Eu fui pro Baile da Gaiola, por Melissa Santana

Juventude 07/12/2018

A experiência que tive ao conhecer o Baile da Gaiola talvez tenha sido única, afinal, sempre estive acostumada a ficar na minha zona de conforto em São Paulo e deixar tudo de lado para conhecer um local totalmente novo foi algo único. Me chamo Melissa, mas pode chamar de Mel, tenho 18 anos, sou jogadora de Ultimate Frisbee (um esporte com o disco que se joga sete pessoas contra sete) e Rugby pelo time Leoas de Paraisópolis. Estive no Rio por conta do esporte e aproveitei pra curtir esse tal falado baile. Se você também curiosidade pra saber, acompanha como foi.

Quase esquecendo a melhor parte, sou moradora da comunidade de Paraisópolis, onde existe o melhor baile de São Paulo, o Baile da DZ7, e se já conheço o melhor, quis conhecer o mais famoso: O Baile da Gaiola.

De início, meu objetivo era ir pro Rio de Janeiro pra disputar um jogo realizado no bairro de Copacabana. Então pensei: por que não ir ao Baile da Gaiola?! Convidei alguns dos meus amigos que iriam participar do torneio, recebi alguns ‘talvez’ e outros confirmaram. Ao chegar no Rio, perguntei ao motorista como era a Penha [bairro onde acontece o Baile da Gaiola] e ele me disse ‘que era um bairro perigoso e que se eu estivesse pensando em ir ao baile era pra eu desistir’. Achei curioso. Por fim, ao chegar na casa do meu amigo, ele também confirmou o que o motorista já tinha falado ‘que é perigoso mesmo’.

Embora meus amigos tenham se sentido intimidados com esses relatos, a minha vontade de conhecer a Gaiola crescia cada vez mais. Logo ao amanhecer do sábado, minha empolgação estava contagiante, como se houvessem borboletas em meu estômago. A hora não passava e essa ansiedade só aumentava. Quando anoiteceu, fui ao morro da Babilônia, onde tem o melhor lanche e strogonoff do Rio de Janeiro e aproveitei para curtir um samba.

A noite era uma criança e eu só queria brincar. Mesmo com as respostas negativas dos meus colegas, coloquei o endereço do baile no GPS e fui dar as caras, afinal quem tem boca vai à Roma e eu queria ir ao Baile da Gaiola. O ônibus que eu peguei para ir pro baile parecia que nunca chegaria ao seu destino, era o “Expresso Penha”, que fez uma viagem de 1h 40min até chegar a Penha. No meio do caminho, fiz amizade com uma menina moradora do Rio que amava ir para lá, mas por estar grávida ela evitava frequentar esses lugares no momento.

Quando resolvo saltar no ponto final do ônibus, ando mais de 1 km até chegar ao meu destino, o famoso ‘Baile da Gaiola’. Chegando lá, a primeira coisa que eu reparo é nas vendas. Os próprios moradores trabalham no baile, eles ficam vendendo copos, bebidas ou cobrando o uso do banheiro que custa R$2 (então não se esqueça, se você for a Gaiola, leve seus dois reais porque o uso do beco não é permitido).

Se aproximando cada vez mais do baile, vejo que tem algumas grades (aquelas grades de fila de espera para show) como se eu fosse entrar num local fechado. Passando por elas começam a venda de bebidas em barraca maiores. Noto que não tem Jack, Askov, Cavalo Branco, Vibe, muito menos gelo de maracujá (bebidas famosas nos fluxo de SP). Aparentemente o whisky mais vendido lá era o Ballantine’s e a vodka era Smirnoff. Bom destacar também que os preços são mais baratos do que aqui em São Paulo.

Reparei que as pessoas que frequentavam o baile se vestiam diferente do que as pessoas que frequentam o “Baile da Cachaçaria”, em Paraisópolis, por exemplo. As meninas usavam salto, vestido longo e pouca roupa de marca visualmente, assim como os meninos. A dança dos homens era diferente, era uma mistura NGKS com algo que eu nunca tinha visto, já as meninas dançavam igual como nós dançamos aqui.

O beat era feito na hora, afinal tinha vários DJs tocando no dia, algo diferente do baile de São Paulo que os remixes já estão prontos. Estava muito cheio, mas dava pra caminhar tranquilamente. As músicas que passavam lá eram apenas do Rio, não passou nenhuma música de São Paulo enquanto eu estava lá.

Quando havia baixado a sensação de ser turista e o álcool subiu pra mente, eu me sentia como o Acerola de Cidade de Deus: me acabando. Eu só queria beber whisky com gelo de coco e dançar com o copo na mão. Mesmo que carregue comigo aquele sentimento que toda mina de quebrada carrega de ser a sensação no baile, a minha vibe era tão boa que eu só queria encher a cara e esquecer todo o resto. Eram 8h da manhã e o funk estava estralando ainda.

A maneira que fui recepcionada era acolhedora, embora grande parte não acreditava que eu era paulista. Talvez eu não tivesse me sentido estranha porque haviam diversas caravanas com pessoas que estavam lá com o mesmo intuito que eu: curtir o Baile da Gaiola.

O rolê acabaria às 16h da tarde porque iria acontecer a “Festa da Espuma” no mesmo local. Infelizmente eu precisei sair mais cedo porque precisava ir jogar, mas, assim que sai do baile eu já senti o gostinho de quero mais.


*Eu, Melissa

Embora eu tenha conhecido diversos bailes como: Heliópolis (SP), Paraisópolis (SP), Jaqueline (SP), Alemão (RJ) e até o Jacaré (RJ) etc. Nenhum irá conseguir substituir o prazer que eu tive de conhecer o baile da gaiola, me senti como se eu estivesse na Disney e após ter essa sensação mesmo que eu continue indo para bailes diferentes, nenhum irá substituir a minha vontade de ir novamente para o baile da Gaiola.

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