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FBC e Vhoor antecipam sobre o segundo volume do disco “Baile”

03.12.2021 | Por: Gabriela Ferreira

O “Baile”, disco conjunto de FBC e Vhoor, é um dos trampos do momento! Um dos singles do álbum, “Se Tá Solteira”, viralizou nas redes sociais, e não para de subir nas plataformas digitais. O trampo é uma homenagem à cultura de baile de Belo Horizonte e resgata o miami bass, gênero que era muito tocado no Baile da Vilarinho, um dos principais bailes da região norte de BH, lugar onde FBC e Vhoor cresceram. Para entender mais sobre as histórias por trás do disco, o Portal KondZilla trocou uma ideia com a dupla. Pega a visão:

O título “Baile – Uma Ópera Miami” não é por acaso. O álbum tem dez faixas que contam a história de uma comunidade que está sendo invadida por milicianos. Apesar do personagem principal dessa história ser o baile, três outros personagens são muito importantes: Pagode, Paulinho Falador e Jéssica. Ao longo das músicas, Pagode conhece Jéssica no baile e os dois começam a dançar juntos. Pagode vai preso por causa do Paulinho, que escondeu uma arma e ela foi achada pela polícia perto do Pagode. Fora da cadeia, Pagode encontra Jéssica dançando com outro no Baile. Depois, a milícia invade a comunidade.

“Baile” foi lançado dia 12 de novembro e conta com participações especiais de Uana, Mac Júlia, Djair Voz Capelinha, Mariana Cavanellas e Ferb. Com pouco tempo de lançamento do disco, FBC e Vhoor já estão preparando a continuação dessa história. Se liga no papo com a dupla:

KDZ: Como surgiu a ideia de trabalhar com o miami bass?
VHOOR: No meio do ano passado, a gente se trombou pro “Outro Rolê“, um EP de seis faixas que o FBC precisava entregar antes de ir pra europa gravar clipe pra todas essas faixas. Nessa convivência, chegamos nesse ponto comum porque eu e o FBC somos da mesma região de Belo Horizonte, da região norte, e o miami bass foi muito forte lá porque um dos principais bailes da cidade era de miami, o Baile da Vilarinho. Ele disse que frequentava e acabei falando que nós tínhamos que lançar um miami bass. Nessa brincadeira acabou saindo “De Kenner“, e com a repercussão dela, fomos fazendo outras coisas que foram encorpando até virar o “Baile”. 

FBC: Existem umas cinco ou seis músicas não lançadas que não são miami porque em algum momento do trampo, entendemos que tinha que ser miami bass, tinha que ser uma história sobre essa estética, a estética desse tempo. O miami conseguiu sobrepor o trampo que nós estávamos fazendo. Tinham coisas mais novas nesse álbum, que a gente chama de drill de BH. O que fazemos agora, eles chamam de miami bass, mas chamamos de Bêagá Bass, é a nossa assinatura na história da música. 

KDZ: FBC, em uma entrevista você disse que ficou meio relutante com o miami bass antes de lançar “De Kenner”. Como se sente hoje depois do lançamento do disco e ter visto como as coisas andaram?
FBC: Desses 18 anos tentando viver de música e hoje estar aqui, eu penso assim: “sou um MC belo-horizontino, que ao lado de um beatmaker belo-horizontino, fiz um gênero, que pra muitos morreu nos anos 1990, figurar entre o top 20 músicas virais do mundo”. É sucesso que a gente tem pra colher e viver. Seria injustiça minha falar que se a pessoa continuar tentando, vai dar certo. Vi muita gente que tentou e não deu certo, muita gente que fez sucesso e não deu certo. O que eu acredito mesmo é que dando certo ou não, mesmo se as proporções do sucesso não forem as mesmas, o importante é a história que a gente deixa. Hoje tenho uma música viral, mas aprendi com muita gente que teve menos que isso. Talvez a gente não alcance lugares extraordinários, mas a gente muda o pensamento de alguém que tá na nossa rua, que vai mudar o pensamento de outra pessoa que vai mudar o mundo. A mensagem que deixo para todos os artistas é isso, não pense que não faz diferença o lugar que você está, faz sim, a arte sempre vai fazer diferença. A música é um lugar de se surpreender e de se renovar. Trazer os nossos heróis e o que a gente viveu de perto é dar voz às pessoas que talvez não conseguiram chegar onde elas queriam chegar, mas elas fazem parte dessa história também. 

Foto: Rafael Barra

KDZ: Como vocês escolheram as participações do “Baile”?
VHOOR: Fomos vendo as pessoas, principalmente de BH, que combinavam com a proposta que nós queríamos passar com o disco, que nós conseguiríamos passar essa ideia da dramatização da parte lírica e de como essa pessoa ia soar nas músicas. 

