Meu cabelo, minha identidade

Autor: Kamila Oliveira

Fotos por: Kamila Oliveira // Portal KondZilla

Comportamento | 08/03/2019 11:02:02

Anexo faltante

*Todas as fotos por: Kamila Oliveira // Portal KondZilla

Por trs de todo cabelo sempre ter uma histria interessante, seja sobre transio capilar, qumica, cortes ou vrios outros tipos de mudanas. Mudanas das quais nem todas as mulheres tiveram coragem de enfrentar ou at mesmo assumir o seu prprio cabelo. E num pas multicultural como o nosso, existe uma diversidade de cabelos e cada um carrega a sua beleza. Sendo crespo, ondulado, liso, cacheado, com ou sem tranas, curto ou grande, eles so a identidade de cada pessoa. Separamos neste Dia da Mulher, histrias de mulheres corajosas que assumiram seu prprio cabelo.


“Vo em frente no seu prprio tempo.
Marina Menezes, 22, trabalha em escritrio e tatuadora

Sempre tive o cabelo comprido e desde muito nova fazia escova progressiva, era muito apegada ao cabelo e me sentia sendo refm do secador e da chapinha. Minha autoestima sempre esteve entrelaada com o meu cabelo, chegava a chorar quando o meu cabeleireiro cortava um pouco a mais do que eu havia pedido. Mas conheci o amor prprio e aceitao. Com o tempo resolvi cortar e passar pela transio capilar, no meio do processo resolvi raspar por inteiro. A princpio todos que me conheciam com o cabelo antigo, levaram um susto, mas aos poucos se acostumaram e at gostam mais do que antes. Eu recomendo que todas as mulheres que tem vontade ou curiosidade irem em frente no seu prprio tempo. um processo de autoconhecimento e autoestima. Hoje em dia me sinto linda com ou sem cabelo, e no preciso mais da aprovao da sociedade para me sentir bem comigo mesma!”


Temos que aprender a parar de tomar atitude por conta das coisas que as pessoas falam da gente.
Polliana Dos Santos, 24, personal trainer

Meu cabelo est diretamente ligado minha autoestima e na minha autoconfiana, sempre esteve. Quando eu era criana sofria muito bullying, por isso usei ele preso por muito tempo, desde a primeira srie at o ensino mdio. Eu s usava solto quando estava em casa. Eu j cheguei a frequentar algumas agncias, mas eu nunca fazia o perfil. Foi a que pensei: ser que consigo ser loira? Da, vi a Beyonc com o cabelo loiro, todo cacheado, volumoso e vi que parecia com o meu e quis tentar deixar igual tambm.

Nisso, comecei a trabalhar no salo de beleza, fui auxiliar um ano e meio e nesse tempo mudei totalmente o meu cabelo, mudei muito. Destru bastante com as coloraes, isso maltratou muito os fios e tudo isso me jogava pra baixo porque eu s ficava bem se meu cabelo estivesse bem. Ento, decidi cort-lo tem mais de um ano, foi quando eu no aguentava mais ser s o meu cabelo, no sou s o meu cabelo e as pessoas precisam se desvincular dele, mas antes das pessoas eu preciso me entender como realmente sou.

Fazia mais de seis anos que usava qumica, colorao e simplesmente no me imaginava com meu cabelo natural, com a cor natural. Mas em umas dessas coloraes eu destru meu cabelo completamente. Da, vi uma oportunidade de tirar a parte da qumica de uma vez por todas. Ainda estou passando pela transio e se eu pudesse dizer para todas as mulheres que so ligadas ao cabelo, que o seu cabelo apenas seu. Temos que aprender a parar de tomar atitude por conta das coisas que as pessoas falam da gente, no deixe com que os outros te coloque para baixo. Temos que tomar coragem para mudar e nos sentir bem, do jeito que quisermos.


“Mulheres, sintam-se confortveis.”
Ana Beatriz Motta, 23 anos, trabalha na rea da comunicao.

Usei meu cabelo natural apenas at os 12 anos de idade. Minha me que sempre cuidava e penteava. Quando fui para a quinta srie, vi que todas as meninas arrumavam seus cabelos sozinhas, iam com eles soltos e tentei fazer o mesmo. Da, comecei a usar ele preso, puxava tudo para trs e fiquei assim por um bom tempo. Consequentemente, a frente do meu cabelo foi quebrando e at hoje quebrada por causa dessa poca. Como ele era muito cheio, no conseguia passar chapinha e a decidi alis-lo. Comecei a frequentar sempre o salo para mant-lo liso e mesmo assim eu via que o liso no era a minha cara.

Fiquei usando ele desse jeito at 2011, j fazia tanto tempo que eu nem lembrava como meu cabelo era natural. Ainda em 2011, resolvi fazer tranas e foi a partir disso que comecei a me sentir linda. Mesmo quando eu tirava as tranas, no tinha vontade de parar de alisar, continuei alisando e fazia bastante babyliss.

