CRIs e CRAs de grandes empresas passam a pagar acima de IPCA+8% no mercado secundário
O mercado de crédito privado brasileiro vive período de tensão após uma série de crises envolvendo empresas em recuperação extrajudicial e judicial, entre elas Raízen, GPA (Grupo Pão de Açúcar), Oncoclínicas, Kora Saúde e o Grupo Toky, controlador da Mobly e da Tok&Stok. Essa pressão provocou vendas em massa de títulos e ampliou o spread — o prêmio que papéis privados pagam sobre títulos públicos —, mas também abriu janelas de retorno elevado para investidores no mercado secundário.
Na bolsa secundária de certificados de recebíveis imobiliários (CRI) e do agronegócio (CRA), papéis de companhias de grande porte têm sido negociados com remunerações que superam IPCA + 8% ao ano. Alguns chegam a oferecer retornos acima de IPCA + 10% anual, níveis bem superiores às taxas originais contratadas pelos emissores.
Exemplos de remunerações
Entre os títulos com elevação de rendimento estão: o CRA da Klabin com vencimento em 2029, negociado a IPCA + 7,9% (taxa inicial de IPCA + 3,5%); dois CRAs da BRF (atual MBRF) com vencimentos em 2027 e 2030 que pagam IPCA + 10,6% e IPCA + 10,2% (originais de IPCA + 5,3% e +5,6%); o CRA da M. Dias Branco até 2028 a IPCA + 8,5% (antes IPCA + 3,8%); os CRAs de Marfrig e Minerva com prazo em 2028 rendendo IPCA + 10,5% e IPCA + 10,7%; o CRI da Rede D’Or São Luiz com vencimento em 2036 negociado a IPCA + 8,3%; e o CRI da Aliansce Sonae Shoppings com prazo em 2028 a IPCA + 8,7%.
Mesmo entre emissores considerados de melhor qualidade, como a Petrobras, há ajuste: o CRI com vencimento em 2030 aparece no mercado secundário a IPCA + 7,78%, um dos menores spreads entre grandes companhias, mas ainda acima das taxas originalmente pactuadas.
Fatores que influenciam as cotações
O aumento das expectativas de inflação, a Guerra do Irã e o receio de juros mais altos por mais tempo pressionam os juros e influenciam a política monetária, ampliando a volatilidade do crédito privado. Crises de crédito corporativo intensificaram saídas de recursos: fundos dessa categoria sofreram R$ 22,3 bilhões em resgates líquidos apenas em abril.
Na prática, yields maiores no mercado secundário refletem descontos no preço dos títulos. Um exemplo ilustrativo: um CRI que originalmente rende IPCA + 4,5% e, com inflação de 4,8% em um ano, pagaria R$ 1.093 sobre R$ 1.000 investidos, pode ser vendido no mercado oferecendo IPCA + 10% ao comprador — o que implica receber cerca de R$ 952,09 pelo título, abaixo do valor pago inicialmente.
Esses movimentos exigem seleção criteriosa dos ativos e tolerância à oscilação de preços e taxas no ambiente de negociação antes do vencimento, onde os títulos são marcados a mercado.
Com informações de Investnews