FBC: É difícil, sabe? É um roteiro que existe e a gente tem que chegar pro ator que interpreta isso e falar “você vai fazer isso”. É uma loucura minha que o Vhoor comprou e que todo mundo acreditou e fez acontecer. Agora estamos pensando na segunda parte dessa história, que vai ser muito mais romântica, vai ser o lado mais visceral da favela, uma coisa que precisa soar como se alguém estivesse fazendo um barraco dentro do morro. É a continuação dessa história do Pagode, da Jessica e do Paulinho, mas com muito mais das vísceras da comunidade, das problemáticas do contexto em que eles estão. A gente quer continuar essa história, agora de uma forma diferente do miami, agora vem só com beat atabaque, funk proibidão, com bases de funk mais tradicionais. Vai ser um bagulho muito mais pra nós e pra galera do funk, do rap e das favelas.

KDZ: A experiência de compor pro “Baile” foi muito diferente?
FBC: É a primeira vez que escrevo uma ópera, em que as músicas estão dentro da mesma história. O Vhoor brincou e, ao meu ver, miami foi algo muito natural e fácil pra ele fazer. Ele se divertiu e o desafio foi todo meu. Hoje, o Vhoor é o melhor beatmaker, destaque do ano. A gente tem que ver até onde o beatmaker provoca o MC/cantor a ir em outros lugares, e nisso a gente trabalhou. Fomos com vontade de fazer, não tínhamos pretensão que o disco fosse estourar, lançamos porque é um bagulho que a gente gosta e acredita. A gente furou a bolha, pessoas de outros contextos estão promovendo a música, ajudando ela a ser viral no mundo.

Foto: Rafael Barra

KDZ: O que vocês estão pensando pra turnê do disco?
FBC: Uma coisa que está acontecendo é: as pessoas não querem o “Baile” do Vhoor, nem querem o “Baile” do FBC, elas querem o “Baile” do Vhoor e do FBC, sabe? Só que eu tenho um DJ, tenho uma equipe e uma história. O Vhoor também tem a equipe dele, ele é o DJ. Nós estamos tranquilos, mas os nossos produtores tão batendo cabeça. Isso é uma vaidade que eu controlo dentro da música. Envolve dinheiro, o Vhoor merece dinheiro, eu mereço dinheiro, a equipe dos dois merece dinheiro. Mas cara, nós não ficamos pensando nisso, só pensamos no próximo disco. Queremos estar no estúdio. O “Baile” não foi um grande desafio, não foi feito pensando nos trends, foi feito pensando no que a gente gosta. Não dependemos de selo, de cronograma, de data, nem de nenhuma influência externa. Vivemos da nossa música. Eu e o Vhoor fizemos uma música eletrônica de favela, feita longe de todos os recursos, figurar entre charts mundiais. 

VHOOR: É uma música eletrônica de subúrbio, de gente que não tem condição de fazer. Pegamos uma ideia e conseguimos executar ela mesmo com poucos recursos e com pouca visibilidade. Estudamos muito pra fazer esse álbum e pensar como ele poderia se encaixar melodicamente e liricamente. 

KDZ: Vocês fizeram um álbum super dançante no meio de uma pandemia. Foi intencional? Como foi esse processo pra vocês?
VHOOR: O “Baile” levou muito tempo pra ser feito. Paramos muitas vezes, muitas coisas aconteceram, mas sempre trabalhamos nele como uma obra prima. Minha mãe faleceu no meio do disco, teve essa loucura da pandemia. Nós fizemos um disco dançante no meio de uma pandemia, mas acho que conseguimos passar o que queríamos acima dessas confusões que a vida nos proporcionou. Conseguimos vencer. 

FBC: Vivemos essa época imaginando que isso ia passar e a galera ia precisar disso, ia precisar se encontrar e se reconhecer de novo, e a dança cumpre esse papel social da ressocialização pós-pandemia.. dançar igual, se vestir igual, cantar igual, se entender dentro de um movimento, de um contexto.. Existem contextos e contextos na rua e nós trazemos a cultura de baile de BH, que é se encontrar e dançar junto, fazer o passinho. Essa é a ideia principal do disco, o passinho de BH. Eu já tinha isso na cabeça desde o “Best Duo”, mas fui conhecendo outras pessoas, o Vhoor, os DJs do Baile Room, DJ Kingdom, DJ Kramer, Linguini.. Eles representam a vingança dos nerds que fazem música eletrônica de gueto. Hoje eu só penso nisso. 

VHOOR: Nesse momento de pandemia, vários lugares de show não conseguiram se manter foram fechando e essa cultura sofreu várias baixas. Aqui em BH, a principal casa de baile funk, que existe desde os anos 1980, está pronta pra fechar, que é o Baile da Vilarinho, que inclusive foi nossa principal referência. A gente quis dar um gás nessa cultura que moldou a gente como artista e ajudou a gente a ter autoestima de se reconhecer como artista e ver que a gente pode fazer som também. “Baile” é um trabalho sobre essas coisas. 

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