Abril é um mês de luta pro funk

Música 2 semanas atrás

O mês de abril é um mês de luta para cultura baile funk. Entre os anos de 2010 e 2012, quatro dos principais MCs da Baixada Santista foram assassinados. Até hoje parte dos crimes não foram solucionados, mas o legado desses quatro artistas segue vivo e servindo de influência para nova geração. Hoje, o Portal KondZilla conta um pouco da história desses quatro MCs, como eles foram importantes para história dessa cultura e porque precisamos continuar na luta de que funk é cultura, funk não é crime.

Antes de contar a trajetória de cada um, vamos voltar no tempo e contextualizar como era a cultura baile funk na época. Com o Rio de Janeiro em baixa e São Paulo ainda vivendo sob o domínio do rap, a Baixada Santista era um dos principais redutos do funk. Os artistas eram conhecidos nas quebradas do país – numa era onde internet era coisa de luxo – e viajavam o Brasil levando o funk consciente, a principal marca deles. A morte de MC Careca, MC Primo, MC Duda do Marapé e MC Felipe Boladão fez com que a Baixada se reinventasse e também abriu espaço pro crescimento do funk em São Paulo, onde começava a surgir o funk ostentação. Agora, vamos contar quem eram esses quatro MCs.

  • Felipe Boladão

Dentre os quatro MCs, o mais promissor. Felipe Wellington da Silva Cruz tinha apenas 20 anos quando foi assassinado. Cria da cidade de Santos, no litoral de São Paulo, até hoje é conhecido como um dos maiores letristas do funk paulistano e referência para muitos MCs e compositores. Entre seus sucessos estão: “Bonde do Tony Country”, “Residência dos Loucos”, “Mundo Moderno” e “A Viagem”. O MC Felipe Boladão estava a caminho de um show em São Paulo, quando foi assassinado, junto com seu DJ – que também se chamava Felipe -, no dia 10 de abril de 2010.

  • Duda do Marapé

O Portal KondZilla teve a oportunidade de conversar com diversos pessoas que conheciam os quatro MCs mortos no mês de abril, e o MC Duda do Marapé sempre foi lembrado como um artista brilhante. Morto aos 27, Eduardo Antônio Lara era cria do morro do Marapé, também em Santos, e tinha entre seus sucessos: “Lágrimas”, “Bonde do Régias”, “Ideias Ideais”. Sua música de maior repercussão, “Lágrimas”, foi composta pelo MC quando estava internado na antiga FEBEM e produzida pelo DJ Baphafinha, um dos maiores nomes do funk da Baixada. Duda foi assassinado a tiros no dia 12 de abril de 2011, no Centro de Santos.

“Eu tinha uma relação boa com todos eles [MCs da Baixada], com vários tinha uma relação mais estreita”, disse o DJ Baphafinha, em entrevista ao Portal KondZilla. “Um que era um filhão para mim era o Duda [do Marapé]. Sabia que quando tinha alguém chamando ‘Leonardo’ no portão, era ele. Só ele e minha mulher me chamam de Leonardo [nome de batismo do DJ]. Isso porque, muitas vezes, ele pulou o muro da minha casa onde ficava meu antigo estúdio. Eu ficava puto, falava que ia colocar uns cachorros para pegar ele (risos)”.

  • MC Primo

Jadielson da Silva Almeida era um visionário. Pra quem não tá ligado, seu maior sucesso, “Diretoria”, foi primeiro produzido pelo DJ Rodjhay e, depois, ganhou uma nova roupagem com o DJ Marlboro – o que fez a música rodar o Brasil. O cantor também tem na lista de sucessos: “Reza Forte”, “Espada no Dragão” e “Sangue do Teu Sangue”. Quando os MCs da Baixada tentavam se renovar, Primo já sabia o que poderia dar certo: videoclipes. Foi então que ele decidiu contratar um jovem que tava despontando na cena audiovisual: Konrad Dantas, o KondZilla. Bem, o resto é história, né?! O cantor foi morto a tiros na porta de casa, em São Vicente, no dia 19 de abril de 2012.

  • MC Careca

Essa, talvez, seja a morte mais traumática das quatro. Nove dias antes de ser assassinado, Cristiano Carlos Martins enterrava seu amigo, MC Primo. Junto com outros MCs, Careca estava com medo e deixou de trabalhar – ele era barbeiro. O MC era conhecido também como uma espécie de “porta voz” da sua quebrada, o Dale Capela. Antes da carreira solo, Careca fez dupla com Pixote até o ano de 2006. Entre seus sucessos o cantor tem: “Tá Na Memória”, “Fortes Batalhas” e “Vai Dar Guerra”. Cristiano foi assassinado com pelo menos 15 tiros, dentro do salão onde trabalhava, no dia 28 de abril de 2012.

Após as quatro mortes, o terror tomou conta dos artistas da Baixada. Alguns artistas pararam de cantar, outros se mudaram da cidade. No entanto, não há bala que apague o que esses artistas fizeram. Pelo contrário. Hoje, artistas como MC Hariel, MC Livinho, MC MM e outros fazem questão de destacar a importância dos MCs da Baixada na sua história.

Esse caso é um dos ótimos exemplos de como o funk, infelizmente, ainda ocupa grande espaço nas páginas policiais. Seja por morte de cantores – temos outro exemplo do MC Daleste, que foi assassinado em outro contexto – ou pela prisão de DJs, abrindo um debate para o quanto essa cultura ainda é perseguida. Enquanto o baile funk roda o mundo com tapete vermelho, no Brasil ainda temos que explicar a importância dessa cultura.

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