ONG Vida Corrida há 21 anos transforma vidas através do esporte no bairro do Capão Redondo, em São Paulo
Créditos: Karolyn Andrade
- Por Karolyn Andrade e Fernanda Souza

ONG Vida Corrida há 21 anos transforma vidas através do esporte no bairro do Capão Redondo, em São Paulo

Desde 1999, o Projeto Vida Corrida vem mudando a vida de mulheres e crianças do bairro do Capão Redondo através do esporte. A corrida de rua, futebol e outros esportes promovem a inclusão social, a saúde, a autoestima e a qualidade de vida de alguns moradores. Liderado voluntariamente por Neide Santos, que já contou sua história para nós, o projeto hoje conta com 740 integrantes. Chega mais no Portal KondZilla para conhecer por dentro a iniciativa premiada e patrocinada pela Nike. 

Com 21 anos de existência, a ONG nasceu despretensiosamente enquanto Neide corria com algumas mulheres da comunidade, como forma de proporcionar práticas sociais, para além do ideal social ultrapassado de serem apenas donas de casa. Além disso,  a organização viu a necessidade de ampliar seus ensinamentos para  crianças, mostrando que o esporte é um caminho para transformação, pois Neide perdeu um dos seus filhos por conta da violência que, segundo ela mesmo avalia, é gerada por fatores estruturais, bem como a falta de políticas públicas e incentivos aos jovens de quebrada. (Saiba mais sobre essa história no perfil dela).

Segunda, quarta e sexta são os dias que a ONG atende os grupos da comunidade, que  estão divididos por idade, a partir dos 6 anos, e também por modalidade esportiva. “A pessoa fica quanto tempo ela quiser, ou seja, sua passagem aqui é indeterminada. O Vida Corrida estará sempre de portas abertas’’, explica a fundadora.

‘’As meninas traziam seus irmãos. Nos meninos da periferia, também vi a necessidade de educar e dar uma oportunidade para além das que são oferecidas nas ruas.  Eu vi uma janela para começar a dialogar’’,  lembra Neide da ocasião em que expandiu as atividades. 

Inicialmente, a iniciativa foi criada para mulheres e meninas da comunidade, porém, com o passar do tempo, Neide teve a sensibilidade de abrir o projeto para todos, ou seja, meninos e homens também passaram a  frequentar. Além do mais, o carro chefe da Vida Corrida é o atletismo, principalmente a modalidade corrida, porém  o espaço se desdobrou para outros esportes, como o basquete, futebol, sobretudo feminino, e tênis. Aliás, a ideia do futebol femino partiu  das próprias meninas da ONG, que queriam ter o direito de praticar o esporte que muitos classificam como masculino.

A equipe da Vida Corrida é composta por coordenadores, professores e psicólogos. O atendimento psicológico é um suporte diferencial, já que a ONG entende que isso é fazer política pública. Como tudo é mantido? Por patrocínio, ou parcerias de iniciativas privadas, com as marcas Nike e o Boticário, por exemplo, que  investem para manter os funcionários, o espaço e claro roupas, tênis e materiais, que os esportistas precisam para desenvolver as práticas oferecidas.

Outra coisa muito importante e incrível que o projeto tem é a ‘’Rua de Brincar’’, que fica logo em frente à ONG. A via pública conta com pista de corrida para os grupos de atletismo, espaços para práticas recreativas, tabela de basquete e mini quadra de futebol.

Meninas da Vida Corrida mandam o papo reto

Para ampliar a visão do projeto, batemos um papo com algumas meninas, que comentaram a importância de estarem inseridas na iniciativa . Além disso,  elas levantam temas como machismo, problemas sociais e vivências de crescer na quebrada. Se liga!

Letícia Fernandes, 12 anos

Letícia Fernandes pratica corrida na ONG, que conheceu por conta de amigos na escola. Ela curte o projeto porque ajuda na sua saúde, já que a asma (doença respiratória crônica) está sendo melhor tratada para que consiga executar atividades físicas. Além disso, ela viu que ali tinha um espaço para meninas e seria respeitada. “É difícil praticar esporte na escola ou na rua porque sou mulher, aqui é possível. Lá fora, nunca nenhum menino me elogiou, mesmo eu sendo boa. Mas também eu não preciso da aprovação deles’’, desabafa.

