Criminalizar o funk não é a solução, é o problema

Autor: Renata Prado

Fotos por: Matias Maxx

Matérias | 12/04/2019 17:38:59

Anexo faltante

Associação ao tráfico, envolvimento com o crime organizado, apologia ao crime e às drogas são argumentos historicamente utilizados pelo estado para prender funkeiros. Uma citação recorrente é que a Secretaria que cuida do funk é a de segurança pública e não a de cultura. O que está acontecendo com um dos principais DJ’s da atualidade, o DJ Rennan da Penha, não é novidade no movimento. Ele não é o primeiro artista a ser perseguido e infelizmente não será o último. A convite do Portal KondZilla, vou contar um pouco mais dessa (triste) história de prisão de artistas.

Em Dezembro de 1999, o produtor Rômulo Costa, responsável pela famosa equipe de som do Rio de Janeiro, a tradicional Furacão 2000, foi acusado de associação ao tráfico de drogas e aliciação de menores. Na época da prisão de Rômulo, a equipe Furacão 2000 estava no auge de sua fama, assim como o Baile da Gaiola se encontra atualmente. Mas o que Rômulo e Rennan têm em comum além da fama e a paixão pelo funk? Esses dois sujeitos carregam o talento de mobilizar a massa funkeira com objetivo de promover cultura de favela, além da dignidade em trabalhar de forma honesta.

No mesmo ano que Rômulo Costa foi detido, Mc Sapão também foi preso sob alegação de associação ao tráfico de drogas, depois de oito meses encarcerado, teve sua liberdade de volta por falta de provas.


*Equipe Furacão 2000 – Caio Humb // Portal KondZilla

Outro caso de prisão de artistas do funk aconteceu em 2010: Mc Ticão, Mc Frank e Mc Smith foram presos acusados de promover apologia ao crime e associação ao tráfico de drogas (mesmas incriminações, nas quais, Rennan, Rômulo e Mc Sapão foram acusados).

É estranho observar como todo assunto que a mídia envolve a favela, o crime parece estar por perto. No dia 31 de Março de 2019, o programa Fantástico, da Rede Globo, apresentou uma matéria extremamente tendenciosa sobre o caso do Rennan da Penha.

Rennan não carrega à toa o sobrenome da sua quebrada. Ele se orgulha de carregar suas origens em seu nome artístico e se orgulha mais ainda de manter a amizade com todos os moradores da favela, sem discriminação. A pior coisa que um artista “cria de favela” pode fazer depois de alcançar o sucesso é negar suas origens e ignorar a sua comunidade, e claramente Rennan da Penha não age assim com ninguém, nem mesmo com os jovens rotulados como traficantes pela mídia.


*Casa cheia pra receber o DJ Rennan da Penha – Jeferson Delgado // Portal KondZilla

Rennan da Penha está sendo indiciado como “olheiro do tráfico” pelo fato dele ter enviado mensagens via WhatsApp informando a chegada da PM na comunidade. Assim como qualquer morador, o DJ tem motivos de sobra para enviar mensagens com esse tipo de informação. Nos últimos meses o Baile da Gaiola se tornou alvo da operação militar e, em uma das últimas operação que a PM realizou no Baile da Gaiola, 4 moradores ficaram feridos por armas de fogo. Nenhum traficante foi preso e não houve conflito armado entre PM’s e traficantes.

Para além do risco de vida nos quais os moradores ficam expostos quando esse tipo de operação truculenta acontece, a intervenção da PM em baile funk põe em risco o trabalho dos Dj’s e produtores de equipe de som, pois muitos Dj’s e produtores já perderam equipamentos de som em operações militares que são coordenadas com o objetivo de quebrar equipamento de som com a finalidade de exterminar a estrutura sonora das festas realizada em comunidades. A partir dessas informações podemos compreender o porquê Rennan da Penha fica em estado de alerta, enviando mensagens para grupos de WhatsApp e informando a chegada da PM na comunidade. Compreensível a atitude dele, não?

