Guerra no Irã e bloqueio do Estreito de Ormuz paralisam exportações e afetam gravemente a economia do Catar
DOHA — O bloqueio do Estreito de Ormuz e ataques relacionados ao conflito entre o Irã e aliados cortaram quase totalmente as exportações de gás do Catar e colocaram a riqueza do país em risco. A paralisação das rotas marítimas e danos a instalações-chave interromperam o envio de gás natural liquefeito (GNL) que sustenta a maior parte da economia catarense.
O Catar, que transformou-se nas últimas décadas de um território dedicado à pesca de pérolas em uma das nações com maior renda per capita do mundo graças ao gás natural, depende de exportações de GNL para mais de 60% de suas receitas. Desde a década de 1990, o país investiu em liquefação do gás do Campo Norte e em infraestrutura para enviar combustível à Ásia e à Europa. O primeiro carregamento significativo de 60.000 toneladas foi enviado ao Japão em 1996 e a capacidade de produção saltou para 77 milhões de toneladas em 2010.
Em fevereiro, o tráfego pelo Estreito de Ormuz foi interrompido, e por mais de dois meses praticamente nenhum gás deixou a costa catarense. Ras Laffan, principal polo industrial de processamento e liquefação do país, foi fechado, estradas foram bloqueadas e guindastes portuários ficaram inoperantes. Hoteis e lojas em Doha registraram queda acentuada de movimento.
A QatarEnergy, a estatal de energia, declarou logo após o bloqueio que não conseguiria honrar contratos. Duas semanas depois do início do impasse, mísseis e drones iranianos atingiram instalações em Ras Laffan, danificando equipamentos essenciais e reduzindo a capacidade produtiva do país em 17%. Analistas estimam perdas de bilhões de dólares desde o começo do conflito e avaliam que, enquanto o estreito permanecer fechado, o país perde centenas de milhões de dólares por dia em vendas e taxas de afretamento.
O Fundo Monetário Internacional projeta que a economia do Catar encolherá 8,6% este ano, com recuperação prevista apenas em 2027, segundo o economista-chefe do FMI, Pierre-Olivier Gourinchas. Autoridades e especialistas apontam que, mesmo com a eventual reabertura do estreito, levará anos para que a produção volte aos níveis anteriores aos ataques.
Além do impacto direto no setor de hidrocarbonetos, a crise expôs vulnerabilidades da agenda de diversificação econômica do Catar. O país vinha promovendo turismo e serviços financeiros, removendo em 2019 a exigência de sócios locais para empresas estrangeiras e incentivando estadias em hotéis de luxo para viajantes em trânsito. Eventos como Fórmula 1 e competições esportivas faziam parte da estratégia de atração de visitantes.
Desde o início da guerra, o fluxo de turistas internacionais caiu, governos emitiram alertas de viagem e empresas transferiram funcionários para fora do país. O Conselho Mundial de Viagens e Turismo estimou em março que a região perde cerca de US$ 600 milhões por dia em receitas turísticas. No Catar, vendedores do mercado Souq Waqif e atrações como o shopping Place Vendôme em Lusail relataram movimento muito abaixo do esperado.
O bloqueio também obrigou a reformular cadeias de abastecimento: cerca de 90% dos alimentos do Catar importados agora chegam por via aérea ou por transporte terrestre via Arábia Saudita, em substituição às rotas marítimas. Apesar do risco de inflação, subsídios governamentais moderaram altas, com alguns produtos importados registrando aumentos de 5% a 10%, segundo funcionários de supermercados.
Imagem: Ap
Demograficamente, o Catar tem cerca de 3,2 milhões de habitantes, dos quais aproximadamente 90% são estrangeiros — um fator que aumenta a preocupação com êxodos de mão de obra caso empresas fechem ou se retirem. O governo tenta transmitir estabilidade e proteger a população, utilizando recursos do vasto fundo soberano de US$ 600 bilhões e ativos fiscais e externos acumulados, apontados como pontos de suporte por agências como a S&P Global Ratings, que manteve a avaliação soberana do país neste mês.
Especialistas alertam, porém, que a duração do impasse no Estreito de Ormuz é determinante para a dimensão do rombo fiscal e para a capacidade do Catar de manter trabalhadores estrangeiros, atrair investimento e concluir a ambiciosa expansão do GNL anunciada em 2019 — que prevê elevar a capacidade do Campo Norte de cerca de 77 milhões de toneladas para 126 milhões de toneladas por ano até 2027.
Imagens de ataques a instalações energéticas e do aeroporto sob alertas de ataque aéreo afetaram a percepção de estabilidade, um ativo essencial para a estratégia de pós-hidrocarbonetos do país, segundo análises recentes. Enquanto isso, residentes relatam ansiedade com eventos como a grande coluna de fogo visível em Doha na noite do ataque a Ras Laffan.
As autoridades seguem administrando subsídios e buscando dissuadir uma saída em massa de empresas e trabalhadores, cientes de que o impacto econômico dependerá diretamente da duração do bloqueio e da rapidez na recuperação das instalações danificadas.
Com informações de Infomoney