“Tudo que a gente faz na quebrada precisa ser visto”, diz o barbeiro Wesley Fernandes
Créditos: Reprodução: Jeff (@caodenado)
- Por Gabriela Ferreira

“Tudo que a gente faz na quebrada precisa ser visto”, diz o barbeiro Wesley Fernandes

Corte de cabelo não é só um corte de cabelo, além de ser uma forma de expressar o seu estilo e as suas ideias, o corte de cabelo ainda é uma expressão artística. Quem bate nessa tecla é o barbeiro Wesley Fernandes, que vem revolucionando cabeças lá em Sorocaba, interior de São Paulo. Se liga no papo:

Barbeiro há praticamente dez anos, Wesley Fernandes não se imaginava na profissão quando começou a cortar cabelo. “Comecei com essa ideia porque eu ia muito na barbearia. Como ela sempre tava cheia, eu ficava muito tempo esperando e observando os caras trampando. A curiosidade acabou surgindo”, conta ele.

A pulga atrás da orelha acabou virando uma profissão e Wesley aprendeu tudo com amigos: “Tive a oportunidade de trabalhar com alguns amigos e com vários caras. Aprender com gente boa é bem mais fácil. Fui aprendendo na prática com várias pessoas. No começo, ser barbeiro não era meu sonho, mas era uma coisa que eu gostava de fazer. Com o tempo, fui olhando e pensando ‘Isso aqui é pra mim. É isso que eu quero. Tenho que procurar ser o melhor pra mim”. 

Foto: Jeff (@caodenado)

Wesley conseguiu juntar a nova paixão com um velho amor: o do desenho. “Sempre gostei de desenhar. Quando comecei a cortar cabelo, quis colocar isso nos meus trampos. Mas o que mais me inspirou foi o tanto de gente falando que era perda de tempo porque, na época, o desenho era mais barato, você ficava horas fazendo um desenho pra ganhar R$ 15. Não valia a pena. Mas eu falava que ia fazer valer R$ 100, que ia lutar até meu trampo ser reconhecido. Quero que as pessoas reconheçam o trampo e saibam que isso também é arte”, conta o barbeiro. 

Foto: Jeff (@caodenado)

Se antes o trabalho do barbeiro não era valorizado, hoje a coisa já é diferente. Também vale ressaltar que muitos cortes chaves já conquistaram um público além do funk. “Teve uma época que o povo falava que era coisa de favelado. Agora muita gente de lugares tops vem pra favela fazer esse tipo de trampo. É daora porque é uma união. A gente começa a trazer uma galera pro nosso lado. Acho isso foda porque, querendo ou não, a gente começa a mudar o jeito de pensar das pessoas”, reflete Wesley. 

Com o tempo, o trabalho de Wesley foi chamando cada vez mais atenção. Em 2018, ele foi o primeiro a participar do projeto Chavosos, do fotógrafo Jeff. Depois, veio o primeiro trampo com a revista Made in Brazil.”Jamais imaginei que meu trabalho ia valer o que valeu. Na hora, pensei ‘tô ganhando um dinheiro pra fazer um trampo que os caras não pagam nem trinta reais pra mim na quebrada’. Foi super daora. Foi um incentivo”. 

Depois da revista, vieram vários outros trabalhos: com a Adidas e Batekoo, pro rapper Derek, para um videoclipe da cantora Duda Beat, e por aí vai. Mas, para o barbeiro, o reconhecimento é importante por um motivo maior: “Pra mim é importante mostrar que não estou fazendo isso só por mim. Quero ser reconhecido, mas mais pra poder mostrar que tem outros barbeiros fazendo isso também. Quero indicar o trabalho de outras pessoas. Quando me perguntam quem são minhas referências, sempre falo que são meus amigos: o Tele, o Diego, o Rhoan. Eles estão do meu lado me inspirando. A partir do momento que começam a me chamar de referência, tenho que fazer os caras serem reconhecidos também. Quero que todos sejam reconhecidos. Não quero deixar ninguém pra trás”. 

Para Wesley, a união entre os barbeiros é algo fundamental, principalmente, porque no começo da carreira, o hairstylist não via muito parceria entre os colegas de profissão. “Antes tinha muita rivalidade entre barbearias. Hoje os caras se abraçam, se precisar, eles usam a camisa um do outro. A gente sempre precisou um do outro”, enfatiza. 

Além de ter sido o primeiro a participar do projeto Chavosos, hoje Wesley é embaixador do trampo, que tem o intuito de mostrar a arte de quebrada, mas voltada para o cabelo.

“É uma parada que muita gente tem preconceito e a gente tá tentando mostrar que é arte, que o penteado que a gente faz na quebrada não é coisa de bandido. O que a gente faz na quebrada é arte Quem é que faz o que a gente faz na quebrada? Tudo que a gente faz na quebrada precisa ser visto”, conclui.

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