Boom de data centers impulsiona ações de veteranas da tecnologia
O intenso investimento em infraestrutura para inteligência artificial reacendeu a demanda por servidores, memória, equipamentos de rede e chips mais antigos, provocando valorização expressiva nas ações de empresas veteranas da tecnologia. Dell, Nokia, Lenovo, Micron, Intel, Texas Instruments e Cisco registram ganhos relevantes em 2026, com alta média de 158% e valorização conjunta de US$ 1,7 trilhão em valor de mercado.
Gestores e analistas atribuem o movimento à corrida para ampliar capacidade de processamento nos data centers. “Há uns seis meses começamos a perceber que a construção da infraestrutura de IA está realmente se espalhando, e há uma escassez enorme, principalmente no segmento mais ‘sem graça’ de hardware, em que a expansão de capacidade foi muito limitada nos últimos anos”, afirmou Yan Taw Boon, gestor de portfólio na Neuberger Berman. “Mas a demanda está explodindo — de CPUs comuns a equipamentos de rede, componentes passivos, armazenamento e memória.”
Dell
As ações da Dell subiram 33% em uma sexta-feira — a maior alta diária da história da empresa — após divulgar resultados que apontaram forte procura por seus servidores de IA. A empresa, conhecida historicamente por computadores pessoais, viveu alta superior a 200% no fim dos anos 1990, perdeu mais de 80% do valor com o estouro da bolha pontocom e foi fechada em 2013, retornando à bolsa no fim de 2018. Hoje, a Dell vale US$ 125 bilhões a mais do que o pico de US$ 148 bilhões registrado em março de 2000. Emmanuel Valavanis, da Forte Securities, classificou a Dell como “o mais recente ‘dinossauro’ da tecnologia a ganhar uma nova vida como potência da IA”.
Lenovo
A Lenovo, que adquiriu em 2005 a divisão de PCs da IBM e os direitos sobre a linha ThinkPad, registrou crescimento de receita de 20% no último ano, impulsionado pela aposta em produtos e serviços de IA, que hoje respondem por quase 40% das vendas. As ações subiram 105% em maio, alcançando recorde histórico e marcando o melhor mês em mais de 25 anos. No ano, os papéis avançam 159% e são o ativo de melhor desempenho do índice Hang Seng.
Nokia
A Nokia, que sofreu forte queda após os choques do mercado de telecom e o declínio de sua divisão de celulares, reinventou-se como fornecedora de equipamentos de rede. Após vender sua unidade de telefones à Microsoft em 2014, a empresa reforçou sua posição com a aquisição da americana Infinera em 2025, em um momento de maior demanda por conexões ópticas entre clusters de processamento de IA. As ações da finlandesa sobem mais de 124% em 2026 e figuram entre as melhores do Stoxx Europe 600, embora ainda estejam cerca de 80% abaixo dos recordes da era pontocom.
Cisco Systems
A Cisco, símbolo da bolha pontocom, migrou do foco em redes tradicionais para infraestrutura voltada a IA. Resultados divulgados no início do mês mostraram projeção robusta de receita para o quarto trimestre fiscal e planos de corte de vagas com foco em IA. Esses sinais contribuíram para que as ações voltassem a níveis recordes, superando o pico de março de 2000. Em 2026, os papéis avançam 56%, na rota de superar o desempenho do índice Nasdaq 100 pela maior margem anual desde 2006.
Intel
A Intel, dada como praticamente derrotada por investidores há menos de dois anos em razão de problemas de fabricação, vive uma retomada marcada por mudanças na liderança — foram quatro CEOs na última década. O atual, Lip-Bu Tan, foi recebido positivamente ao ser nomeado no ano passado, mas teve a demissão pedida pelo presidente Trump meses depois; Trump rapidamente voltou atrás e passou a articular uma participação do governo americano na companhia. A reviravolta também contou com investimento de US$ 5 bilhões da Nvidia e com a notícia de que os novos chips Xeon da Intel são usados em alguns sistemas da Nvidia. O Wall Street Journal informou ainda um acordo preliminar com a Apple para fabricar alguns chips, visto como sinal positivo para a estratégia de foundry. As ações da Intel sobem 211% no ano.
Imagem: Getty
Texas Instruments
A Texas Instruments, que liderou o fornecimento de conversores analógico-digital nos anos 1990 e viu sua ação cair mais de 85% entre 2000 e 2002, registrou recuperação com a demanda por chips que sustentam servidores de IA, que exigem maior densidade de potência. A divisão de data center gera hoje mais de US$ 1 bilhão em vendas anuais e cresceu mais de 60% em 2025. Em 2026, as ações avançam 76%, rumo ao melhor desempenho anual desde 2003.
Micron
A Micron entrou, neste mês, para o grupo de empresas com valor de mercado de US$ 1 trilhão. Fundada quase 50 anos antes em um porão de consultório odontológico em Boise, Idaho, a fabricante de memória viveu grande alta nos anos 1990 e enfrentou queda superior a 98% do pico de julho de 2000 até o fundo em novembro de 2008. O papel renovou recorde em 2022 e, no último ano, tornou-se símbolo das empresas que se beneficiam do boom de gastos com IA. Como grande produtora de memória de alta largura de banda (HBM), a Micron enfrentou demanda muito acima da oferta; as ações subiram mais de 903% em 12 meses e bateram o recorde de tempo mais curto para saltar de avaliação de US$ 500 bilhões para US$ 1 trilhão: 48 pregões.
Colaboraram Neil Campling e Ruhell Amin.
Com informações de Investnews