Um chavoso na universidade pública

Autor: Jeferson Delgado

Fotos por: Jeferson Delgado

Comportamento | 24/04/2019 16:00:23

Anexo faltante

Já sabemos que a educação brasileira não é das melhores. Um ranking referente a educação feito em 2017 analisou 36 países e mostrou que o Brasil fica em penúltimo lugar quando o assunto é ensino de qualidade. Quando falamos sobre educação na periferia, o negócio fica mais complicado ainda, mas tem uma galera querendo quebrar esse paradigma, e Thiago Torres, 19, é um deles. Cria da Brasilândia, o jovem conseguiu vencer alguns obstáculos e ingressou na universidade mais concorrida do país: a Universidade São Paulo (USP). Ele contou mais sobre sua trajetória pro Portal KondZilla. Se liga.

A ingressão no ensino superior público pode ser feita de duas maneiras: através do vestibular próprio aplicado pela universidade, que é a forma mais concorrida, ou o ingresso pelo Enem para alguns cursos. Em São Paulo, algumas das faculdades que aceitam esse formato de ingresso são USP, UFABC, UFSCar, Unesp, Unicamp, Unifesp, e assim vai. Esse formato é visto por alguns como uma forma mais democrática para concorrer a uma vaga na universidade desejada. Em 2015, a USP adotou o Enem como forma de ingresso para os jovens graduarem na universidade, o que deixou muita gente feliz. O motivo?! Posso te apresentar dois: o primeiro é que a USP segue eleita a melhor universidade brasileira da América Latina, e o segundo tem gancho direto com isso: com a USP aceitando o Enem como vestibular, os alunos de escola pública podem ter mais chances de entrar nela.

Há quem diga que não houve melhoria no quesito de pessoas de periferia ingressando a faculdade, seja atráves das cotas raciais, que foram aderidas em 2017, ou até mesmo com Enem, que citei acima. Então hoje o Portal KondZilla traz um exemplo de superação e persistência. Thiago Torres foi uma dessas pessoas que conseguiram acessar a faculdade apesar dos desafios do dia a dia.

Morador da periferia de Guarulhos, mas criado nos becos e vielas da Brasilândia, Thiago sempre foi um aluno exemplar. “A culpa é do meu pai. Ele sempre viu os estudos como forma de ascensão social, então eu sempre tive essa pretensão de fazer faculdade, só não sabia como, se ia ser pagando ou de graça”. A descoberta de Thiago em relação ao ensino gratuito foi com os professores na escola, ainda no ensino fundamental.

Com a chegada do ensino médio, o jovem acabou descobrindo outra forma de aprimorar seus conhecimentos para entrar na universidade: o cursinho comunitário pré-vestibular que existia na sua quebrada, o GEVA, que visa dar apoio aos estudantes de baixa renda que querem ingressar em alguma universidade, e assim ele seguiu nos estudos, revezando com o trampo durante semana e por conta própria nos fins de semana.

Em 2017, o jovem prestou o Enem visando entrar na Universidade de São Paulo, e na primeira tentativa Thiago conseguiu ingressar no curso de Ciências Sociais. “O que me salvou foi minha redação. Eu tirei 920, então somou bastante na minhas outras notas. Graças à Deus”. Apesar da realização gigante, o estudante sentiu grandes diferenças desde o início. “Fiquei sem acreditar, demorou muito tempo pra ficha cair, até por que eu não tinha a noção concreta do que é a USP, eu nunca tinha vindo aqui, de Guarulhos pra cá é longe demais”.

Recentemente, Thiago postou um texto em seu Facebook falando sobre a diferenças entre os mundos, a sua quebrada e a universidade. O texto viralizou tanto que hoje está com mais de 14 mil compartilhamentos. No famoso ‘textão de facebook’, o jovem traz experiências dos mundos onde ele vive diariamente, sua quebrada e a universidade, e acredite, são mundos extremamente diferentes. “Muita gente pegou meu post pra me fazer de exemplo para meritocracia, mas não basta apenas se esforçar, tem muita coisa que faz diferença no caminho”, comenta ele. “Quem nasce com grana tem dezenas de privilégios na nossa frente, aqui a grande maioria nem precisa trabalhar, apenas focam nos estudos”.

Thiago apesar de estar entre dois mundos não mudou sua forma de se vestir para entrar na universidade não. Com um óculos da Oakley, camiseta de time, bermuda e boné da Cyclone, o jovem se destaca por todos lugares que passa no campus da universidade, localizado no Butantã, Zona Oeste de São Paulo.

Quando perguntei sobre como é ser chave de quebradinha e estar num ambiente daquele, ele comenta que já passou por algumas situações ruins.“São muitos olhares tortos. No ônibus que pego pra entrar aqui, a galera acha que vou assaltar, até nos corredores rola risadas, deboches e piadinhas, sem contar que o pessoal geralmente subestima minha inteligência pela minha forma de se vestir. Eles me explicam coisas óbvias”.

Sendo de origem periférica e representante do movimento LGBT, o jovem sonha em ser inspiração para a galera que está vindo. “Manter essa graduação já é um grande desafio. Hoje quero me formar e assim que terminar quero dar aula, ser professor de Sociologia da escola pública de quebrada pra continuar o trabalho de dialogar com os meus”.

“Se não houvesse universidade pública, eu não estaria graduando porque não tenho como pagar”, confessa ele. Thiago sempre gostou da sua trajetória e agora colocou como missão de vida. “Assim como eu tive professores que me incentivaram, quero ser incentivo para outros alunos, e mostrar que existem outros caminhos e que não se perde estudando”. O cria da zona norte segue seus desafios entre os dois mundos: a periferia e a universidade, contando dinheiro pra passagem, lendo livros de outros séculos no transporte público e quando sobra tempo aquele raspão em algum baile de favela. Essa é a correria de Thiago Torres.

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