Fiquei nesse processo at 2018, quando comecei a ver que muitas mulheres estavam assumindo o cabelo, mesmo assim isso no me abalava, no tinha vontade de assumir. Continuei alisando, no com tanta frequncia, mas mesmo assim alisava. Fui parando aos poucos para ir me adaptando porque com o cabelo liso eu sentia que estava me sabotando e, isso era muito errado. Porque apenas um cabelo, sabe? Sendo apenas um cabelo, voc pode experimentar diversas possibilidades com ele, at porque ele cresce, ele muda. E demorou muito para eu entender isso.

Um dia quando passei o produto para alisar, assim que eu tirei, meu cabelo caiu completamente e foi a pior fase da minha vida. Quando vi, meu cabelo estava todo estourado e machucado por causa da qumica. Percebi que estava cansada de maltratar meu cabelo e que precisava mudar. Fui em um cabeleireiro e enquanto ele cortava eu pensava: nossa, depois de mil anos estou assumindo de vez meu cabelo… e quando olhava no espelho, estranhava muito porque aquilo era tudo muito novo. Quando cheguei em casa eu dizia: gente, olha meu rosto, olha meu cabelo, pela primeira vez que lavo ele natural… ele lindo, olha esses cachinhos. E eu chorava muito, foi assim que decidi assumi-lo de vez.

Cada dia ele est de um jeito, no vou dizer que so s flores. Alisar meu cabelo nunca mais. Estou apaixonada por ele e foi a melhor coisa que eu fiz.

Mulheres, sintam-se confortveis. Perceba de verdade o que te agrada, o que te faz se sentir bem, se sentir bonita. Se uma trana enorme que voc vai se sentir bonita, faa. Se cabelo liso, faa. Se assumir seu cabelo, faa. No tenha medo.”


Ame seu cabelo, gaste tempo com ele e aprenda a cuidar dele.
Luciana Borba, 25 anos, trancista.

“Me lembro sempre quando minha me colocava minha cabea no meio dos joelhos e tranava meu cabelo e o da minha irm quando ramos crianas. Ela usava umas tiras que fazia com uns tecidos velhos para ficar diferente e parecer coisa de criana. Por volta dos 12 anos eu mesma comecei a cuidar do meu cabelo. Quando comecei a entrar na adolescncia estava na moda “pranchar” o cabelo, mas s a chapinha nunca deixou meus fios lisos por muito tempo que nem o das meninas da escola, ento comecei a alisar quimicamente em casa, eu mesma. Usei vrios alisantes. Na poca, o que eu podia fazer pra esticar meus fios, eu fazia! Um verdadeiro sacrifcio pelo dito “cabelo bom”.

O tratamento das pessoas mudou drasticamente comigo, porque mesmo todo quebrado ou com um corte qumico irregular, meu cabelo era liso e isso bastava. Alisei meus fios dos 13 aos 22 anos, e s a partir dos 17, quando comecei a trabalhar e podia frequentar sales de beleza, no fazia mais os processos em casa. Quando resolvi fazer a transio capilar, no comeo 2016, foi uma desconstruo grande, mas nada que me causou medo. Entender o processo me fez perder o medo. Assumir o cabelo no rpido que nem passar um produto que age em 40 minutos. Assisti alguns tutoriais no YouTube e vi que as mulheres faziam umas tranas com l, iguais s que minha me fazia com tiras e comecei a tranar meu cabelo de novo. Me apeguei s referncias que tinha e s fui!

Depois de um ano tranando meu cabelo, sem passar qumica, resolvi cortar a parte lisa dos fios e assumir meu black. Ele ainda era pequeno, no estava do tamanho que eu queria ainda, mas a sensao de que eu tinha me libertado de ANOS de priso num padro branco me fazia sentir a mulher mais livre do mundo!

Me sentia mais segura, minha personalidade era mais firme e estava no topo da minha cabea em forma de um mini black power. Comecei a ser mais notada pelas pessoas, melhorei at minha postura, por incrvel que parea. Hoje em dia, s eu cuido do meu cabelo. Uma dica para as mulheres que esto passando por esse processo: Ame seu cabelo, gaste tempo com ele e aprenda a cuidar dele.


Espero que esse amor que sinto por mim, todas possam sentir por si tambm.
Jlia Mendona Rocha, 19 anos, trabalha como modelo.

“Minha carequinha tem uma histria to intensa que s de lembrar bate a mesma felicidade que senti em 2016, quando raspei pela primeira vez. Foi um sentimento de liberdade, me senti diferente no mundo em que todos so iguais. Mudei o meu estilo de vida aps raspar, percebi que minha identidade ali estava sendo formada. Comeou em 2014 quando eu resolvi cortar tudo o que estava com qumica, para o crescimento ser mais gil e menos visto por mim. Fiz as tranas. Assim fui entendendo quem eu era, vi o quo linda ficava com cada mudana e fui aceitando a Jlia que eu ainda no conhecia.

