Rosas Periféricas, o grupo de teatro que conversa com a favela

Autor:

Fotos por: Daniela Cordeiro // divulgação

Histórias que inspiram | 29/05/2019 16:12:39

Anexo faltante

Com 10 anos de carreira, o grupo de teatro Rosas Periféricas leva os mais diversos debates da quebrada para os palcos. Com vários projetos ao longo dos anos, e para comemorar a marca de uma década de existência, o grupo estreou a peça “Ladeira das Crianças – Teatrofunk”, um espetáculo inspirado na história de várias crianças do Jardim São Rafael, zona sul de SP. O Portal KondZilla foi atrás de saber mais sobre a história da companhia.

O Rosas Periféricas surgiu lá em 2009, quando Michele, Gabriela e Paulo estavam quase pra se formar em Artes Cênicas em uma universidade do centro de São Paulo. “Nós três somos da periferia e fazíamos esse corre de sair da quebrada pra ir pro centro estudar. Começamos a fazer teatro antes mesmo da faculdade. Aí um dia um professor estava falando da importância da gente se unir com os nossos, e disso pensamos em fazer o grupo”, explica Michele sobre o surgimento da companhia. “Percebemos que assim seria melhor do que pegar o diploma e sair batendo de porta em porta nas companhias de teatro tentando emprego, até porque a gente tá ligado que é difícil viver de arte no Brasil”.

Juntando a paixão de três jovens, o Grupo Rosas Periféricas nasceu com a vontade de falar sobre a vivência da periferia, que é a realidade dos três integrantes. Nessas, a companhia conseguiu fazer sua primeira peça, “Vênus de Aluguel” com uma grana levantada com a venda de trufas e rifas. “A história era de uma atriz negra que se formou na melhor faculdade de teatro, mas que não conseguia nenhum emprego por ser uma mulher negra de periferia. Aí ela tinha que trampar em várias outras funções porque não conseguia nada na área que ela se formou. Essa peça foi motivada por nós mesmo porque estávamos pra nos formar e ninguém tava trabalhando com teatro”, relembra Michele.

Esse espetáculo foi exibido em um teatro no centro de São Paulo, mas apesar da história falar sobre a vida na periferia, não foi vista por pessoas da quebrada. “Mesmo retratando a realidade da favela, a galera não ia ver a peça porque tinha que pagar transportes até o centro, alimentação e o ingresso… é muito dinheiro. Nessas, a gente também gastava umas duas horas de transporte pra chegar no teatro pra apresentar uma história que a galera não entendia porque não era a realidade deles”.

Pensando nessas questões, o Rosas decidiu que queria percorrer pela periferia pra dialogar com uma galera que fosse entender a realidade deles. Uma das integrantes do grupo, que mora no Parque São Rafael, cedeu a sala de casa para o grupo poder se reunir. “Fomos investigar a história do bairro porque não adiantava nada a gente chegar lá e não saber de nada. Com tudo que aprendemos com os relatos das pessoas, decidimos criar uma trilogia contando o passado, o presente o futuro de São Rafael”.

Com essa peça, o grupo conseguiu ir incluindo as pessoas do bairro em seus espetáculos. Pra isso acontecer, eles abriram algumas oficinas teatrais e quem se interessava acabava indo atuar nas peças. “Além dessa, também fizemos um espetáculo sobre os anos 90 na periferia e como a favela sofreu com a ditadura, porque achamos importante contar esse tipo de história e o que as pessoas sofreram”.

Uma das dificuldades que o grupo enfrentou quando decidiu se apresentar na periferia foi que a arte, principalmente o teatro, ainda é muito elitizado, e por mais que exista alguns grupos de teatro nas quebradas, o público ainda não consome muito esse tipo de arte. “Quando percebemos que o público não tava indo, começamos a bater na porta das pessoas pra divulgar, fomos em escolas e nas feiras livres”.

Para misturar as coisas, o grupo já tinha feito teatro com samba, com rap, MPB e um dia decidiu fazer um sarau com funk. “Esse foi o dia que mais encheu. Além da galera estar curtindo o som, eles estavam lendo, recitando poesia, lendo as coisas que eles escrevem. Por isso, decidimos ir mais pro funk porque ele também é de periferia. O rap é mais acusatório e dedo na cara, o funk vem com mais diversão”.

Essa experiência de sarau de funk foi em 2016, e desde então, a equipe do Rosas Periféricas começou a amadurecer a ideia de trampar com o funk dentro de um espetáculo voltado para os jovens. Pra isso acontecer, eles fizeram oficinas de história do funk, chamaram um MC, um produtor (pra ajudar a montar as letras que iriam pro espetáculo) e um grupo de dança pra ensinar os passinhos. “Convidei o Kelvin, que é meu irmão e MC. Na época, ele refazia os clipes da KondZilla numa versão pobre e escrevia as letras mais conscientes”.

Para Michele, a mudança vem com os jovens e por isso é importante trazer esses debates sobre preconceito, racismo e machismo para um público juvenil. Foi assim que nasceu o “Ladeira das Crianças – Teatrofunk”, a peça estreou em abril deste ano reunindo o funk e o relato de várias crianças do Jd. São Rafael. “Algumas pessoas vieram questionar o porque da gente trabalhar com funk e que a gente podia sofrer preconceito, mas nossas letras são conscientes, tem mensagem. Acredito que o funk, assim como aconteceu com o rap, sofre preconceito porque é uma linguagem da periferia”, explica.

Além das histórias das crianças, “Ladeira das Crianças” foi adaptada de dois livros: “O Pote Mágico” e “Amanhecer Esmeralda”, do autor paulistano Ferréz, que também é de quebradinha. “A arte é transformadora, mas só se a pessoa quiser ser transformada. Eu sou professora de ensino infantil e vejo que muitas crianças já chegam na escola travadas para alguns assuntos, isso acontece por causa da família que cresceu numa sociedade que ainda tem muito preconceito. Por isso a peça é muito bacana, por mais que seja mais voltada para crianças e jovens, muitos pais e parentes levam os filhos e também acabam absorvendo um pouco do que estamos tentando passar”.

“Tentamos colocar algumas coisas que aconteceram com a gente quando éramos crianças e que até hoje doem, para as crianças entenderam e irem construindo esse pensamento de que racismo e preconceito são coisas ruins”, fala ela sobre a construção da peça. “Não é só o público que se transforma, nós também. E queremos que nossos vizinhos, parentes e amigos também aprendam tudo pra que a nossa realidade mude”.

Se você se interessou pelo trampo do Rosas Periféricas, fica de olho na agenda de espetáculos deles no site. Além disso, o grupo está levantando um financiamento pra conseguir ir se apresentar em um festival em Portugal e você pode ajudá-los a levar esse trampo massa pra lá.

AJUDA NÓIZ!Queremos levar nossa arte periférica para o Festival Internacional de Teatro de Setúbal/ Portugal.NOSSO…

Posted by Grupo Rosas Periféricas on Tuesday, May 21, 2019

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