Copa do Mundo de 2026 deve gerar recorde de apostas, mas setor enfrenta sinais de fragilidade
A Copa do Mundo de 2026 tem potencial para se tornar o maior evento de apostas esportivas da história, com estimativa de cerca de US$ 50 bilhões apostados globalmente durante o torneio que reunirá 48 seleções, 104 partidas em 39 dias. A transmissão do evento será feita pela Record.
Nos Estados Unidos, a combinação de fusos horários deverá favorecer apostas ao vivo em praticamente todos os jogos. Dados da Sportradar indicam que aproximadamente 90% dos americanos que planejam apostar no torneio devem fazê-lo pela primeira vez em uma Copa do Mundo.
O calendário esportivo do mês, que inclui as finais da NBA, a Stanley Cup e o U.S. Open de golfe, deve ampliar o fluxo de apostas e representar alívio temporário para as casas, em especial para o duopólio formado por FanDuel e DraftKings.
Desaceleração e pressões
Apesar das perspectivas para o evento, o setor enfrenta incertezas. Após um ciclo de legalizações estaduais que perdeu força, o crescimento fácil já parece ter passado. Excluindo o novo mercado do Missouri, o volume total de apostas esportivas — o chamado handle — caiu 3,1% no primeiro trimestre ante o mesmo período do ano anterior, segundo a American Gaming Association. Março registrou a queda mais acentuada desde junho de 2020.
A Flutter Entertainment reduziu a projeção de receita anual ao divulgar resultados do primeiro trimestre em maio. A DraftKings teve crescimento modesto de 1,5% no handle no período. As ações refletem a desaceleração: DraftKings registra queda de 27% no ano, Flutter, 53%. O ETF Roundhill Sports Betting & iGaming acumula recuo de 25% em relação à máxima dos últimos 12 meses.
O setor também enfrenta competição dos mercados de previsão, que operam em escala nacional, além de pressões sobre o poder de compra dos apostadores provocadas por inflação e impostos federais mais altos sobre ganhos. Casas tradicionais gastam quase US$ 700 milhões por ano em publicidade na TV, segundo dados da Nielsen encomendados pela AGA.
Ressaca regulatória
O clima regulatório mudou e legisladores têm demonstrado ceticismo. Em março, tentativa de legalizar apostas esportivas na Geórgia fracassou. No Colorado, o Senado aprovou projeto que proíbe depósitos em casas de aposta com cartão de crédito e aumenta restrições à publicidade. Desde 2023, oito estados elevaram impostos sobre apostas e cinco passaram a limitar a dedução fiscal de gastos com promoções.
Em Illinois, nova alíquota pode chegar a 40% da receita das casas de aposta, além do imposto municipal de Chicago de 10,25%. Como reflexo nas operações, a DraftKings fechou a casa física que mantinha no Wrigley Field.
Preocupações com integridade
Questões de integridade esportiva ganham destaque como potencial gatilho regulatório. Pesquisa da Morning Consult mostra que 50% dos americanos acreditam que atletas profissionais às vezes ou frequentemente alteram o desempenho para favorecer apostadores. Casos recentes, como o indiciamento de dois arremessadores do Cleveland Guardians por suposto recebimento de subornos, intensificaram o debate. O governador de Ohio, Mike DeWine, chamou a legalização das apostas esportivas de um arrependimento e se manifestou contra as chamadas prop bets, apostas vinculadas ao desempenho individual de jogadores.
Imagem: Imagem Divulgação
Denúncias de manipulação em basquete profissional e universitário também foram mencionadas por autoridades, que apontam a rápida expansão das apostas como fator agravante.
Mercados de previsão em ascensão
Plataformas como Kalshi e Polymarket vêm registrando crescimento acelerado. A Kalshi alcançou volume recorde de US$ 14,8 bilhões em contratos negociados em abril, alta de cerca de 3.100% em um ano. Esses mercados, que oferecem contratos regulados federalmente e estão isentos de impostos estaduais, atraem usuários em estados onde apostas esportivas tradicionais permanecem proibidas, como Texas e Califórnia.
Kalshi afirma ter 326 mercados relacionados à Copa do Mundo, e registrou aumento de atividade ligada ao futebol de 208 vezes no último ano. A Polymarket firmou parcerias com a MLS, a La Liga e a Serie A. Em estados com mercado de apostas esportivas online desenvolvido, entretanto, a Kalshi respondeu por 2% do handle no primeiro trimestre.
Para se manter competitivas, DraftKings e FanDuel lançaram suas próprias ofertas de mercados de previsão, movimento que encarece resultados. Pesquisa encomendada pela AGA indica que 81% dos executivos do setor consideram os mercados de previsão uma ameaça significativa ao mercado regulado. Ainda assim, analistas de Wall Street em sua maioria mantêm recomendações de compra para Flutter e DraftKings, com preços-alvo médios 53% e 35% acima dos valores atuais, respectivamente. O analista Charlie Muir-Sands, do BNP Paribas, é exceção e recomenda venda para DraftKings, citando risco político e fiscal e ressaltando a queda de 65% das ações desde o pico histórico.
O torneio de 2026 promete volume recorde de apostas, mas o setor chega ao evento pressionado por mudanças regulatórias, preocupações sobre integridade e nova concorrência dos mercados de previsão.
Com informações de Investnews