Comportamento

Barba, cabelo e bigode: conheça as histórias de mulheres que são barbeiras e se destacam na profissão

02.04.2021 | Por: Rayane Moura

O lugar de mulher é onde ela quiser e isso não se discute! Mesmo em pleno século XXI, a presença feminina em ambientes majoritariamente masculinos ainda causa estranheza e gera preconceitos. 

Muitas mulheres vem provando que esse pensamento antigo e preconceituoso já não cabe mais nos dias atuais. De acordo com dados fornecidos pelo Ministério Público do Trabalho, em 2007, o sexo feminino representavam 40,8% do mercado formal de trabalho e, em 2016, elas passaram a ocupar 44% das vagas. 

O modelo de negócios das barbearias, por exemplo, cresceu muito nos últimos anos. Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Qualibest, 43% dos homens já se consideram vaidosos e 54% frequentam regularmente salões e barbearias. Na mesma medida, o número de profissionais mulheres dentro desse tipo de estabelecimento se faz cada vez mais presente.

Pensando nisso, o Portal KondZilla bateu um papo com quatro meninas que são barbeiras e têm a profissão como principal fonte de renda. Pega a visão!  

Foto: Arquivo pessoal 

Thaina Criscila Alves dos Santos, de 23 anos, é cria do Parque João Ramalho, em Santo André. Barbeira desde dos 14 anos, ela conta que já nasceu gostando e aprendeu o ofício apenas olhando os caras da quebrada que cortam cabelo, e depois colocando em prática.

“No começo fui recebida com muito preconceito pelo fato de ser MULHER, sempre com umas brincadeirinhas nada agradáveis, sempre com um pouco de preconceito, é com bastante rejeição no começo”, explica Thaina. 

Sobre como Thaina lidou com todo esse preconceito, a barbeira explica que foi de forma simples: colocando o seu trampo em prática. “Foi fácil, mandei sentar na cadeira e se não gostasse, não precisava pagar. Teve uns e outros que ignorei, porque não valeria a pena questionar. Conforme o tempo foi passando, eu comecei a pegar prática, e fazer alguns cortes mais modernos, aí eles foram vendo passo a passo, e fui ganhando cada vez mais clientes”, conta. 

Com nove anos de profissão, há cerca de três anos Thaina resolveu encarar o desafio de ser proprietária da sua barbearia, dentro da quebrada em que nasceu e cresceu.  “Já pensei em desistir várias vezes pelo fato de como é difícil no começo. Errar bastante, levar vários esporros, mas minha força de vontade era tão grande de aprender de ser uma profissional que mesmo na dor eu encarei, e consegui”, disse ela.  

Após um ano de pandemia, Thaina teve uma queda brusca na quantidade de clientes. “Está dando para se manter e pagar as contas. Fiz promoção, baixei o preço do corte, porque higiene é a essência dos homens. Pensei bastante no próximo, porque nem todo mundo tem condições de pagar R$ 25,00 na favela”, conta a barbeira. 

Por conta do atual cenário, ela está trabalhando com as portas fechadas, com uso obrigatório de máscara e álcool em gel no local. O atendimento é feito por ordem de chegada, com limite de pessoas para não gerar aglomeração. 

Thaina tem o sonho de abrir sua própria rede de barbearias espalhadas por São Paulo. “A primeira já tenho graças a Deus, a segunda tô em planos ainda, e se dedicar cada dia mais focar mais é mais”, conta ela toda esperançosa. 

“Quem quiser estar indo dá uma conferida no meu talento fiquem à vontade. Sempre uso essa frase e tenho escrito na minha barbearia ‘A FAVELA VENCEU’. O significado dessa frase é que vencemos, que somos todos iguais, não devemos desmerecer aqueles que moram em favela, seja pela cor de pele ou gênero. Eu amo minha profissão e sou Favela sempre”, conclui Thaina. 

