Funk Consciente

Jovem de 19 anos faz interpretação de libras chave do funk-trap “Homenagem aos Relíquias”, do DJ Matt-D

10.11.2020 | Por: Fernanda Souza

Já imaginou ver alguém interpretando em libras um hit de funk, ajudando a passar a visão das letras para quem é deficiente auditivo e não tem ideia do que é o movimento ou do que a música está falando? Se liga que é real e é possível! Quem está fazendo isso é Nzambi Brito. Lá do extremos da zona sul de São Paulo, o bairro de Parelheiros, a intérprete de libras bombou na última semana ao fazer uma tradução chave de “Homenagem aos Relíquias’’, hit bombado produzido pelo DJ Matt-D. Então, encosta no Portal KondZilla que vale a pena ver o trabalho dessa mina.

Primeiramente, é importante entender que libras é uma língua de modalidade gestual-visual; é tipo um vocabulário desenrolado  por meio  de expressões faciais e corporais, muito utilizado na comunicação com pessoas surdas.

É uma forma de inclusão que Nzambi faz ao interpretar sons que barulham as quebradas. A versão dela de ‘’Homenagem dos Relíquias’’ foi um sucesso! Muita gente compartilhou. A música do DJ Matt-D estourou na quarentena ao unir um time pesado de MC`s:  MC Lemos, Menor MC, Lipi, Vinny, Júlio D.E.R e Leozinho ZS, que cantam cheios de referências aos hits das antigas num beat pesado de trap-funk. Antes disso, Nzambi já tinha feito o mesmo corre com a música‘’Só gratidão’’,  do MC Lipi, e outras versões.

Como começou o corre na libras?

A relação de Nzambi, de apenas 19 anos, com a libras começou de uma forma natural, já que tanto seu pai quanto sua mãe são surdos e mudos. A linguagem visual foi o modo pelo qual ela se expressou por muito tempo, levando algumas pessoas a acreditarem que ela não tinha voz, ou que não aprenderia a falar. ‘’Cresci com isso, por um tempo minha família achou que eu não ia falar. Aliás, eu tinha vergonha dos meus pais, porque eu via que as pessoas tinham pais que falavam, eu não. Quando pequena, não conseguia ver isso de uma forma boa’’, conta. 

Nzambi Brito com a mãe

Mas não foi só o sentimento de rejeição que Nzambi precisou amadurecer, ela  também teve de adquirir uma certa responsabilidade, muito jovem, sendo a facilitadora da comunicação e de resolução de problemas da casa, da irmã mais nova e de si.  

Mais tarde, a língua de sinais que utilizava com os pais deu repertório pra ela exercer uma profissão, como tradutora de libras. Hoje, ela atua em casas de cultura, em eventos culturais e dando aulas particulares.

Nzambi com o pai

Como o funk entrou nessa história?

‘’Eu não gostava de funk porque não compreendia e minha mãe falava que era feio. Mas, hoje em dia, minha relação com o funk é muito boa, pois eu aceito, assumo e mostro para as pessoas que gosto’’, relata Nzambi. 

Essas ideias de não curtir funk eram um reflexo da forma estereotipada como a sociedade vê o gênero musical de favela, e, como ela recebia informações de sua mãe, que tinha um contato com a cultura por meio do senso comum. Foi inevitável essa negação durante sua infância e pré-adolescência. 

Aos poucos, Nzambi foi pegando a visão e assimilando o ritmo em seu gosto musical, sobretudo o funk consciente: ‘’As libras passam a emoção, é uma performance. Gosto de mostrar para meus pais o que eu gosto e qual visão é do funk consciente. Faço o que eu posso, por mais que eles não escutem, assim conseguem sentir, sacar as palavras e entender o que a galera da quebrada tem feito pelo mundo’’.  

Depois do sucesso com  a postagem de “Homenagem aos Relíquias”, as pessoas ficam pedindo para Nzambi postar mais vídeos com interpretações, o que facilita a construção de uma imagem positiva pro funk, bem como possibilita que pessoas com deficiência auditiva  tenham o direito de ter acesso à informação. Então, segue o perfil dessa mana que logo vem novidade por aí!


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