Meu cabelo, minha identidade

Comportamento 2 semanas atrás

*Todas as fotos por: Kamila Oliveira // Portal KondZilla

Por trás de todo cabelo sempre terá uma história interessante, seja sobre transição capilar, química, cortes ou vários outros tipos de mudanças. Mudanças das quais nem todas as mulheres tiveram coragem de enfrentar ou até mesmo assumir o seu próprio cabelo. E num país multicultural como o nosso, existe uma diversidade de cabelos e cada um carrega a sua beleza. Sendo crespo, ondulado, liso, cacheado, com ou sem tranças, curto ou grande, eles são a identidade de cada pessoa. Separamos neste Dia da Mulher, histórias de mulheres corajosas que assumiram seu próprio cabelo.


“Vão em frente no seu próprio tempo.”
Marina Menezes, 22, trabalha em escritório e tatuadora

“Sempre tive o cabelo comprido e desde muito nova fazia escova progressiva, era muito apegada ao cabelo e me sentia sendo refém do secador e da chapinha. Minha autoestima sempre esteve entrelaçada com o meu cabelo, chegava a chorar quando o meu cabeleireiro cortava um pouco a mais do que eu havia pedido. Mas conheci o amor próprio e aceitação. Com o tempo resolvi cortar e passar pela transição capilar, no meio do processo resolvi raspar por inteiro. A princípio todos que me conheciam com o cabelo antigo, levaram um susto, mas aos poucos se acostumaram e até gostam mais do que antes. Eu recomendo que todas as mulheres que tem vontade ou curiosidade irem em frente no seu próprio tempo. É um processo de autoconhecimento e autoestima. Hoje em dia me sinto linda com ou sem cabelo, e não preciso mais da aprovação da sociedade para me sentir bem comigo mesma!”


”Temos que aprender a parar de tomar atitude por conta das coisas que as pessoas falam da gente.”
Polliana Dos Santos, 24, personal trainer

“Meu cabelo está diretamente ligado à minha autoestima e na minha autoconfiança, sempre esteve. Quando eu era criança sofria muito bullying, por isso usei ele preso por muito tempo, desde a primeira série até o ensino médio. Eu só usava solto quando estava em casa. Eu já cheguei a frequentar algumas agências, mas eu nunca fazia o perfil. Foi aí que pensei: será que consigo ser loira? Daí, vi a Beyoncé com o cabelo loiro, todo cacheado, volumoso e vi que parecia com o meu e quis tentar deixar igual também.

Nisso, comecei a trabalhar no salão de beleza, fui auxiliar um ano e meio e nesse tempo mudei totalmente o meu cabelo, mudei muito. Destruí bastante com as colorações, isso maltratou muito os fios e tudo isso me jogava pra baixo porque eu só ficava bem se meu cabelo estivesse bem. Então, decidi cortá-lo tem mais de um ano, foi quando eu não aguentava mais ser “só o meu cabelo”, não sou só o meu cabelo e as pessoas precisam se desvincular dele, mas antes das pessoas eu preciso me entender como realmente sou.

Fazia mais de seis anos que usava química, coloração e simplesmente não me imaginava com meu cabelo natural, com a cor natural. Mas em umas dessas colorações eu destruí meu cabelo completamente. Daí, vi uma oportunidade de tirar a parte da química de uma vez por todas. Ainda estou passando pela transição e se eu pudesse dizer para todas as mulheres que são ligadas ao cabelo, é que o seu cabelo é apenas seu. Temos que aprender a parar de tomar atitude por conta das coisas que as pessoas falam da gente, não deixe com que os outros te coloque para baixo. Temos que tomar coragem para mudar e nos sentir bem, do jeito que quisermos.”


“Mulheres, sintam-se confortáveis.”
Ana Beatriz Motta, 23 anos, trabalha na área da comunicação.

“Usei meu cabelo natural apenas até os 12 anos de idade. Minha mãe que sempre cuidava e penteava. Quando fui para a quinta série, vi que todas as meninas arrumavam seus cabelos sozinhas, iam com eles soltos e tentei fazer o mesmo. Daí, comecei a usar ele preso, puxava tudo para trás e fiquei assim por um bom tempo. Consequentemente, a frente do meu cabelo foi quebrando e até hoje é quebrada por causa dessa época. Como ele era muito cheio, não conseguia passar chapinha e aí decidi alisá-lo. Comecei a frequentar sempre o salão para mantê-lo liso e mesmo assim eu via que o liso não era a minha cara.

Fiquei usando ele desse jeito até 2011, já fazia tanto tempo que eu nem lembrava como meu cabelo era natural. Ainda em 2011, resolvi fazer tranças e foi a partir disso que comecei a me sentir linda. Mesmo quando eu tirava as tranças, não tinha vontade de parar de alisar, continuei alisando e fazia bastante babyliss.