Conheci novas pessoas, frequentei novos lugares e passei a viver para mim. Afinal, o amor prprio s depende de ns mesmos para ser vivido! O que eu tenho para dizer para quem tem vontade de fazer o mesmo : faa sem pensar nos outros. Tudo o que voc sonha em alcanar, s suas prprias pernas podem te fazer chegar. Conheci tantas verses do meu eu, que hoje, sou completamente apaixonada pela mulher que me tornei. Espero que esse amor que sinto por mim, todas possam sentir por si tambm.


“Hoje sou eu, nica e exclusiva para mim mesma.
Ana Caroline dos Santos, 22 anos, produtora de moda em uma agncia de modelos.

No comeo foi muito difcil lidar com o meu cabelo. Passar por transio capilar no muito fcil, voc no sabe como cuidar do seu cabelo e ao mesmo tempo no queria ficar careca. Eu no estava mais aguentando sempre aquele processo de alisamento, chapinha, progressiva e pensava: ‘porque no posso ser como todas as garotas, que tem seus cabelos naturais?’ Porm, a diferena era que elas tinham cabelo liso natural e o meu cabelo era crespo, mas por incrvel que parea eu gostava do meu cabelo natural. O problema no era esse e sim, enfrentar o preconceito da sociedade e os apelidinhos que colocavam em mim.

Lembro como se fosse hoje quando fui pela primeira vez para a escola a onde eu j estudava, com o meu cabelo black, foi horrvel. Voltei a usar chapinha, mas sempre que eu lavava o meu cabelo me olhava no espelho e via como o meu cabelo era lindo. Foi quando a minha me conversou comigo sobre tudo e resolvi enfrentar a sociedade e foi incrvel, me senti A PODEROSA. Hoje em dia o meu cabelo tudo para mim, mesmo s vezes a gente brigando, aquela coisa de amor e dio, a gente se ama. Ele minha coroa, minha personalidade, minha fora e identidade. Hoje sou eu, nica e exclusiva para mim mesma, posso ser quem eu quiser com o meu cabelo, posso deixar ele afro, com chapinha, liso, com trancinhas, com twist… tudo! Hoje eu sou liberdade.


Eu parabenizo todas as mulheres que pretendem entrar nessa luta e as que j passaram por ela.
Larissa Edy, 25 anos, trabalha com administrao, moda e produo.

Hoje posso dizer que estou muito satisfeita com meu cabelo. Cheguei num auge de saber lidar com ele perfeitamente. Ainda mais na questo de aceitao, a primeira coisa a se fazer saber manusear ele. O nosso cabelo faz parte da nossa identidade. A minha transio capilar no envolveu a qumica. A transio foi por causa do aplique, bom, hoje eu tenho todo tipo de cabelo…, mas obviamente assumindo o meu tambm. Eu consigo fazer vrias coisas com meu cabelo, so infinitas possibilidades.

Passar pela transio foi um processo muito dodo porque sou africana, vim para outro pas. Um pas que racista e foi bem complicado porque vim para c quando eu era adolescente, fiz o ensino mdio aqui. Minha me era cabeleireira, ela fazia todo tipo de cabelo e a ela me proibiu de alisar o cabelo at os 18 anos.

Minha autoestima foi melhorar quando eu coloquei o aplique, primeiro coloquei o liso e depois o ondulado, isso era no ensino mdio. Toda vez que eu tirava o aplique ou as tranas, eu me olhava no espelho e pensava: ‘como meu cabelo est lindo, esta enorme’. E a teve um dia que eu tomei coragem para assumir.

Nesse dia, falei comigo mesma que no iria colocar aplique e nem tranas, iria deixar ele natural, queria aprender a cuidar dele sozinha, a partir da eu me vi uma outra Larissa. Foi a que eu percebi que tinha a necessidade de amadurecer em relao dessa questo de aceitao, vi que de um jeito ou de outro eu tinha que aceitar meu cabelo daquele jeito, mesmo sempre usando apliques e tranas.

Quero dizer para todas as mulheres, que vocs so lindas, independente de como seu cabelo … E a primeira pessoa a reconhecer isso voc. A autoestima algo que vem de dentro para fora. O seu cabelo uma herana que voc tem de uma etnia maravilhosa, extensa de cultura.”


Jlia Mendona e Marina Menezes

O cabelo sua identidade, mas isso no quer dizer que voc no pode experimentar coisas novas nele. Diante desses depoimentos, temos toda a certeza do mundo de que voc pode experimentar infinitas coisas, desde que voc o trate bem e cuide-o. Seja livre. No tenha medo de testar o novo, v e faa. Seja liso, seja crespo, seja careca, cacheado… seja o que voc quiser.

ASSINE A NEWSLETTER

NÃO PERCA NENHUMA NOVIDADE DO NOVO PORTAL KONDZILLA!

O quê você
procura?