Foto: Reprodução Instagram

Fernanda Rebeca Marques da Silva, de 18 anos, é outra barbeira que se destaca na profissão. Moradora do Jardim Alzira Franco, em Santo André, ela trabalha bem próximo de onde reside. Diferente de Thaina, Rebeca ainda não tem o seu próprio negócio, e exerce sua função em uma rede de barbearia da região, sendo a única mulher da equipe. 

Em 2018, Fernanda entrou de cabeça na profissão e se especializou após fazer um curso. “Foi algo que sempre me chamou atenção, e quando meu tio mergulhou de cabeça na profissão, me fez querer saber mais sobre”, explica ela. 

Sobre os preconceitos, ela explica um pouco da dificuldade que é: “Confesso que no começo foi bem difícil, às vezes até hoje é. Para conquistar os clientes e ganhar a confiança do público masculino, tive que melhorar cada dia mais o meu trabalho, e interagindo com meus clientes, praticando cada vez mais”, conta a barbeira. 

Assim como Thaina, Fernanda lida com o preconceito mostrando o seu trabalho. “Até hoje as vezes acontece, não tenho muito o que fazer, faço de tudo para fazer sempre um ótimo trabalho e isso já diz muito”, explica ela.  A barbeira também conta que a sua principal motivação para continuar é sua paixão pela profissão. 

Após um ano de pandemia, Fernanda sentiu o impacto com a diminuição na quantidade de clientes. “Não está sendo fácil, o número de clientes caiu bastante, já que a maioria ficando em casa, não sente tanta necessidade de cortar o cabelo ou fazer a barba”, ressalta a barbeira. 

“Meu maior sonho é ter a minha própria barbearia, do jeitinho que eu quero”, conta Fernanda sobre a sua principal meta no momento. 

Foto: Arquivo Pessoal

Viviane Rocha, de 39 anos, é morada da Aclimação, no centro de São Paulo. Desde 2017 na profissão, ela teve interesse pelo ofício após acompanhar o namorado. “Estava um pouco cansada da minha área de atuação (comunicação), e com vontade de empreender e aprender algo novo. Meu companheiro Wallan, que também era da comunicação, havia feito esse movimento e tinha aberto há alguns anos a Caballeros Barbería, que fica no centro de SP e que estava dando certo e assim, pensamos em ampliar o negócio, e com isso me tornei barbeira”, enfatiza. 

Vivi, como gosta de ser chamada, aprendeu a profissão com o companheiro, além de fazer um curso básico de barbeiro e ver vídeos no Youtube. “Desde o início quando fiz o curso, eu e em média 30 homens, já havia aquele olhar de desconfiança, e ao mesmo tempo admiração, tanto dos alunos barbeiros, que estavam aprendendo, quanto dos clientes”, explica a barbeira. 

Assim como as outras meninas, ela também já passou por algumas situações desagradáveis de preconceito. “Sim, diversos momentos em que clientes passavam e viam uma mulher dentro da barbearia, ou não entravam, ou quando entravam, achavam que eu era somente a dona ou a moça da recepção. ‘Mas você corta? Mas você faz barba? Mas mulher sabe cortar cabelo de homem?’, além dos atos velados, no caso os cliente tenso na cadeira durante o atendimento”, conta. 

“Na barbearia é necessário, além de um bom corte, um bom atendimento, bom papo, educação e saber tornar aqueles 30 minutos / 1 hora agradáveis. A cadeira do barbeiro é como um divã de psicólogo: Os cliente gostam de falar de assuntos pessoais, amorosos, profissionais. Eu percebo que a figura feminina num espaço majoritariamente masculino, traz em alguns clientes uma abertura bacana para conversar sobre temas pouco abordados da suas vidas. É uma troca que eu adoro. É uma das partes mais legais”, destaca Vivi sobre uma das partes que mais ama no seu trabalho. 

