar, entendeu? Então, isso é uma conquista para o nosso povo Guarani-Kaiowá e aos Serenos, e também ao povo em geral, que é o povo indígena“.

Conheça o trabalho de artistas indígenas!

A luta é pela demarcação de terra, pela visibilidade contínua de artistas indígenas. É pela vida, pela terra, pela conquista de direitos decorrente da luta incansável deste povo.

Acompanhe, compartilhe e valorize o trabalho de artistas indígenas durante o ano inteiro!

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