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Brasilidades e funk: Nebulosa Selo e Cores no Destroço constroem novo cenário na quebrada

01.03.2022 | Por: Carolina Matias

No extremo da zona sul de São Paulo tem uma galera querendo fazer a diferença! Dois coletivos compostos por jovens da periferia estão produzindo música e arte de forma independente: a Nebulosa Selo e a Cores no Destroço. Com referências do funk, mas também dos ritmos da música brasileira, eles seguem motivados pela construção de um cenário mais consciente para a cultura da quebrada. Cola na KondZilla!

Nebulosa Selo

A Nebulosa Selo é uma gravadora e produtora independente e é a continuidade das músicas pretas brasileiras, como o funk, o rap, o samba e a música popular, além de colocar pra cima todas as potências da periferia.

Coletivo Nebulosa Selo
Imagem:  Lucas Lourenço (@lukknha)

Um dos artistas da Nebulosa Selo, o Artelheiro, explica o que é a produtora: “A Nebulosa Selo é uma gravadora e produtora independente que vem dar continuidade às musicalidades pretas brasileiras como o funk, o samba e suas diversas expressões; um singelo selo que nasce da explosão de uma estrela na mente e no coração do compositor e produtor musical Levi Keniata (licença, mestre!). Para os desavisados, é importante explanar que depois da explosão de uma estrela, o meio interestelar fica com uma pá de elementos químicos que farão parte das nuvens gasosas que formarão uma nova geração de estrelas e planetas”. 

Junto com Levi Keniata, o gestor cultural Wellison Freire, formaram a Nebulosa Selo. Mas toda a ideia da produtora se deu de forma coletiva, juntando artistas de diferentes regiões, ideias, vivências e sonhos.

o gestor cultural Wellison Freire
Imagem: Reprodução

Wellison é do Jardim Apurá, bairro que fica na Pedreira, extremo da Zona Sul de São Paulo. Ele é formado em Administração Pública pela FGV-EAESP e atua há mais de quatro anos de forma independente com gestão e produção cultural na periferia da cidade de São Paulo. Seu papel na produtora é somar e fazer acontecer. No começo, ele produzia o MC Marabu, que frequentava saraus na cidade e nisso, conheceram o músico Levi Keniata.

Wellison conta do seu reencontro com o funk: “A gente tinha uma caminhada forte no funk e queria fazer algo com o rap, porque o funk fazia parte da nossa vida mas a gente não via muita perspectiva de trabalhar com ele. Quando a gente encontrou o Levi, a gente descobriu que sim, o funk é o caminho, principalmente na ideia de trazer essa outra perspectiva, enquanto música brasileira, o funk enquanto música de macumba.”

Produção de funk na quebrada

Além disso, ele reforça a importância da produção do funk na quebrada enquanto fomento, para que consiga dialogar com diferentes nichos culturais. Para ele, o funk segue restrito à indústria e existem poucas produtoras que realmente oferecem apoio. “Então, o nosso trabalho é conseguir dialogar com o mercado, conseguir colocar o pé e falar, olha, tem outra pessoa produzindo funk, de outra forma, colocando referências da música brasileira e ao mesmo tempo fomentando a quebrada, os produtores e os novos MCs”, disse.

A Nebulosa Selo é uma gravadora e produtora independente e é a continuidade das músicas pretas brasileiras, como o funk, o rap, o samba, a música popular e os terreiros. No final de 2020, eles lançaram o clipe “Prata”, gravado no Jardim Apurá, do músico Levi Keniata com Artelheiro e Marabu.

Durante a pandemia, o coletivo teve a ideia de gravar um disco colaborativo chamado “Células”, que contou com a participação de diversos artistas de São Paulo.

Wellison cita a parceria com outros coletivos, como a Cores Nos Destroços, no Jardim Apurá: “A parada é que acaba tendo um intercâmbio muito forte com os meninos da CND, do Apurá, que o Artelheiro faz parte. Acho que a troca mais importante pra quebrada é a movimentação desses coletivos, tanto da Nebulosa quanto da CND, porque a gente sabe que a cultura se dá a partir dos encontros e trazer visibilidade para nossa região, a Pedreira e Apurá, porque tem poucas coisas acontecendo”.

O MC Artelheiro, 24, já citado acima, também é do Jardim Apurá. Ele é um MC que “une a melancolia do samba, as batidas swingadas do funk e as denúncias do rap”. Seu som é subversivo e as letras falam da autoestima da população negra e das realidades da quebrada, trazendo cor para o cinza que assola a realidade de muitas pessoas. E como ele mesmo diz “o Artelheiro é uma composição poética-subversiva feita por mim e pelo coletivo Cores nos Destroços (CND)”. O coletivo é composto por moradores e artistas do Jardim Apurá.