Por conta do atual cenário, ela precisou voltar a trabalhar com comunicação para se manter. Antes com duas unidades da Barbearia Caballeros em funcionamento, por conta da pandemia uma delas precisou ser fechada. Atualmente, ela atende apenas alguns clientes fiéis aos sábados, com horário agendado e seguindo o máximo cuidado para o momento, utilizando álcool em gel, máscara, e recebendo um cliente por hora. 

“Meu desejo pra mim e pra todos os barbeiros, nesse momento, é que cada barbeiro possa de alguma forma conseguir levar comida para suas casas. Os barbeiros geralmente são profissionais autônomos, dependem dos clientes, e com essa pandemia está tudo muito difícil”, completa a barbeira.

Foto: Arquivo Pessoal

Tainara Pereira de Souza, mas conhecida como Tai Barber, tem 24 anos. Moradora de Juazeiro da Bahia, atualmente trabalha em uma rede de Barbearia na cidade vizinha, Petrolina, no Pernambuco. Na profissão há cerca de quatro anos, ela optou por esse ofício após influência de alguns familiares que são barbeiros. 

“Há princípio eu era estudante de contabilidade, porém eu não estava muito satisfeita com o que eu fazia, com o curso que eu estava fazendo. Na época eu estava precisando trabalhar, o curso no momento não estava me proporcionando isso, e eu vi a barbearia como uma opção”, explica Tainara, que de início não foi levada muito a sério e nem teve incentivo da família, mesmo tendo cinco familiares diferentes com barbearias.  

Mesmo sem muito apoio, Tainara persistiu na profissão e começou a fazer cursos para se especializar como Barbeira. Além disso, recebeu ajuda de um dos primos barbeiros, e ganhou a primeira máquina da mãe. 

Sobre a questão de preconceito, Tai conta que sofreu mais com os colegas de trabalho em uma das barbearias que já trabalhou. “Eu via mais por parte dos profissionais, do que dos clientes. Eu sempre tive uma aceitação muito boa por parte dos meus clientes, graças a Deus, era mais questão de receio mesmo, por ser um profissional novo, e de ser um trabalho que as pessoas não conhecem e vão apostar ali pela primeira vez. Por parte de alguns colegas, eu já consegui identificar um certo preconceito, acho que medo de conquistar o espaço que eles já tinham, enfim, de perderem a visibilidade deles para uma mulher e por isso passei por alguns conflitos, mas tudo superado”, argumenta. 

“A gente está em um ambiente majoritariamente masculino, homem é homem, então sempre vão ter algumas situações que nos deixa um pouco receosas, apreensivas, mas a gente tem que ter um jogo de cintura para saber lidar com aquela situação e não leva muito para o pessoal”, conta a barbeira sobre como lidar com algumas situações que passou. 

Atualmente Tainara tem o sonho de abrir a própria barbearia, junto com o companheiro que também é barbeiro. “Não está muito longe da gente conseguir, a gente está se planejando, se preparando para que isso aconteça. Esse é o nosso maior sonho, empreender, dar as caras e mostrar o nosso trabalho e crescer na profissão”, explica ela. 

Ela também sonha em profissionalizar as pessoas, no mercado da barbearia. O projeto foi interrompido por conta da pandemia, mas ela sonha em levar a profissão de forma voluntária em um trabalho missionário na África. “É algo que está no meu coração, meu maior desejo de todos é profissionalizar pessoas no mercado da barbearia. Quero levar a profissão para os irmãos da comunidade carente em Moçambique”, conta a barbeira, que não desistiu da missão e pretende arrecadar doações e ir em um pós pandemia. 

Assim como Thaina, Fernanda, Viviane e Tainara, muitas outras mulheres exercem a mesma profissão, e são barbeiras. Mesmo com os números crescendo, o assunto ainda precisa ser pautado, pois essas mulheres precisam de visibilidade e menos preconceito, que já vem sendo estabelecido pela sociedade há muito tempo. Valorizem o trampo das minas!

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