Comportamento

Cyclone e o original surf de quebrada: ascensão, consumo e criminalização da marca

03.09.2021 | Por: Rayne Oliveira
Cyclone Crédito: Rayne Oliveira Cyclone Crédito: Rayne Oliveira

O editorial produzido pela equipe Embrazado, com um apoio da Petrobras Cultural, propõe mostrar como a democratização do consumo, se intensificou após o surgimento do funk ostentação e os rolezinhos, que surgiram entre 2013 e 2014, onde os jovens se reuniam para socializar e ostentar seus kits mais chaves, como da Cyclone. Cola no Portal KondZilla, para saber um pouco mais sobre essa história.

Créditos: Marlon Diego
Créditos: Marlon Diego

Criada em 1984, através de uma parceria entre os empresários Mauro Taubman, Luiz de Freitas – que inclusive possuíam um histórico de parceria quando eram donos da grife Company, que virou moda entre os cariocas de 1973 – e o surfista Roberto Valério, a marca que até então tinha o intuito de representar os surfistas brasileiros, criou raizes muito além e se espalhou entre lugares poucos frequentados pela alta classe da zona sul carioca.

Como já foi retrado no editorial “Tropa da Lacoste”, o que leva os jovens a consumir marcas como Oakley, Mizuno, Lacoste e Cyclone, é a forte ostentação que o funk impulsionou, porém a marca de street surf está no gosto da massa funkeira muito antes do surgimento do funk ostentação.

Créditos: Rayne Oliveira
Créditos: Rayne Oliveira

Antes da Cyclone chegar em São Paulo, em Salvador, Pernambuco, Recife e Olinda, a marca já surfava entre os jovens de periferia de 95 e 2000 e inclusive chegou a ser tema de música. O MC Leozinho lançou para galera ‘O Rap da Cyclone’ e conta em um mini documentário produzido sobre sua vida e carreira musical, já que as rádios pernambucanas e recifenses, tocavam muito funk carioca.

Leozinho precisava cantar algo que todos se identificassem, como a marca já estava sendo utilizada, não tinha forma melhor de representar todo mundo, sem ofender ninguém ou ficar de um lado só.

“Antigamente tinha os bailes de corredores, cada um tinha sua galera, a gente via os bailes cariocas e trazia para cá. Como o funk começou por ali, a gente adaptava para nossa vivência”, conta MC Feru

O funk tem em si muitas vertentes, bregafunk, funk ostentação, funk consciente e claro que os bailes também formaram as suas, com os bailes de comunidade, bailes de corredores, bailes de rua e os fluxos.

Movimento do funk e o envolvimento de marcas, como Cyclone

Em seus primeiros anos de existência, o funk no Rio de Janeiro possuía poucos MCs, eles mesmos entram em cena somente no fim dos anos 80, cantando músicas em português. O baile funk nessa época tem como inspiração os “bailes da pesada” do Movimento Black Rio que aconteciam nos anos 1970 no Canecão, com seus dançarinos usando seus cabelos afros, símbolo do estilo e orgulho negro, ideia que foi disseminada pelo movimento afro-americano. 

Os bailes da pesada deixaram de acontecer no Canecão quando a casa passou a ser considerada o palco nobre da MPB, sendo transferido para os subúrbios, o que faz com que o funk em 1990 se torne cada vez mais popular, multiplicando-se os números de bailes. Com essa expansão, cresce também o racismo na forma de preconceito musical. Se nos anos 1980 o funk está vinculado aos cadernos de cultura e comportamento, ele passa a ocupar os cadernos policiais.

Um acontecimento que marcou essa imagem do funkeiro foram os arrastões, esse termo foi algo nomeado pela mídia, após uma suposta “invasão” em uma das praias mais famosas do Rio de Janeiro, que segundo os jornais, os jovens que estavam no local, foram somente com o intuito de saquear os banhistas de classe média.

Créditos: Rayne Oliveira

Como boa parte das favelas eram e ainda são afastadas dos centros das grandes cidades, os jovens viam nos bailes de comunidade ou os de corredores, uma forma de se distrair. Com a mídia nomeando os “arrastões” nas praias famosas do RJ, a imagem da juventude ficou ligada a violência, criminalização, pobreza e os funkeiros foram apresentados como inimigos.

Feru, 39 anos, descreve que quando a polícia via os meninos todos de Cyclone, já sabiam que eram funkeiros. Com a imagem da massa funkeira ligada a marginalização e criminalidade, foi criada em 1995, a CPI municipal do funk, que tinha como objetivo investigar a suposta ligação do funk com o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, e resultou na proibição dos bailes.

Com a mídia reforçando essa imagem, os bailes de corredores foram entrando em declínio. Assim como o funk foi criminalizado, a capoeira, que mistura luta e dança, também sofreu criminalização no código de 1890 ou seja, o Estado tem um único alvo: Favela.

Créditos: Rayne Oliveira

Na década 90, a capital de SP possuia forte presença do rap, com isso através da área litorânea, Baixada Santista, que o funk viu uma entrada para ocupar espaço na cena musical paulistana. Começou então a surgir alguns MCs da Baixada Santista, como, Jorginho e Daniel. O sucesso do estilo musical começa a tomar espaço na capital, principalmente em bairros da Cidade Tiradentes.

Após a subprefeitura da região da Cidade Tiradentes, promover o 1° festival de funk canta Tiradentes, buscando promover uma música no qual as letras não tivessem violência e sexo, surgiu um subgênero que tem como foco o consumo: o funk ostentação.

“A gente trabalha muito para comprar essa roupa, isso é uma questão muito maior do que ostentação, é conquista”, revela Matheus, morador da zona oeste de São Paulo.

Seja nos bailes para tirar um lazer ou no dia a dia na correria de São Paulo, Matheus sempre está trajado:”Eu sinto quando as pessoas olham na rua, tem gente que acha feio, policial já fica pousado, mas enquanto eles tiram as próprias conclusões, mal sabem que atrás dos panos que eles acham feio, tem um cara que estuda, trabalha, tem planos para o futuro.”

Créditos: Rayne Oliveira

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