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“A música salva, mas não ressocializa ninguém”; conheça o trampo do Nego Bala

14.02.2022 | Por: Gabriela Ferreira

Neste último sábado, Nego Bala apresentou o disco “Da Boca do Lixo” no palco do Sesc 24 de Maio, em São Paulo. O álbum é o primeiro da carreira do artista e retrata um pouco da vida dele ao longo de nove faixas. A KondZilla trocou uma ideia com ele para entender mais sobre o trampo. Pega a visão:

Marcelo Abdinego Justino Generoso, vulgo Nego Bala, lançou o disco de estreia, “Da Boca do Lixo”, em novembro de 2021, aos 23 anos. Ao longo de nove músicas, o artista repassa alguns momentos de sua história. Nego Bala nasceu privada e foi criado na Cracolândia, filho de uma mãe usuária de crack e um pai batalhador, que estudou, trampou, mas acabou cedendo para o caminho do crime e perdeu sua liberdade aos 19 anos.

Na Fundação Casa, ele começou a pensar nas letras. “Eu era um moleque com pai, com fome, mãe nas drogas, mas ali já tinha rima pra me aliviar. O funk, a musica me salvou. Mas, ela não ressocializa ninguém. Não existe ressocialização sociedade na qual você nunca esteve inserido. Mas a música é cura, é inspiração de autoestima pra comunidade, pro meu povo. Disso eu nunca tive dúvida e isso veio bem antes da FEBEM”, ressalta Nego Bala sobre a importância da arte. 

“Da Boca do Lixo” demorou cinco anos para ser feito entre o processo de composição, produção e até regravação. “Esse primeiro álbum foi um processo extenso de muito aprendizado e descobertas sobre mim e o próprio mundo da música. Me descobri produtor e diretor de produção, além de MC, músico. Isso porque eu dirigi o álbum, juntamente com o meu parceiro Gustavo Santos, e nós também produzimos o álbum juntos”, diz o MC.

“No começo, a ideia já era unir o eletrônico e o orgânico, mas mais pra frente, percebemos que não seria possível fazer só com aquelas ideias. Precisamos expandir e o processo foi de muitos produtores. No álbum, tem vários co-produtores porque eles faziam nas suas casas uns rascunhos de ideias ou até mesmo deixavam alguma ideia pronta. Isso vinha pra nós no Estúdio Freak, que é a nossa ilha de produção, e eu Gustavo dávamos direção e destino a tudo aquilo que chegava de diversos produtores. Foi um processo longo, mas de muito aprendizado, descoberta e gratidão”, continua.

FOTO: LARISSA ZAIDAN

O álbum mescla o funk com diversas sonoridades, e Nego Bala explica que ele é uma “gastronomia musical”. “A gente chegou nessa sonoridade a partir das minhas poesias, de diversos ‘eus’, de diversos momentos da minha vida. Por exemplo, a ‘Diumjeitudiferent‘, fiz quando aos 12 ano; ‘Da Boca do Lixo‘ e ‘Buraco no Céu‘, fiz quando já estava na cadeia; ‘Anjo‘,  criei quando tinha 13 anos; a ‘Som de Preto‘, fiz depois que eu já tinha trombado o Gustavo e já estava com algumas músicas encaminhadas. A gente foi unindo essa gastronomia musical pra passear e transitar entre esses meus diferentes ‘eus’ entre os momentos que me concederam cada musiquinha, cada pérola dessas que estão no álbum. Para a sonoridade, a gente buscava no estúdio, no processo de laboratório, de entender a fonética de cada rima, a melodia, de cada letra, de cada poesia, estudando, testando acordes, testando arranjos”, relata o MC. 

Nego Bala apresentou os diversos “Negos Balas” do “Da Boca do Lixo” em show que aconteceu no Sesc 24 de Maio, em São Paulo. No show, o artista se apresenta junto com uma banda e instrumentos de sopro: “A importância e o objetivo de fazer isso é continuar o propósito pelo qual eu entrei no funk e o funk me ensinou, que é superação, conquista, ligado? É a questão da representatividade, sabe? Optei, propositalmente, por buscar o Sesc, por buscar uma banda, pra mostrar através do nosso funk, que é o nosso patrimônio, até onde a gente pode chegar com as nossas Além de tudo, nós temos e unimos nossos espaços, estar presente lá. Hoje, eu vejo que o funk está dando até dinheiro, tirando da miséria vários MCs e eu fico feliz por isso. Só retribuir pro funk a importância que ele tem nas nossas vidas, que é conquistar o espaço”.

Outro objetivo do Nego Bala com o show é mostrar a potência do funk, que até hoje é criminalizado. “Agora com o show com banda no Sesc, quero ver quem vai falar que o funk não é música, quero ver quem vai falar que nós não vamos ganhar um ‘Grammyzinho’ por aí. Não é só sobre a banda ou sobre o Sesc. É sobre já ocuparmos um espaço de protagonista da nossa história, que é nosso, que a gente tem que estar e que a gente vai estar e estamos, certo? É isso, não com vergonha de ir em um shopping nem de ir em Não fica com vergonha de ser quem você é. Entenda que você é a matriz de um trabalhador e de uma trabalhadora e os trabalhadores construíram o mundo. Vamos pra cima!”, disse.

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