Comportamento

Através do funk, Favelinha Dance se torna destaque no cenário artístico-cultural de BH

03.03.2022 | Por: Rayne Oliveira

Muitos projetos e pessoas dedicam-se para que o funk seja visto como cultura, por dialogar da melhor forma com a juventude, principalmente a periférica. Lá do Aglomerado da Serra, maior favela de Minas Gerais, localizado em Belo Horizonte, surgiu em 2018 a Favelinha Dance, um grupo de dança dedicado a promover estudos relacionados ao funk, que também se dedica em fortalecer nosso rolê. A KondZilla trocou um papo com o fundador e integrantes, então encosta e pega a visão. 

Bastidores da gravação de uma apresentação para o Festival Paralléle, exibido em Marseille, França

Tendo a rua e a vivência como seus principais professores, Carlos Eduardo dos Anjos, 31 anos, mais conhecido como Kdu dos Anjos, morador do Aglomerado da Serra, zona leste de Belo Horizonte, conseguiu enxergar a potência da cultura periférica e funkeira ainda na sua adolescência.

“Sou cria de projetos, sempre estava inscrito em muitas oficinas, então tive contato com todo tipo de arte. Em 2011 criei o Sarau Vira Lata, que movimentou demais a cena e colocou essa galera da perifa na rua”, comenta  o artista. 

Créditos: Matheus Angel

Depois de um longo tempo nas ruas, Kdu começa a focar dentro do local onde mora. Alugou um espaço que a princípio seria uma biblioteca e oficinas de rap, a qual tomou uma proporção muito maior, pois aos poucos foram chegando pessoas de todos os cantos querendo somar. Com isso, foram criando oficinas dentro do local, que logo em seguida se tornaria o Centro Cultural Lá da Favelinha. 

“No primeiro evento de rap que fiz, no local onde seria a biblioteca e as oficinas, vieram mais de mil pessoas. Todo mundo reunido, galera do black, dreads e isso causou um impacto não somente nas pessoas, mas como em mim também”, relembra Kdu, ao perceber a possibilidade do centro cultural como “refúgio” para todas as tribos que possuem dentro da quebrada. 

O Favelinha Dance

Notando o crescimento que o Centro Cultural estava tomando, o artista e produtor, Kdu, sentiu a necessidade de começar a ter recursos financeiros para manter as oficinas e profissionais que colaboraram. Sendo assim, realizou o Disputa Nervosa, onde reunia dançarinos da cidade inteira para participarem.

“Depois do evento, comecei sentir a necessidade de fazer algo mais profissional, fazer coreografias, inclusive, nessa época nós tínhamos Os Passistas Dance. Porém, o grupo acabou sendo desfeito e nisso surgiu o Favelinha Dance, com algo mais profissional”, comenta.

Grupo todo reunido em uma de suas apresentações
Imagem: Lentes de Lua

Lá no Aglomerado da Serra, “Favelinha Dance” utiliza a dança e em especial o funk, como instrumento de comunicação, tendo como objetivo incentivar outros jovens a empreender com sua arte e principalmente ocuparem espaços. Além disso, é possível reparar no começo das apresentações, a crítica social que é feita, como forma de combater a desigualdade social e as violências urbanas.

A integrante Samara Anacleta Costa de Oliveira, 21 anos, Belo Horizonte, mais conhecida como Samy Oliveira, assim como Kdu, também foi cria de projetos e mesmo tendo contato muito cedo com a dança, a jovem já conseguia notar o impacto em sua vida, que inclusive ajudou muito a perder a timidez. Durante sua trajetória, Samy experimentou outros estilos como o Hip Hop, mas foi no funk que ela se encontrou.

 “Eu nunca achei que fosse me tornar uma profissional, sempre vi isso como um hobby, mas em 2017 eu tive meu primeiro contato com a aula de funk e foi nessa cultura que eu me encontrei”, comenta Samy.

Samy em uma de suas apresentações com o grupo
Imagem: Lentes de Lua

Além de Samara, o grupo conta com a participação de NegonaDance,  24 anos, nascida em São Paulo e criada no Aglomerado da Serra, Belo Horizonte.  Começou sua caminhada em 2011 no Espaço Criança Esperança e após uma experiência como jovem aprendiz no mundo administrativo, decidiu seguir um dos seus maiores sonhos: a dança. Estudante de dança pela Universidade Federal de Minas Gerais e coreógrafa do Favelinha Dance, a jovem relembra o início de sua trajetória. “Em 2017 participei do Disputa Nervosa, batalha de funk organizada pelo Lá da Favelinha.

“Minhas amigas me escreveram e eu ganhei a competição, depois disso, comecei a frequentar o centro cultural, nisso o Kdu me chamou para integrar a equipe do Favelinha Dance”, conta Negona.  

Da esquerda para direita: Vitinho do Passinho, NegonaDance, Kdu, Tiphany e Dudu Sorriso
Imagem: Bruno Figueiredo

NegonaDance conta que hoje tudo que ela tem e o que é se tornou possível graças ao funk, além do mais, afirma que hoje a dança funk é seu maior sustento. “O funk fala de onde eu venho e pra onde eu vou. O funk me dá uma visão de futuro e agora, dentro da universidade, consigo perceber que 70% dos problemas da educação, que não estão ligados a dinheiro e tratando de sala de aula, o funk conseguiria resolver, pois dialoga com essa juventude”, afirma Negona. 

Além de apresentações em festivais como no estádio do Mineirão em Belo Horizonte, o grupo tem passagem pelo Museu de Arte Contemporânea do Val de Marne, mais conhecido como MAC, localizado na França em Paris. Tanto Negona, quanto Kdu, comentam que essa foi uma das apresentações mais marcantes, pois no mesmo dia que estavam em um Museu em Paris, nove jovens aqui no Brasil morreram em um baile funk em Paraisópolis, após uma ação violenta da Policia. 

“Nós fomos saber das mortes depois da apresentação, é uma loucura pensar que esse mesmo funk que estávamos dançando lá fora, aqui dentro estava matando por pura ignorância”, desabafa Negona.

NegonaDance, Tiphany, Vitinho do Passinho e Dudu em Paris, França
Imagem: Instagram

Além dela e Samy, o grupo é composto por Dudu Sorriso, João Victor, Tiphany GomesVitinho do Passinho. Durante a pandemia eles pararam com as apresentações, mas agora aos poucos, com as atividades sendo retornadas, Favelinha Dance espera que esse seja um ano de muitas danças e aprendizados. Se antes o mundo era a favela, agora a favela é o mundo.  

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