Por mais que a mídia e o sistema jurídico tentem convencer a população de que a situação do Dj Rennan da Penha e a proibição do Baile da Gaiola seja parte do plano de operação contra o crime organizado, a massa funkeira tem a plena consciência de que esse repressão toda não passa de uma prática de criminalização da cultura do funk, prática esta que enfrentamos historicamente.


*A Dança do Passinho – Patrimônio Imaterial do Rio de Janeiro – Matias Maxx // Portal KondZilla

Se o combate ao narcotráfico trabalhasse em extinguir festas que fortalecem a venda de drogas, o sistema judicial brasileiro determinaria a extinção das festas rave que acontecem pelo Brasil, ou talvez das cervejas de faculdade. Todas são festas jovens com consumo de drogas.

Quando acontece operações de combate às drogas realizadas em raves para prender traficantes, a polícia cria um esquema de segurança para realizar a apreensão dos meliantes sem gerar nenhum tipo de conflito que prejudique a realização do evento, as autoridades não quebram os equipamentos de som, não acontece “troca de tiros” com os traficantes, nenhum artistas é associado ao tráfico sem provas concretas, não tem policiamento ostensivo na porta da rave reprimindo os frequentadores do evento. Enfim, simplesmente não existe a violência que encontramos nas operações militares que acontecem nos bailes funk de favela. Por que quando muda a festa e o público a atitude muda?

Se os bailes funks incomodam as autoridades, o caminho é investir em políticas públicas para tratar o funk como cultura, além de oferecer estrutura para a promover o lazer nas favelas, garantindo o acesso a cultura para a comunidade exercer suas práticas culturais com respeito e dignidade.


*Baile da Gaiola edição LGBT – Jeferson Delgado // Portal KondZilla

Embora o funk já tenha alcançado grandes conquistas na área da política, ainda sim o governo tem dificuldades de encarar o funk como cultura. Verônica Costa, uma das precursoras do movimento funk no Brasil, conhecida como Mãe Loira, que segue no seu 5º mandato como vereadora no Rio de Janeiro, apresentou um projeto de lei em 2017 para a Câmara dos Vereadores que trata a Dança do Passinho como Patrimônio Cultural Imaterial do povo carioca, representando um gênero de dança característico dos bailes funk da cidade do Rio de Janeiro. Além da Mãe Loira, a Vereadora Marielle Franco, que foi assassinada em março de 2018, apresentou um projeto que tinha como pauta o funk intitulado Programa de Desenvolvimento Cultural do Funk Tradicional Carioca, com o objetivo de fomentar e incentivar a produção artística de músicas, danças, livros, audiovisual, fotográfica, moda, entre outras vertentes artísticas, para promover o desenvolvimento socioeconômico e territorial do funk na cidade do Rio. Marielle, que foi dançarina de funk da Equipe Furacão aos 14 anos, era amiga de Verônica Costa e juntas conseguiram emplacar leis para colocar o funk dentro das esferas políticas.


*Mãe Loira do Funk sendo recebida de volta a equipe Furacão 2000 – Caio Humb // Portal KondZilla

Se as leis no Brasil fossem levadas a sério, o Estado daria conta de regularizar os bailes funk de comunidade, pois segundo o projeto de Marielle, a cultura do funk precisa ser impulsionada e não censurada e criminalizada da forma que está acontecendo nos dias de hoje.

Ao mudar a realidade dos moradores de favela, consequentemente, a narrativa musical dos MC’s irá se alterar, pois naturalmente todo artista canta a realidade do lugar que se vive. Se o conteúdo das músicas dos MCs incomoda a sociedade, significa que o governo precisa investir mais na vida do favelado para então a realidade mudar e consequentemente o enredo da música ser outro. Se você se incomoda com o que está ouvindo sem se incomodar com a situação de quem está vivendo tudo que está sendo cantado, definitivamente o problema não está na música, o problema não está no funk.

#FunkNãoÉcrime #FunkÉcultura #DigaNãoAcriminalizaçãoDoFunk

Por Renata Prado

Renata Prado é pedagoga, dançarina de funk, pesquisadora de funk e idealizadora da primeira organização político-feminista do funk, a Frente Nacional de Mulheres do Funk.

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