Maria Fernanda, 12 anos

‘’Na rua, os meninos não deixavam eu jogar. Diziam que meu lugar não era ali (no campo). Ouvia também que eu era ‘maria macho’  ou tentavam definir minha sexualidade porque eu queria jogar bola. Isso magoava muito, pois na minha cabeça não tinha nada a ver. Hoje por conta do empoderamento que tive no projeto, sou jogadora e ainda vou me tornar uma Marta (maior futebolista brasileira) da vida’’, relata Maria Fernanda. Há três anos, ela começou no atletismo, mas hoje está no futebol. Maria viu a turma do futebol femenino começar com apenas 8 meninas, que, fora da ONG, eram questionadas por gostarem da modalidade.  

Amanda Sampaio, 16  anos

Parceira de Maria Fernanda, Amanda Sampaio, de 16 anos, também é apaixonada por futebol e entrou no projeto quando viu a divulgação  na página do facebook “Capão Atento”. Ela fazia parte de outra escola que tinha grupo misto, mas não se sentia bem, porque tinha pouca ou nenhuma liberdade pra exercer sua vocação. 

Um assunto importante que foi ressaltado pelas meninas é a falta de equidade nas oportunidades, salários e apoio para meninas e mulheres no futebol. Elas aprenderam com Neide, líder da ONG, que esse quadro precisa ser cobrado e mudado, e que as meninas são fundamentais para isso. “Um absurdo a Marta não ter patrocínio. Vi também no Instagram que ela é uma das maiores artilheiras que temos no país, ultrapassando recordes que foram atingidos por homens. Isso é muito errado, quero fazer parte dessa diferença”, questiona Amanda.

Maria Eduarda, 13 anos

‘’Olha, não é só no futebol que tem esse machismo. Na escola, os meninos também ficam me desafiando na corrida, dizendo que não sou ágil como eles porque sou mulher. Ah, nos outros esportes, né? Só os meninos jogam tudo, a gente só é escolhida pra queimada. Aqui, a Neide é nossa referência, aprendo muito com ela sobre meu papel e como me colocar. O esporte é pra nós também’’, dá a letra Maria Eduarda, sobre machismo que mulheres sofrem no futebol. 

Maria Julia,  14 anos

Maria Julia está no projeto praticando atletismo desde os 6 anos de idade, a adolescente chama atenção para  o triste fato de muitas meninas ou meninos, como ela nas periferias de São Paulo, não terem essa oportunidade de estar em um projeto e praticar esporte, pois na rua tem muita coisa errada. ‘’Eu tive a chance diferente até de pessoas da minha rua. O esporte aqui é mais desenvolvido do que nas escolas. Aqui também a gente aprende coisas sobre comportamento social, respeito, a ser cidadão.  Ao invés de estar largada, tenho incentivo’’, diz Maria Julia.

Neide Santos

Neide, que é inspiração para as meninas, reforça que o Projeto Vida Corrida não trata só do esporte: ele trata da cidadania, empoderamento, pensamento crítico e respeito. Na ONG, onde todos são reconhecidos pelo nome, há umaç espaço para reuniões e discussões semanais, onde assuntos de ordem social sempre estão em pauta. “Não gosto do termo igualdade, gosto do termo equidade e aqui isso é importante, respeito também. Formamos pessoas para a vida, aprendemos que não vamos puxar gatilho, dar na mesma moeda ou desrespeitar ninguém’’, diz a fundadora do projeto.

Ana Júlia Faria, 12 anos

‘’Vi uma reportagem sobre o Vida Corrida no jornal. Fiquei surpresa que era na minha região, daí minha mãe correu para levar no projeto. Eu desenvolvi um amor pelo atletismo. Ah, eu gosto muito de estar aqui. Sou escutada e aprendo muitas coisas, o melhor de tudo com muito respeito porque a Neide nos respeita. Nós também respeitamos todos aqui’’, conta Ana Julia. 

O relato de Ana reflete a opinião de todas as meninas, que  afirmam que o projeto ensina  para além do esporte.

O trabalho de projetos como a ONG Vida Corrida são fundamentais para crianças e adolescentes. Todo o processo nesta idade é determinante; a cultura, os esportes, a arte, são excelentes possibilidades para o desenvolvimento humano.  

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