Avatares gerados por IA atuam no debate político e 61% das postagens não indicam origem
Perfis artificiais criados com inteligência artificial têm ocupado espaço nas redes sociais brasileiras para comentar política, e a maior parte desses conteúdos não informa que foi produzida por IA. Um levantamento do Observatório das Eleições, realizado pela Data Privacy Brasil e pelo Aláfia Lab, apontou que 61% das publicações analisadas não traziam indicação de origem artificial.
Quem, o que, quando e onde
A pesquisa avaliou casos identificados entre janeiro de 2025 e abril de 2026 e mapeou avatares que atuam como supostos eleitores, comentaristas, influenciadores e lideranças populares em plataformas como TikTok e Instagram, seguidas pelo YouTube. Houve também ocorrências no X, Kwai e Facebook.
Transparência e sinais de artificialidade
O estudo ressalta que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) exige que materiais criados ou manipulados por IA sejam explicitamente sinalizados, com indicação da tecnologia usada. Contudo, em muitos exemplos a origem artificial só foi detectada por meio de análises técnicas, com identificação de falhas de resolução, proporções atípicas e características robotizadas em imagens e áudios.
Quando havia alguma marcação, ela aparecia de formas distintas: avisos automáticos adicionados pelas plataformas, marcas d’água das ferramentas de geração ou hashtags incluídas nas postagens.
Casos emblemáticos
O relatório cita personagens que ganharam destaque nas redes. Um dos mais conhecidos é a influenciadora “Dona Maria”, criada artificialmente para criticar o governo federal. Segundo o levantamento, o perfil publicou mais de 400 vídeos desde a criação da personagem, retratada como uma senhora negra e idosa que costuma atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e setores da esquerda. O episódio motivou ação apresentada ao TSE por PT, PV e PCdoB, que pedem a suspensão dos perfis vinculados à personagem.
Perfis alinhados ao governo federal também passaram a divulgar versões da “Dona Maria” que mantêm as características físicas da personagem, mas defendem a gestão. Em 23 de abril, páginas como Lula Pela Verdade, Comitê Popular Oficial, Brasil Fora da Caverna, Esquerda Brasil 4.0 e Jovem Esquerda Br publicaram um vídeo em que a personagem critica a escala 6×1 e a família Bolsonaro.
Imagem: Imagem Divulgação
Outro exemplo apontado é o avatar “Seu Zé da Feira”, representado como um homem negro e idoso em uma feira, que publica vídeos em defesa do atual governo e com críticas a políticos de direita. Em uma das publicações, o avatar afirma: “Não vote em políticos da direita e do centrão. PL, PP, Republicanos e União. Não tão nem aí pro povo, são sindicato de patrão”. O estudo registra que vídeos desse perfil traziam a marca d’água da ferramenta de geração de imagens Veo 3 e receberam sinalização das plataformas indicando conteúdo sintético.
Impacto informacional
Os pesquisadores classificam os avatares artificiais como vetores de desinformação política: em 14 dos casos analisados, as publicações continham alegações enganosas sobre políticos ou instituições democráticas. Entre os alvos dessas publicações estão o presidente Lula, o ex-presidente Jair Bolsonaro e ministros do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Luís Roberto Barroso.
O levantamento descreve a proliferação desses personagens sintéticos como um desafio para o ambiente informacional nas plataformas digitais.
Com informações de Olhardigital