Empreendedorismo

Por que o sucesso do Pix entrou no argumento dos EUA para tarifar o Brasil em 25%

02.06.2026 | Por: Gudyê KondZilla

O Pix foi citado como um dos motivos para a proposta do governo dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa punitiva de 25% ao Brasil, segundo documento do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). Em um relatório de 107 páginas, o sistema de pagamentos aparece 20 vezes, em média uma menção a cada cinco páginas, enquanto o Banco Central (BC) é mencionado sete vezes e acusado de práticas possivelmente anticompetitivas por atuar simultaneamente como regulador e operador do Pix.

Do que os EUA acusam o Brasil

O USTR concentra a investigação Section 301 em três frentes: o tratamento preferencial ao Pix, o desmatamento ilegal e tarifas preferenciais desiguais. No relatório, o órgão afirma que o Brasil concede vantagens ao Pix que seriam injustas e discriminatórias, exigindo que concorrentes ofereçam disponibilidade, visibilidade e limites tarifários ao sistema nacional sem compensação.

O primeiro ponto da acusação refere-se ao que o USTR chama de favorecimento compulsório: o Banco Central obrigaria instituições financeiras com mais de 500 mil contas a participar do Pix e a exibir o sistema na tela principal de seus aplicativos, com destaque não inferior a outros meios de pagamento. Segundo o relatório, isso forçaria empresas americanas — como Visa, Mastercard, PayPal, Google Pay e Apple Pay — a promover o Pix em seus próprios produtos e ecossistemas.

O segundo argumento é de distorção de preços por regulação: o Pix é gratuito para pessoas físicas e há um teto nas tarifas cobradas de pessoas jurídicas, o que, na visão do USTR, cria uma vantagem competitiva artificial que empresas privadas americanas não conseguiriam reproduzir sem prejuízo, já que não são subsidiadas pelo Estado.

O terceiro ponto aponta discriminação contra fornecedores norte-americanos. O documento sugere que o tratamento preferencial do Brasil ao Pix fere o comércio dos EUA ao privilegiar um “campeão nacional” e impor custos a provedores americanos.

A Forbes procurou o Banco Central, mas não recebeu resposta até a publicação da reportagem.

Reação de especialistas

Especialistas consultados afirmam que as menções ao Pix no relatório parecem ter objetivo político e gerar ruído, mais do que apontar medidas práticas que o Brasil poderia adotar para reverter a situação. Eles destacam que o Pix já está consolidado e mudanças substanciais no sistema não são factíveis.

Gilberto Martins, fundador da G-Payments Consulting e ex-diretor da Mastercard e do Ebanx, disse que a acusação de concorrência desleal não se sustenta, por entender que o Pix aumentou a competição no ecossistema de meios de pagamento e foi criado como um instrumento em benefício da população, sem objetivo de gerar lucro para o governo federal.

Adrian Cernev, professor do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV, descreve o argumento do governo americano como mais político do que técnico, sugerindo que a crítica ao Pix pode ser utilizada em negociações futuras em outras áreas.

Imagem: Getty Images

Contexto político e econômico

Com o retorno de Donald Trump à presidência, as críticas ao Pix ampliaram-se. A investigação citada começou a ganhar tração em 2025, com base na Seção 301 da lei comercial dos EUA — o mesmo mecanismo usado em disputas com a China — e levou à inclusão do Pix no relatório anual National Trade Estimate (NTE) de 2025 do USTR como barreira não tarifária.

O lobby de grandes bandeiras de cartão de crédito e empresas de pagamento que atuam no Brasil tem sido apontado como um fator por trás das queixas em Washington, já que essas companhias perderam parcela de mercado para o Pix.

Adoção e uso do Pix no Brasil

No acumulado de 2025, o Pix registrou cerca de 79,8 bilhões de transações e movimentou R$ 35,36 trilhões, segundo dados do Banco Central. Pesquisas da Elo e da Fundação Dom Cabral indicam que o cartão de crédito ainda domina compras de maior valor, como eletrodomésticos, móveis, viagens e roupas, enquanto o Pix avança em transações cotidianas, compras online, pagamentos de aplicativos, contas de consumo e tributos. O parcelamento continua sendo o principal fator que favorece o uso do cartão de crédito.

Um estudo da Harvard Kennedy School, assinado por Polina Kempinsky em 2025, compara o Pix ao sistema indiano UPI e observa que o Pix tornou-se o método de pagamento de adoção mais rápida no mundo, alcançando 75% da população adulta do Brasil em menos de três anos após seu lançamento.

O debate sobre o caráter estatal do Pix também aparece no relatório do USTR, que critica o fato de o sistema ter sido gestado e ser operado pelo governo brasileiro, embora o Banco Central seja uma autarquia com independência garantida por lei.

O desfecho das medidas propostas pelo governo dos Estados Unidos e seus impactos sobre o sistema de pagamentos brasileiro ainda dependem do desenvolvimento das negociações e de possíveis ações comerciais futuras.

Com informações de Forbes

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