Funkeiras, cheias de malandragem e lindas de natureza
Créditos: Isabelle Índia
- Por Gabriel Ferreira

Funkeiras, cheias de malandragem e lindas de natureza

Quer conhecer o fluxo? Deixa que elas mostram! O editorial “Essas São As Meninas Que os Meninos Gostam 011”, da multiartista Fernanda Souza, chega para desmistificar a ideia preconceituosa de que todas as funkeiras são iguais. O projeto traz seis modelos e seis estéticas diferentes para mostrar a pluralidade das minas. Pega a visão:

O editorial foi idealizado e dirigido por Fernanda Souza, jornalista, pesquisadora de funk, stylist e diretora criativa. O projeto presta uma homenagem aos diferentes tipos de minas de quebrada e foi inspirado na vivência da criadora. “Na minha adolescência, eu via muita rejeição por esses elementos. As pessoas não entendiam a nossa estética, a gente era zoado em rolezinho. Hoje, vejo pessoas que não fazem parte do movimento se apropriando desses elementos. Uma das coisas que me motivou, além da minha história, foram as modelos. Não precisei pegar pessoas aleatórias e vesti-las [com peças “do funk”], essa é a estética delas”, comenta Fernanda, sobre o desejo de desenvolver o projeto. 

Vitoria Guarnieri (@vitoriaguarnierisz)

Nos últimos tempos, os termos mandrake e mandraka caíram na boca do povo, mas se engana quem pensa que isso vem de agora. É fácil ver trends nas redes sociais em que as pessoas usam elementos do funk, como as correntes, os óculos, o risquinho, como adereços para uma fantasia estereotipada do que é ser funkeiro. Essa moda é extremamente preconceituosa porque além de usar uma cultura como fantasia e chacota, também cria um estereótipo. “A palavra mandraka virou um adjetivo, que no passado, era o chave, e antes de chave, o funkeiro. Mas dentro do funk, existe o estilo mandrake, que é a pessoa que usa mais Cyclone e corrente. Por conta dessas trends, se criou um estereótipo e todas as pessoas do funk começaram a ser associadas ao estilo mandrake”, explica Fernanda. 

Amanda Menezes (@amanda.menezes.18)

Essa trend também é responsável por acabar as vivências dos verdadeiros mandrakes, já que o que viraliza, são os desafios de pessoas usando a estética como fantasia. “Quando você joga a trend mandraka na search, aparece meninas brancas. Já vi pessoas de fora falarem que mandrake é coisa de branco e não, é um negócio que nasceu de favela, mas a trend faz com que mais meninas brancas apareçam na busca”, diz a criadora. “No editorial, a grande maioria das modelos são pretas para mostrar que as minas do funk também são pretas e apontar isso pro movimento também. No funk também tem racismo, as mais famosinhas são as branquinhas”, explica Fernanda.

Maria Aline (@_negona13)

Para exemplificar a diversidade de estilos entre as minas do funk, a criadora do editoral escolheu seis meninas, cada uma para representar uma entidade diferente dessa cultura. Vitória Guarnieri representa a mina lacosteira, Tay Medeiros representa a mina dos kits da Cyclone, Amanda Menezes e Maria Alice representam as minas que usam roupas consideradas “masculinas”, A Vitória de Paula representa as minas do Bonde da Oakley, e a Lorena Silper vem pra representar as minas que usam Planet. “Uma pessoa que usa Cyclone não é a mesma que usa Lacoste. Até pode usar, mas elas acabam usando mais Cyclone e são reconhecidas por isso. Por exemplo, a Vitória tem “Filha do René Lacoste [criador da marca] na bio do Instagram. A Tay é conhecida por vender Cyclone. A Menezes é novinha, tá começando a ser DJ de baile e não usa roupas “afeminadas”, ela usa conjuntos, roupas mais largas. Nem todas as meninas vão pro baile de roupa curta. A Lorena é a mina da roupa curta, que curte um lounge. A Nega [Maria Alice] usa camisa dos irmãos metralha, conjunto da cyclone, mas tem uma performance mais feminina”, diz Fernanda sobre a escolha das modelos. 

Tay Medeiros (@slk_medeiross)

O projeto, além de servir para mostrar para as pessoas da moda e das marcas que existem um nível de produção altíssimo dentro das quebradas, também vem para contar a história das mulheres do funk, as de hoje e as de antes. “O nome do editorial é uma homenagem a MC Menorzinha porque lembrei de uma vez, em 2010, que me arrumando pra Nitro Night, postei uma foto no Facebook com essa legenda ‘essas são as meninas que os meninos gostam’. Lembrei que eu amava ouvir essa música, várias minas amavam. Era como a gente se sentia: ‘chique, elegante da cabeça aos pés/ cheia de malandragem e lindas de natureza’. Por isso o editorial é um trampo além da moda, é história. Não é só sobre as minas de hoje, também é sobre as minas que estavam lá no começo do funk paulistano”. 

Lorena Silper (@lorenasilper)

Para Fernanda, a parte mais significativa foi poder empoderar as modelos, que além de terem se sentido lindas, também saíram do ensaio sabendo que era possível trabalhar com moda e audiovisual. “Foi um momento muito importante pra mim porque vi elas se sentindo bonitas. Quando elas estavam na frente das câmeras, ninguém falou pra elas tirarem o piercing, pra tirar a sobrancelha marcada, que o cílios era feia, pra não fazer tal coisa. Elas agiam como se elas estivessem no baile”, comenta. “Elas saíram de lá sabendo que esse tipo de trampo é uma possibilidade. Sinto que a gente tá movimentando a cultura, fazendo as coisas acontecerem de verdade. É um legado. Não vou continuar fazendo isso pra sempre, elas que vão continuar esse trabalho para que não sejam outras pessoas falando sobre nós e sim a gente falando sobre a gente mesmo”. 

Vitória de Paula (@dpaula_v011)

Editorial “ESSAS SÃO AS MENINAS QUE OS MENINO GOSTA 011”
Idealização, direção de arte, direção criativa e stylist: Fernanda Souza 
Captação, direção de fotografia, colorização e edição do Fashion Film, Teaser: Pétala Lopes 
Fotografia e foto still: Isabelle Índia 
Assistência de fotografia: Pedro Pradella 
Tratamento de imagem: Clara Canepa 
Beleza: Luciana Leite 
Assistência de beleza: Marina Moes 
Designer criativo: Mayra Martins 
Assistência de produção e backstage: Beatriz Lascasar 
Modelos e narrativas: Tay Medeiros, Vitoria Guarnieri, Lorena Silper, Amanda Menezes, Maria Alice, Vitória de Paula
Texto: Fernanda Souza 
Trilha Sonora: MC Menorzinha 

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