MC Artelheiro
Imagem:  Lucas Lourenço (@lukknha)

A “quebrada ilhada chamada Jardim Apurá” 

Jardim Apurá é uma quebrada cercada pela represa Billings, localizada no distrito de Pedreira, São Paulo. O bairro é uma região manancial composta por muito verde e por um parque nos arredores, o Parque dos Búfalos. O parque conta com uma área gigantesca que oferece lazer e diversão para a população local. No entanto, houve uma reintegração de posse, e nisso foram construídos mais de 200 prédios residenciais para alojar essas pessoas e mais um grupo de outros bairros. Infelizmente não foi oferecido nenhum retorno estrutural através de políticas públicas voltadas à população, como a construção de escolas, creches, UBS’s, espaços culturais e nem a ampliação das linhas de ônibus no transporte público.

Mesmo sendo uma região com falta de políticas públicas e com poucos espaços culturais, os movimentos artísticos estão colocando a cara e fazendo acontecer de forma coletiva ações para o bairro!

E a partir da indignação com todas as questões que os circundam, nasce o coletivo Cores no Destroço, que começa a produzir arte em resposta ao mal estar causado com a população. Eles estão indo pra cima do gol! O coletivo é um time, e a maior torcida é a galera da própria região que quer ver os meninos crescerem. 

Cores Nos Destroços

Artelheiro é integrante do Cores no Destorço
Imagem: Thalita Guimarães (@thltnovais)

Artelheiro é integrante do Cores no Destorço, “um coletivo de artistas independentes que nasce para atuar como um time de várzea no campo da cultura, com todos os seus integrantes oriundos de uma quebrada ilhada chamada Jardim Apurá”, como disse o MC.

“A CND veio para contribuir no preenchimento do vazio que existe na cena cultural da região Pedreira/ZS, um vazio que ecoa poucas vozes devido à ausência de políticas públicas voltadas ao campo da cultura. Estamos localizados no distrito Cidade Ademar, onde o indicador de equipamento cultural criado em 2021, pela Rede Nossa São Paulo, aponta para o zero, isso é pior que escassez, isso significa que não existe suporte à cultura no distrito inteiro! Por isso que decidi montar um time de peso para ser raio em céu azul! É pokas!”.

E dando segmento às oportunidades e querendo que os meninos da favela tenham voz, ele também fala sobre o significado da música de um dos seus singles, o “Charles Neto”, que vem como uma continuação de gerações. Charles Neto, segundo Artelheiro, é “um mandrake drak drak drak do futuro!!! Porque ele tá sempre querendo pisar no futuro, entendendo como o passado construiu sua psique! Se pá que ele é uma junção da mente de muitos outros loucos como eu, ao mesmo tempo que ele faz parte de quem eu sou também! Ele é a continuidade geracional do Charles, anjo 45 apresentado poética e musicalmente por Jorge Ben em 1969, e um possível filho de Charles Jr apresentado pelo Jorge em 1970. Ele também é a continuidade das vivências e das complexidades das mentes pretas masculinas no século XXI”.

As inspirações de Artelheiro estão ao seu redor, são seus irmãos e irmãs, são os que o circundam. Ivo MC é um deles, artista de trap e também integrante da CND, além de outros artistas como Marabu, Ôbigo, Nayra Lays e Ana Be, que são da Nebulosa Selo.

Vem EP por aí!

No próximo semestre, o MC Artelheiro lançará um EP que vai passar a visão de que existem artistas fazendo funk na zona sul. O gestor cultural Wellison Freire fala sobre o EP: “não é só de um lado da sul, da Billings, é do outro lado da represa. (o EP) Traz outra narrativa e relações, as periferias são diferentes universos, outra galáxia mesmo”. Ele ressalta, também, sobre a importância do fomento à novos artistas e produtores em cima do EP. “Existe cultura aqui!”, disse e completa: “o EP do Artelheiro é um grito pra todos: pro funk, pro estado, pra gente de quebrada, e pra mostrar que a gente pode fazer. Que a pedreira e o Apurá tão produzindo. A gente quer colocar a nossa música no mapa!”.

A Nebulosa Selo e a Cores no Destroço seguem resistindo, levando cultura para a quebrada, mostrando o trabalho de quem está fazendo e que existem MCs no Apurá, na Pedreira e em todas as quebradas. “A nebulosa é feita por pessoas de quebrada, mas não tem uma locação definida, ela é itinerante. Ela tá na ZL, tá na ZS, no Capão, no Grajaú, no Apurá”.

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