Cannes recebe “Hell Grind”, longa-metragem produzido inteiramente por inteligência artificial
Hell Grind, filme de 95 minutos gerado integralmente por ferramentas de inteligência artificial, teve estreia nesta quinta-feira no Festival de Cannes. A startup responsável pelo projeto, Higgsfield AI, informou que o custo total da produção foi de US$ 500 mil, dos quais US$ 400 mil foram gastos em capacidade computacional para gerar as cenas.
A empresa, instalada em San Francisco e criada há três anos, afirmou que levou duas semanas para concluir o longa. A narrativa acompanha quatro ladrões de rua em uma jornada rumo ao inferno, com foco no personagem Roco, que atravessa um ambiente distópico para resgatar Lulu, sua parceira e interesse amoroso.
Em uma postagem no Twitter reproduzida durante a cobertura, foi destacado que a produção foi finalizada em 14 dias por 15 profissionais, parabenizando Alex Mashrabov e a equipe pelo resultado. A menção reforça o ritmo acelerado do trabalho descrito pela Higgsfield.
Debate sobre uso de IA no cinema
A exibição de Hell Grind ocorre em um momento de intensas discussões sobre o papel da inteligência artificial nas etapas da produção cinematográfica — do roteiro e atuação à direção, edição e efeitos visuais. Participantes do festival relataram que o clima em Cannes mudou de um receio mais acentuado para uma aceitação cuidadosa da tecnologia.
Durante uma coletiva no evento, a atriz Demi Moore declarou que os profissionais do setor precisam aprender a conviver com as ferramentas de IA. “A IA está aqui. E lutar contra isso é lutar uma batalha que vamos perder”, afirmou.
Para a Higgsfield, o longa também funciona como uma vitrine para estúdios de Hollywood, demonstrando a capacidade de seu conjunto de ferramentas em manter coerência visual ao longo de uma obra. A startup não criou os modelos de geração de vídeo usados no filme, recorrendo a soluções já existentes, entre elas o Veo 3, do Google; seu trabalho concentrou-se nas ferramentas que preservam consistência visual entre múltiplas gerações de imagens.
Processo de produção e desafios técnicos
Adil Alimzhanov, líder de conteúdo da Higgsfield e membro da equipe do filme, explicou que cada prompt gerava cerca de 15 segundos de vídeo, e que muitas gerações eram necessárias até atingir o resultado desejado. Os primeiros 25 minutos do longa exigiram 16.181 gerações iniciais, que foram refinadas até originar 253 tomadas finais.
Imagem: Imagem Divulgação
Um dos maiores obstáculos apontados foi manter a uniformidade visual entre cenas, já que modelos de IA tendem a produzir variações significativas. Para reduzir essas diferenças, os prompts utilizados eram extensos — em média com 3 mil palavras — e traziam instruções detalhadas sobre estilo visual, iluminação, tipo de lente e até regras físicas, como gravidade e peso de objetos.
Alimzhanov disse que a equipe descartou centenas de vídeos por pequenos problemas visuais ou por movimentos considerados inadequados durante o processo. “Você não pode entrar na IA e pedir para ela fazer um vídeo legal de 95 minutos”, declarou.
O filme chega ao festival enquanto a indústria debate limites e possibilidades da IA na produção audiovisual, sem consenso definido sobre como a tecnologia será integrada ao trabalho criativo.
Com informações de Olhardigital