Fiquei nesse processo até 2018, quando comecei a ver que muitas mulheres estavam assumindo o cabelo, mesmo assim isso não me abalava, não tinha vontade de assumir. Continuei alisando, não com tanta frequência, mas mesmo assim alisava. Fui parando aos poucos para ir me adaptando porque com o cabelo liso eu sentia que estava me sabotando e, isso era muito errado. Porque é apenas um cabelo, sabe? Sendo apenas um cabelo, você pode experimentar diversas possibilidades com ele, até porque ele cresce, ele muda. E demorou muito para eu entender isso.

Um dia quando passei o produto para alisar, assim que eu tirei, meu cabelo caiu completamente e foi a pior fase da minha vida. Quando vi, meu cabelo estava todo estourado e machucado por causa da química. Percebi que estava cansada de maltratar meu cabelo e que precisava mudar. Fui em um cabeleireiro e enquanto ele cortava eu pensava: “nossa, depois de mil anos estou assumindo de vez meu cabelo”… e quando olhava no espelho, estranhava muito porque aquilo era tudo muito novo. Quando cheguei em casa eu dizia: “gente, olha meu rosto, olha meu cabelo, pela primeira vez que lavo ele natural… ele é lindo, olha esses cachinhos. ” E eu chorava muito, foi assim que decidi assumi-lo de vez.

Cada dia ele está de um jeito, não vou dizer que são só flores. Alisar meu cabelo nunca mais. Estou apaixonada por ele e foi a melhor coisa que eu fiz.

Mulheres, sintam-se confortáveis. Perceba de verdade o que te agrada, o que te faz se sentir bem, se sentir bonita. Se é uma trança enorme que você vai se sentir bonita, faça. Se é cabelo liso, faça. Se é assumir seu cabelo, faça. Não tenha medo.”


“Ame seu cabelo, gaste tempo com ele e aprenda a cuidar dele.”
Luciana Borba, 25 anos, trancista.

“Me lembro sempre quando minha mãe colocava minha cabeça no meio dos joelhos e trançava meu cabelo e o da minha irmã quando éramos crianças. Ela usava umas tiras que fazia com uns tecidos velhos para ficar diferente e parecer coisa de criança. Por volta dos 12 anos eu mesma comecei a cuidar do meu cabelo. Quando comecei a entrar na adolescência estava na moda “pranchar” o cabelo, mas só a chapinha nunca deixou meus fios lisos por muito tempo que nem o das meninas da escola, então comecei a alisar quimicamente em casa, eu mesma. Usei vários alisantes. Na época, o que eu podia fazer pra esticar meus fios, eu fazia! Um verdadeiro sacrifício pelo dito “cabelo bom”.

O tratamento das pessoas mudou drasticamente comigo, porque mesmo todo quebrado ou com um corte químico irregular, meu cabelo era liso e isso bastava. Alisei meus fios dos 13 aos 22 anos, e só a partir dos 17, quando comecei a trabalhar e podia frequentar salões de beleza, não fazia mais os processos em casa. Quando resolvi fazer a transição capilar, no começo 2016, foi uma desconstrução grande, mas nada que me causou medo. Entender o processo me fez perder o medo. Assumir o cabelo não é rápido que nem passar um produto que age em 40 minutos. Assisti alguns tutoriais no YouTube e vi que as mulheres faziam umas tranças com lã, iguais às que minha mãe fazia com tiras e comecei a trançar meu cabelo de novo. Me apeguei às referências que tinha e só fui!

Depois de um ano trançando meu cabelo, sem passar química, resolvi cortar a parte lisa dos fios e assumir meu black. Ele ainda era pequeno, não estava do tamanho que eu queria ainda, mas a sensação de que eu tinha me libertado de ANOS de prisão num padrão branco me fazia sentir a mulher mais livre do mundo!

Me sentia mais segura, minha personalidade era mais firme e estava no topo da minha cabeça em forma de um mini black power. Comecei a ser mais notada pelas pessoas, melhorei até minha postura, por incrível que pareça. Hoje em dia, só eu cuido do meu cabelo. Uma dica para as mulheres que estão passando por esse processo: Ame seu cabelo, gaste tempo com ele e aprenda a cuidar dele.”


“Espero que esse amor que sinto por mim, todas possam sentir por si também.”
Júlia Mendonça Rocha, 19 anos, trabalha como modelo.

“Minha carequinha tem uma história tão intensa que só de lembrar bate a mesma felicidade que senti em 2016, quando raspei pela primeira vez. Foi um sentimento de liberdade, me senti diferente no mundo em que todos são iguais. Mudei o meu estilo de vida após raspar, percebi que minha identidade ali estava sendo formada. Começou em 2014 quando eu resolvi cortar tudo o que estava com química, para o crescimento ser mais ágil e menos visto por mim. Fiz as tranças. Assim fui entendendo quem eu era, vi o quão linda ficava com cada mudança e fui aceitando a Júlia que eu ainda não conhecia.

