As minas estão destravando no Passinho do Magrão
Créditos: Reprodução
- Por Fernanda Souza

As minas estão destravando no Passinho do Magrão

Quem acha que no baile funk as minas só jogam (expressão que significa rebolar a raba) está bem enganado. Quem cola em baile já viu as minas mandando o magrão, no Instagram, páginas de Passinho do Magrão mostram várias minas arregaçando no estilo de dança. Troquei um papo com uma mulherada e trouxe alguns vídeos aqui para o Portal KondZilla de umas minas que são braba na dança do Magrão. Brota.

Existe um certo estereótipo preconceituoso de que as mulheres funkeiras são iguais. Ou seja, dançam do mesmo jeito, usam as mesmas roupas, gostam do mesmo funk, concordam com todas letras e tem o mesmo comportamento em baile. Obviamente não é verdade, pois cada mulher, como outros grupos sociais, têm as próprias características e são individuais. Cada uma é uma pessoa única.

No papo de baile e dança, tem muita mulher que cola e destrava no passinho que está em alta em São Paulo, o magrão. Cada uma do seu jeito, algumas só movimentando as mãos, enquanto outras com muita habilidade do corpo todo chamando a atenção de quem passa e virando referência para outras minas, pois infelizmente, como em toda cultura, ainda tem uns manos que acham que Magrão é coisa de homem.

Bom, quem diz que Passinho do Magrão é dança de homem eu já aviso: é papo furado. Quero ver falar isso pra Sandra Evelyn, mais conhecida nas páginas e nos bailes como ‘’Rainha do Magrão’’. Não tem como não ver um vídeo dela destravando e não querer sair dançando na hora de tão chave e desenrolada que ela é lançando os passos. Aliás, olha os meninos pirando e chegando pra dançar ao lado dela no vídeo de post de Instagram a seguir.

Segundo Sandra, ela tinha vergonha no começo de gravar por medo de julgamentos masculinos. ‘’Comecei lá em 2014 com Passinho do Romano, tá ligada? Via meus irmão dançando e comecei a dançar”, comenta Evelyn. “Não postava porque tinha vergonha. Em 2019 o Magrão explodiu e comecei a postar, dai fui considerada pelas minas e pelos moleques como ‘rainha'”. Ela ainda acrescenta que tanto as minas quantos os homens querem sempre tirar uma foto ao lado dela.

Além de Magrão, Sandra contou que também gosta de rebolar. Tem momento para tudo, ela que decide. Ainda perguntei se gosta mais de rebolar ou lançar o Magrão. “Mano, a brisa é que eu gosto dos dois. Depende do dia, pois tem dia que quero só fazer um dos dois. Tem que fazer o que eu quero”.

A ‘Rainha do Magrão’ ainda me contou que é difícil alguém tirar uma onda da cara dela, e reforçou numas ideia muito quente de que fica triste pela falta de respeito de zuarem alguma mina que está aprendendo. “Fico triste pelas meninas, pela falta de respeito ao próximo. Elas tentam e querem aprender, umas pessoas ficam zuando. Mas sempre chamo elas e troco uma ideia, incentivo a fazer o que quiserem”, encerra.

Na postagem do Instagram, Ananda usa a legenda ‘mina dançar igual os mano no baile, mó feio’ e mostra que as minas estão nem aí para o que vão falar. No vídeo, Ananda, com 18 anos e de uma opinião forte e bem articulada, disse ter gravado o vídeo dessa forma para afrontar mesmo. “Eu acho que você dança do jeito que você quiser. Magrão é isso, cada um tem um jeitinho de dançar. Então, por que só homem pode dançar?”, questiona.

No baile tem crescido as minas dançando passinhos, não só rebolando a raba, o qual é importante reforçar não ter problema nenhum só rebolar, mas as minas podem e tem autonomia de fazer o que quiserem. “Magrão veio pra libertar, ficamos mais à vontade no meio do bailão”, disse Ananda.

