Obesidade na infância tende a persistir até a adolescência e pode afetar crescimento, diz estudo
Body image of a fat boy who weighs more than usual.
Um estudo brasileiro com mais de 41 mil estudantes concluiu que o excesso de peso identificado nos primeiros anos da infância tende a permanecer durante a adolescência, com reflexos também no crescimento em altura. A pesquisa, conduzida entre 2013 e 2020, alerta para a necessidade de prevenção e acompanhamento contínuo do desenvolvimento infantil.
Por Léo Marques, da Agência Einstein
6/6/2026
Publicada em abril no British Journal of Nutrition, a investigação foi realizada por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em colaboração com o Boston College (EUA), a Universidad Autónoma de Chile e a Universidade Federal do ABC. A amostra principal incluiu estudantes de 5 a 18 anos de 47 escolas públicas brasileiras. Em uma subamostra de 11,5 mil participantes, 64% mantiveram peso considerado adequado ao longo do acompanhamento, enquanto 21% evoluíram para sobrepeso e 15% para obesidade.
Os autores observaram aumento progressivo do índice de massa corporal (IMC) em meninos e meninas já nas primeiras fases da infância, com maior prevalência de obesidade entre crianças de 5 a 10 anos. Segundo a equipe, o ganho de altura não compensou automaticamente a adiposidade já estabelecida nas crianças acompanhadas.
Eliana Vellozo, do setor de Medicina do Adolescente do departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, ressalta que existe uma janela crítica nos primeiros anos da vida escolar, quando padrões de alimentação, sono, atividade física e comportamento sedentário começam a definir o risco futuro de obesidade. Crianças com sobrepeso nos primeiros registros apresentaram maior chance de manter ou agravar a condição ao longo do tempo.
Fatores pré-natais e ambientais
A pesquisa também aponta influências que começam antes do nascimento. A endocrinologista pediátrica Carolina Ramos, do Hospital Israelita Einstein, destaca que alimentação materna, ganho de peso na gestação, ausência de aleitamento materno e tipo de introdução alimentar contribuem para o risco de obesidade infantil. Mudanças de estilo de vida — mais tempo em ambientes fechados, maior uso de dispositivos eletrônicos, alimentação rica em ultraprocessados e bebidas açucaradas e redução do sono — foram citadas como fatores que favorecem o sedentarismo e o ganho de peso.
Imagem: Body image of a fat boy who weighs more than usual
Mais peso, menos crescimento
Um resultado preocupante foi a constatação de que parte dos adolescentes não alcançou o potencial de estatura esperado. Os meninos passaram a apresentar estatura abaixo da referência internacional por volta dos 9 anos, e as meninas a partir dos 13 anos. Os pesquisadores indicam que dietas com alto conteúdo calórico, mas deficiência de nutrientes essenciais (proteínas de qualidade, ferro, zinco e vitaminas) e a associação entre obesidade, puberdade precoce e maturação óssea acelerada explicam, em parte, esse fenômeno.
O estudo lembra ainda que o excesso de gordura corporal pode antecipar o fechamento das cartilagens de crescimento, comprometendo a altura final. Além disso, a obesidade infantil aumenta o risco futuro de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, hipertensão, alterações hepáticas e problemas osteomusculares.
Os pesquisadores defendem o papel da escola e da família na prevenção: monitoramento do crescimento, promoção de atividade física, educação alimentar e fortalecimento do bem-estar emocional são apontados como medidas capazes de identificar precocemente padrões de risco e evitar a consolidação do excesso de peso na vida adulta. O acompanhamento pediátrico regular também é considerado essencial para detectar desequilíbrios entre peso e altura e intervir o quanto antes.
Com informações de Fitnessbrasil