Conheci novas pessoas, frequentei novos lugares e passei a viver para mim. Afinal, o amor próprio só depende de nós mesmos para ser vivido! O que eu tenho para dizer para quem tem vontade de fazer o mesmo é: faça sem pensar nos outros. Tudo o que você sonha em alcançar, só suas próprias pernas podem te fazer chegar. Conheci tantas versões do meu eu, que hoje, sou completamente apaixonada pela mulher que me tornei. Espero que esse amor que sinto por mim, todas possam sentir por si também.”


“Hoje sou eu, única e exclusiva para mim mesma.”
Ana Caroline dos Santos, 22 anos, produtora de moda em uma agência de modelos.

“No começo foi muito difícil lidar com o meu cabelo. Passar por transição capilar não é muito fácil, você não sabe como cuidar do seu cabelo e ao mesmo tempo não queria ficar careca. Eu não estava mais aguentando sempre aquele processo de alisamento, chapinha, progressiva e pensava: ‘porque não posso ser como todas as garotas, que tem seus cabelos naturais?’ Porém, a diferença era que elas tinham cabelo liso natural e o meu cabelo era crespo, mas por incrível que pareça eu gostava do meu cabelo natural. O problema não era esse e sim, enfrentar o preconceito da sociedade e os “apelidinhos” que colocavam em mim.

Lembro como se fosse hoje quando fui pela primeira vez para a escola a onde eu já estudava, com o meu cabelo black, foi horrível. Voltei a usar chapinha, mas sempre que eu lavava o meu cabelo me olhava no espelho e via como o meu cabelo era lindo. Foi quando a minha mãe conversou comigo sobre tudo e resolvi enfrentar a sociedade e foi incrível, me senti A PODEROSA. Hoje em dia o meu cabelo é tudo para mim, mesmo às vezes a gente brigando, aquela coisa de amor e ódio, a gente se ama. Ele é minha coroa, minha personalidade, minha força e identidade. Hoje sou eu, única e exclusiva para mim mesma, posso ser quem eu quiser com o meu cabelo, posso deixar ele afro, com chapinha, liso, com trancinhas, com twist… tudo! Hoje eu sou liberdade. ”


”Eu parabenizo todas as mulheres que pretendem entrar nessa luta e as que já passaram por ela.”
Larissa Edy, 25 anos, trabalha com administração, moda e produção.

Hoje posso dizer que estou muito satisfeita com meu cabelo. Cheguei num auge de saber lidar com ele perfeitamente. Ainda mais na questão de aceitação, a primeira coisa a se fazer é saber manusear ele. O nosso cabelo faz parte da nossa identidade. A minha transição capilar não envolveu a química. A transição foi por causa do aplique, bom, hoje eu tenho todo tipo de cabelo…, mas obviamente assumindo o meu também. Eu consigo fazer várias coisas com meu cabelo, são infinitas possibilidades.

Passar pela transição foi um processo muito doído porque sou africana, vim para outro país. Um país que é racista e foi bem complicado porque vim para cá quando eu era adolescente, fiz o ensino médio aqui. Minha mãe era cabeleireira, ela fazia todo tipo de cabelo e aí ela me proibiu de alisar o cabelo até os 18 anos.

Minha autoestima foi melhorar quando eu coloquei o aplique, primeiro coloquei o liso e depois o ondulado, isso era no ensino médio. Toda vez que eu tirava o aplique ou as tranças, eu me olhava no espelho e pensava: ‘como meu cabelo está lindo, esta enorme’. E aí teve um dia que eu tomei coragem para assumir.

Nesse dia, falei comigo mesma que não iria colocar aplique e nem tranças, iria deixar ele natural, queria aprender a cuidar dele sozinha, a partir daí eu me vi uma outra Larissa. Foi aí que eu percebi que tinha a necessidade de amadurecer em relação dessa questão de aceitação, vi que de um jeito ou de outro eu tinha que aceitar meu cabelo daquele jeito, mesmo sempre usando apliques e tranças.

Quero dizer para todas as mulheres, que vocês são lindas, independente de como seu cabelo é… E a primeira pessoa a reconhecer isso é você. A autoestima é algo que vem de dentro para fora. O seu cabelo é uma herança que você tem de uma etnia maravilhosa, extensa de cultura.”


Júlia Mendonça e Marina Menezes

O cabelo é sua identidade, mas isso não quer dizer que você não pode experimentar coisas novas nele. Diante desses depoimentos, temos toda a certeza do mundo de que você pode experimentar infinitas coisas, desde que você o trate bem e cuide-o. Seja livre. Não tenha medo de testar o novo, vá e faça. Seja liso, seja crespo, seja careca, cacheado… seja o que você quiser.

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