Espaço é alternativa para data centers de IA, mas enfrenta limites físicos, regulatórios e ambientais
TRANSMISSÃO: Globo | Space
Empresas e investidores estão avaliando levar parte da infraestrutura que sustenta a inteligência artificial para o espaço, diante do aumento contínuo do consumo de energia e água dos grandes data centers. A proposta, debatida no programa Olhar Espacial, traz promessas — como acesso constante à energia solar em determinadas órbitas —, mas também expõe obstáculos técnicos, regulatórios e ambientais que, segundo especialistas, ainda tornam a solução pouco prática no curto prazo.
O debate no programa, exibido ao vivo nas sextas-feiras pelas plataformas do Olhar Digital, contou com o apresentador Marcelo Zurita — presidente da Associação Paraibana de Astronomia (APA), membro da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB) e diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (BRAMON) — e o físico Roberto ‘Pena’ Spinelli, especialista em Machine Learning. Os convidados afirmaram que a ideia enfrenta limitações de física térmica, capacidade orbital e governança.
Do conceito inicial à prova de conceito
A movimentação para instalar servidores em órbita ganhou força no final de 2024. Projetos iniciais, como o da Lumen, propunham painéis solares de quatro quilômetros quadrados, mas foram considerados de difícil execução. A discussão ganhou novo impulso em maio de 2025, quando a StarCloud lançou ao espaço uma GPU Nvidia H100, evento que serviu como prova de conceito e atraiu atenção do mercado financeiro.
Desde então, modelos como constelações de microsatélites — citadas em projetos como o TeraWave, da Blue Origin, e a proposta de até um milhão de satélites associada a Elon Musk — passaram a ser considerados. Para Pena, a corrida é impulsionada pelo custo de oportunidade: investidores buscam garantir controle sobre infraestrutura orbital que, se tornar padrão, seria estratégica.
Limitações físicas e operacionais
Entre as vantagens apontadas está a possibilidade de órbitas heliossíncronas, que mantêm exposição solar constante e reduziriam a necessidade de baterias volumosas. No entanto, os especialistas ressaltam que IAs que exigem baixa latência precisam operar na órbita terrestre baixa (LEO), um espaço limitado e já bastante disputado.
O grande entrave técnico é a gestão térmica: no vácuo não há ar nem água para resfriar equipamentos, restando a emissão por radiação, que é pouco eficiente. Escalar capacidade exigiria radiadores extensos, expondo estruturas a detritos e radiação cósmica. Alternativas como formar um “trem de satélites” intercomunicantes reduziria latência, mas manter o alinhamento e a manobrabilidade diante de variações gravitacionais é um desafio de engenharia significativo.
Regulação, riscos e custos ambientais
O modelo de ocupação orbital também levanta questões de governança. Em 9 de janeiro deste ano, a Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos Estados Unidos autorizou a expansão da constelação de segunda geração da Starlink em mais 7.500 satélites. Em 30 de janeiro, a agência passou a analisar um pedido da SpaceX para operar um sistema com até um milhão de satélites dedicados ao processamento de IA.
Imagem: Imagem Divulgação
Zurita e Pena alertam para o risco do Efeito Kessler: a destruição de um satélite pode gerar fragmentos que provoquem uma reação em cadeia. Além disso, a proliferação de satélites em órbitas heliossíncronas poderia aumentar o brilho artificial no céu ao entardecer, afetando a observação astronômica.
O custo dos lançamentos e a frequência de renovação de constelações também são apontados como impeditivos. O metano queimado por foguetes e a necessidade de substituir satélites a cada cinco anos elevam a pegada de carbono. Segundo Zurita, o lançamento custa atualmente cerca de US$ 5 mil por quilo; a viabilidade econômica dependeria de uma redução para algo em torno de US$ 50 por quilo, cenário que dependeria de subsídios ou mudanças profundas no custo de acesso ao espaço.
Como alternativa, os convidados defendem foco em soluções terrestres: melhorar a eficiência de data centers, reaproveitar calor residual e investir em tecnologias de resfriamento mais sustentáveis para reduzir a pressão sobre recursos naturais.
O tema exige, conforme os debatedores, acordos internacionais que estabeleçam limites para ocupação orbital e garantam transparência e governança, evitando concentração excessiva de infraestrutura nas mãos de poucas empresas e reduzindo riscos para o uso coletivo do espaço.
Com informações de Olhardigital