A funkeira Lacraia é um ícone dos LGBTs no Brasil

Autor: Matias Maxx

Fotos por: Matias Maxx

Diversidade | 28/06/2019 17:24:06

Anexo faltante

*todas as fotos foram extraídas de uma gravação em Mini-DV de 2003.

No final do ano passado, um vídeo mostrando mulheres trans dançando no Baile da Gaiola viralizou, gerando uma reação homofóbica por parte dos internautas. Indignado, o DJ Rennan da Penha convocou para janeiro uma edição especial LGBT do baile, com participação de artistas, ativistas e influencers do meio, provando que a favela é um ambiente menos homofóbico que o resto da cidade carioca, tema muito bem explorado no documentário “Favela Gay”. A ideia era dar continuidade a essa “Parada Gay da Penha”, mas infelizmente nas semanas seguintes o baile acabou sendo embargado pela polícia e o DJ Rennan condenado num processo de associação ao tráfico. Num vídeo postado antes de entregar-se para a polícia, Rennan faz questão de agradecer “o apoio da comunidade LGBT”.

Quinze anos antes da existência de MCs como Mulher Popita, MC Trans e a DJ Iasmin Turbininha, uma pessoa LGBT brilhou no funk, a dançarina Lacraia que fazia dupla com o MC Serginho. A dupla dominou as rádios e programas dominicais no início do século, com os hits “Vai Serginho”, “Éguinha Pocotó” e “Vai Lacraia”. Cria do Jacarézinho, Marcos Aurélio Silva da Rocha em 1976, a ex-cabelereira e maquiadora Lacraia, conheceu o ex-frentista Sérgio Braga Manhães. “Eu era dj dos bailes funks da comunidade e a Lacraia tava sempre nos bailes que eu tocava, dançando” conta o MC Serginho. “Quando eu estourei com ‘Vai Serginho’, ninguém queria que eu levasse ela, mas nós éramos amigos e ela tava sempre junto nos eventos que eu fazia, aí fomos juntos e começou a dupla”.

“Naquela época, há mais de 15 anos atrás o pessoal se espantou porque ninguém teve a coragem de colocar um homossexual assumido no palco, ainda mais dançando funk. Mas depois o pessoal curtiu e levava de boa, nunca foram agressivos com a gente, primeiro tinha aquele impacto, mas depois ela conquistava o pessoal, com a dança, a alegria e a irreverência dela.” Da amizade entre os dois surgiu inspiração para a música “Machão” que faz graça de um tipinho homofóbico, “diz que isso tá errado, quando vê fica bolado / ele diz pra todo mundo que não gosta de viado / mas quando chega a noite ele sai pra procurar / um alguém bem diferente pra de lado ele trocar”.

Tive a oportunidade de registrar um vídeo da dupla em 2003, quando eles fizeram participação na apresentação do DJ Marlboro no Tim Festival, no Museu de Arte Moderna do Rio. Foi uma noite muito importante para o funk, pela primeira vez um artista de funk participava de um festival desse nível, dividindo o line-up com grandes atrações como The White Stripes, Public Enemy, Front 242, Peaches e Los Hermanos. Depois de Cidinho e Doca subirem ao palco, foi a vez do MC Serginho que começou a apresentação com uma homenagem ao Claudinho da dupla Claudinho e Buchecha, morto no ano anterior num acidente de carro. A emoção da platéia foi logo rebatida pela participação da Lacraia, que entrou no palco com um look meio Kelly Key, meio RBD, remexendo seu corpo esquálido de forma frenética, arrancando sorrisos da multidão.

O ápice desse show foi quando Serginho ofereceu R$50 para quem beijasse a boca da Lacraia. A primeira a subir foi a Preta Gil, mas aí seria marmelada, então subiu um maluco sem camisa meio “playba” que acabou arregando e dando apenas um selinho mequetrefe na dançarina. Acabou sendo expulso do palco ao som de um corinho puxado por Serginho – “ê, ê, ê, ê, tem um viado querendo aparecer”. Finalmente um rapaz que trabalhava na limpeza do evento, subiu o palco e beijou a Lacraia com uma vontade ímpar, conquistando merecidamente os R$50.

O MC conta que a brincadeira, inconcebível hoje em dia, começou num show em Minas Gerais. “O pessoal curtiu a pampa e a gente levou pra todos os shows, uma marca no show da gente era o beijo na Lacraia, cinquenta reais pra beijar, eram dois minutos de beijo e o pessoal caia dentro, beijava mesmo”.

Antes da personagem Lacraia, a dançarina se apresentou em boates “GLS” (segundo termo usado na época) com as alcunhas de Margarete Robocop e Volpi Jones, mas foi no funk que ela ficou famosa. “Ela era fora do palco exatamente como era no palco, brincalhona, nunca se aborrecia com nada, tava sempre de boa com a vida, era uma pessoa diferenciada mesmo, um ser de muita luz, tava sempre rindo. Ainda mais depois que ela incorporou a Lacraia ela passou a ser lacraia 24hs por dia, até 26, porque ela fazia hora extra”, lembra um emocionado Serginho. Em depoimento dado ao livro “Batidão” do jornalista Silvio Essinger, Lacraia diz, “o baile está aberto para todo mundo. Essa pessoa que eu sou e sempre fui assim. As roupas que eu uso eu sempre usei. Sempre fui para baile funk com o Serginho”.

Ainda que de forma caricaturada, o sucesso de Serginho e Lacraia serviu para normalizar a figura das pessoas trans não só no universo funk, como na sociedade brasileira como um todo e até mesmo dentro da militância. Conversei sobre isso com a ativista LGBT Indianara Siqueira que tem mais de três décadas de militância na questão, já integrou o gabinete do deputado federal Jean Wyllys e recentemente foi tema de um documentário lançado no festival de Cannes. “Todo mundo falava no início que ela era Gay. Tinha toda uma questão na época dentro dos movimentos sociais, de travestis e transexuais terem um corpo padrão para poderem ser consideradas trans e travestis, coisa que a gente hoje consegue derrubar. Então eu acredito que na época ela representou muito, e continua representando, por estar em programas de TV, e entrar na casa das pessoas em horários como sábado e domingo a tarde. Por mais que ela não tivesse consciência da política do movimento organizado dos travestis, só a arte dela representava muito, a maneira extravagante como ela fazia, que rompia com padrões. Ela ia na parada gay também”.

A dupla permaneceu junta até 2009, quando Lacraia seguiu carreira como DJ de música eletrônica. Em 2011, faleceu no Rio de Janeiro, vítima de Pneumonia. Indianara lamenta e pontua. “Ela foi um ícone que a gente perdeu e podia ter valorizado bem mais, mas é isso, ela foi muito importante, e continua sendo, a lembrança dela e o que ela fez está gravado para as gerações verem e é muito importante”.

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