Na mesma ideia da Ananda, Ana e Raquel, de Tietê, interior de São Paulo, mostram que não são só as minas da capital paulista que estão avançadas na visão da dança, no interior também. Você certamente deve ter visto o vídeo delas viralizar no Instagram dançando na rua uma mistura de Magrão com as origens do Romano. Mas o que talvez você não saiba é que durante toda a conversa que troquei com elas, passar a visão de que mulher dança como quiser é constantemente ressaltada.

“A gente mostra que menina dança como quiser. A gente começou a ver vários moleques dançando, mas nada de mina. Pensamos que tínhamos que aprender e dançar”, disse Raquel, a de shorts no vídeo. As parceiras de dança com apenas 15 anos dançam outros tipos de passinhos do funk como o Passinho Foda e Passinho dos Maloka, que você pode conferir na página delas.

Ana, a outra integrante da dupla, de cabelo liso, relatou que muitas pessoas tiram sarro delas porque a dança ainda é considerada por muitos como estranhas e claro, de “menino”. “A gente dança como e onde quiser. Muitas pessoas zoam a gente, fazem memes, mas a gente mostra que menina pode dançar como menino basta querer, a gente quer passar a visão por meio da dança”.

Funk pra mandar o Magrão

Uma coisa é unânime: as melhores músicas pra lançar o Magrão, de acordo com todas as meninas, são as antigas – ainda mais em cima do mandelão. A batida certa faz toda diferença pra movimentação do corpo. Além disso, sempre tem o movimento que cada uma gosta mais de marcar, que é impulsionado pelo beat certo.

“Ah, as músicas mais antigas do MC GW e MC Magrinho”, disse Sandra. O que é mais louco, pois Ananda também mencionou ideias semelhantes, “O MC que mais dá uma brisa pra dançar são as do GW, pois a voz dele é muito foda e combina com grave”.

Tem DJ que lança o som pensando no Magrão, colocam até no nome da faixa algo relacionado à dança. Para vocês entenderem melhor, pega a referência de uma música, inclusive na voz do GW, querida pela galera pra lançar o passo brabo.

Uma coisa que você precisa saber, a qual a Ananda me contou, mas que também é opinião das outras meninas, é que funk rave (ou beat muito rápido) não serve pro Magrão. Elas têm preferência por determinados estilos. “Pra mandar o Magrão tem que ser envolvente, porque daí você já vem com o rosto virando e ombro. As antigas ou que tem toque fino, mais no agudo são as brabas. Beat envolvente de ‘rave’ não é da hora pra desenrolar”, conta Ananda.

“Ah, Magrão você tem que sempre mandar os braços, manjar no ‘kikinho’ e para fazer o facão (um dos movimentos da dança) tem que ter ‘o’ gingado, se é que me entende? Pra encaixar esses passos a batida também tem que ser dahora, por isso principalmente as antigas que a gente se identifica”, comenta Sandra sobre a combinação de música e som. O que é uma verdade, porque as músicas marcadas são as mais chaves pra encaixar os passos.

View this post on Instagram

Só o basico p vcs kkkkkk 🥳

A post shared by Aninha Guarnieri 🏳️‍🌈 (@vitoriaguarnierisz) on

Papo mandado, as mulheres funkeiras não são iguais e não existe essa ideia de dança de homem e dança de mina, até porque o funk e a dança estão aí para geral. Mas uma coisa é certa, as minas estão dominando o Magrão, roubando a cena. Elas mostram propriedade não só na dança mais como também nas músicas. Não tem como encerrar o texto sem dizer: Magrão vive, daquela forma!

Quem quiser acompanhar todas elas no Instagram é só procurar por: Sandra; Ananda; perfil da dupla Ana e Raquel ou ainda Aninha.

Leia também

‘As Malokonas’ de BH mostram versatilidade no passinho

Assista também

Tags relacionadas:

Dança

Comportamento

Matérias