Ex-chefe de gabinete de Zelensky é preso sob acusação de desvio e lavagem de dinheiro envolvendo imóvel de luxo; vidente citada em investigação
KIEV — Andriy Yermak, que até o fim do ano passado ocupou o posto de chefe de gabinete do presidente Volodymyr Zelensky e era considerado o segundo homem mais poderoso da Ucrânia, foi preso no mês passado sob acusações de lavagem de milhões de dólares por meio de um empreendimento imobiliário de alto padrão nos arredores de Kiev.
Yermak, de 54 anos e amigo de longa data de Zelensky, renunciou em novembro após buscas em sua residência e em seu escritório no âmbito de uma investigação anticorrupção que envolve pessoas próximas ao presidente. Desde então, o ex-assessor público afirmou inocência e ficou afastado da vida pública até ser detido.
Segundo promotores, além das acusações de desvio e lavagem de recursos, havia nos autos a afirmação de que Yermak consultava regularmente uma astróloga para decisões políticas, inclusive para indicações de cargos. No telefone do ex-chefe de gabinete, o contato da mulher apareceria registrado como “Veronika Feng Shui Office”, de acordo com os procuradores.
Parlamentares reagiram propondo um projeto de lei para proibir serviços ocultistas e chegaram a convocar a vidente Veronika Anikievych — também conhecida como Veronika Danylenko — para depor em comissão, embora ela ainda não tenha comparecido. Em postagem no Facebook, Anikievych defendeu Yermak e afirmou que o caso favorece quem quer derrubar Zelensky.
A investigação teve início com alegações de desvios em uma estatal ucraniana do setor nuclear e se ampliou até chegar às operações ligadas ao empreendimento imobiliário. Yermak nega as acusações de corrupção e rejeita as alegações de que recorria a uma vidente.
Após a prisão, o ex-chefe de gabinete passou a usar tornozeleira eletrônica e foi impedido de deixar Kiev sem autorização dos investigadores. Para pagar a fiança, Yermak recorreu a uma campanha de arrecadação e, segundo a imprensa ucraniana, levou vários dias para reunir US$ 3,5 milhões com cerca de 300 pessoas e entidades.
Em contato por telefone com o The New York Times, Yermak afirmou estar a caminho da linha de frente para apoiar tropas ucranianas, mas declarou não poder responder a outras perguntas por problemas de conexão. Seu advogado, Ihor Fomin, enviou resposta por escrito afirmando que o cliente cumpre as condições prévias ao julgamento e continua a prestar assistência jurídica a vítimas da guerra.
Imagem: Imagem Divulgação
O caso reacendeu debates sobre a dimensão das investigações anticorrupção na Ucrânia e sobre o possível impacto político para Zelensky. Embora as agências anticorrupção não tenham implicado diretamente o presidente, documentos vazados relacionados ao empreendimento indicavam que uma das mansões estava reservada para “Vova”, apelido de Volodymyr, sem que esteja claro a quem o termo se refere.
Analistas e políticos ouvidos no país apontaram que as investigações podem fortalecer a credibilidade das instituições anticorrupção, mas também constituem uma ameaça política latente. O analista Volodymyr Fesenko descreveu o caso como “uma bomba-relógio”, enquanto o parlamentar Oleksandr Merezhko afirmou que a investigação demonstra que o organismo da sociedade está vivo e destacou que processos assim seriam impensáveis em regimes autoritários.
Entre os elementos do processo estão a proibição de Yermak de sair de Kiev, o uso de tornozeleira eletrônica, o levantamento da fiança e as menções à vidente; novos atos processuais e audiências judiciais estão agendados, e a convocação da vidente ao parlamento permanece em aberto. Perguntas sobre eventual contato contínuo entre Yermak e Zelensky seguem sem resposta pública.
Com informações de Infomoney